Os Diferentes Tipos de Narradores

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Em umas das tarefas do primeiro módulo da Clipe 2015, curso de preparação para autores realizado pela Casa das Rosas em São Paulo, foi proposto aos alunos, investigar, observar e exercer os diferentes tipos de narradores em suas histórias.

Abaixo seguem três versões de uma mesma história contadas por narradores diferentes.

A incrível história do homem que desistiu de viver

3ª PESSOA - narrador oniciente, aquele que sabe de tudo, pensamentos, ações dos personagens e o porque de cada coisa.

Era uma vez um homem que desistiu de viver... No entanto, não se jogou da ponte, nem tomou veneno ou deu um tiro na têmpora, embora o som da palavra cicuta lhe agradasse e lhe fazia lembrar daquele filósofo com nome de jogador. E assim um misto de dó e dor faziam com que ele gostasse ainda mais daquele homem, mais do filósofo do que do jogador, já que este último nunca defendera as cores do seu time de coração.

Um pequeno homem, diziam sobre o filósofo, baixo e feio diziam as más línguas dos historiadores. Como Jesus Cristo foi acusado de corromper a juventude com suas ideias. Fato é, que de todos esses homens, nenhum tinha desistido de viver, mas ele sim tinha.

Alguém lhe disse que; desistindo de viver, ele se transformaria em uma pessoa extraordinária. Não o extraordinário de belo, maravilhoso exemplar, mas alguém fora da ordem, fora do normal, fora daquilo que se esperava das pessoas corretas. Desistindo ele estaria  fora do combate bravio e rotineiro “Que só os fortes aguentam”, diziam com olhos fechados e dedos em riste como se apontassem aos céus ou a outra verdade absoluta.

Mas ninguém entendia que desistir não era ficar trancafiado numa sala vivendo sobre a cama. Nem jogar-se dum alto prédio ou na frente do trem. Muito menos que todas essas possibilidades, com uma admirável destreza de não fazer mal a ninguém, nem mesmo a ele. O Homem tinha desistido de viver, mas continuava a pagar suas contas, ir ao trabalho, subir e descer escadas. Trocava ou comprava novas roupas e lavava a calçada aos finais de semana, tudo o que as outras pessoas cheias de vida faziam, mas ele... tinha desistido.

2ª PESSOA - O narrador é próximo do personagem, tem algum grau de parentesco ou intimidade, pode-se direcionar diretamente a ele, emitir sua opinião sobre as ações e pensamentos do personagem, no entanto, aqui o narrador não sabe de tudo, mas baseado no conhecimento que tem o personagem, pode "prever" algumas de suas ações.

Homem!!! Pra que desistir de tudo? Que fraqueza é essa? Bom menos mal que não vai se jogar da ponte, era só o que faltava né? Também não vá querer dar uma de poeta romântico e contrair tuberculose por ai, ou outra doença fatal. Seja homem que história é essa de desistir de viver?

No entanto, lhe aconselho por esses dias a ficar longe daquelas leituras que lhe deixam tão pra baixo, Sócrates que foi mal interpretado e injustamente morto, eu sei, é de foder uma coisa dessa. Mas também o que você quer? Em contra partida disso outros paspalhos dão com uma doze na cabeça, aquele louco varrido do Hemingway, não é parâmetro pra ninguém! Esqueça! Pense então no Sócrates do meu Timão, sei que você lamenta o fato dele nunca ter jogado pelo Palestra, mas são coisas da vida, paciência.

Por outro lado amigo, esqueça essas pessoas que dizem que desistir é coisa de fracos, é pecado e outro monte de baboseira. Porque eles burros levam tudo pro lado literal da coisa, acham que você vai se matar mesmo, se jogar da ponte, cortar os pulsos e esse monte de merda que as pessoas fazem por aí. Não é assim né?

Pois bem amigo, eu digo a você não desista, digo isso como conselho, mas a escolha é sua e não irei gostar mais ou menos de você por isso. Na verdade vou virar as costas e deixar você com seus pensamentos e filosofias, ou a total ausência desses.

Tranquilo, sem remorso de deixa-lo só, pois sei, que você continuará lavando a calçada, vai continuar a pagar as contas, ir ao trabalho, subir e descer escadas. Independentemente do que você escolher, ninguém vai notar, nem vão te aplaudir ou vaiar, ninguém vai perceber, mas eu sei amigo... que você... Desistiu...


1ª PESSOA - É o próprio personagem que narra a história, portanto, todas as ações e a narrativa por completo segue o seu ponto de vista, opinião e tendências, pode ser o tal do narrador não confiável que pretende que o leitor aceite a sua história.

Primeiro veio a revolta por tudo e por nada, vontade de explodir e ser a bomba que levaria tudo ao redor para os ares. E foi dia e noite, meses e anos de altos e baixos que levaram a cicatrização forçada das feridas, e o corpo e a alma calejarem. A partir daí, não quis mais nada, nem xingava mais o juiz ladrão ou o centro avante perna de pau que perdera mil gols. Nem políticos safados nem amores traídos, chegou o tempo em que eu desisti de tudo, tudo mesmo, inclusive de viver...

Contudo, a consequência de desistir não seria pular da ponte, cortar os pulsos ou beber cicuta igual fizeram Sócrates beber. Ah... Eu desisti até mesmo da filosofia e meu último pensamento espontâneo foi imaginar o Dr. Sócrates vestindo a camisa do Verdão. Mas também não ligava mais pra isso, desisti do grito de gol no meio da comemoração enquanto a rede ainda balançava.

Eu bem sei que nenhum dos Sócrates e outros mártires ou homens admiráveis tinham desistido de viver, mas eu desisti. Então vieram  todo tipo de gente conversar comigo, religiosos, moralistas e falsos amigos em tom de alerta dizendo: Que se eu desistisse, seria alguém extraordinário, e explicavam como se eu fosse uma anta e não entendesse. Extraordinário diferente de belo, exemplar, mas sim fora da ordem, fora do normal, fora da luta guerreira de cada dia que só os fortes aguentavam. E nesse ponto aumentavam o tom doutoral dos que sabem de todas as coisas.

Mas ninguém entendia que desistir não era de fato dar um fim na vida. Afinal, eu continuaria a pagar as contas, subir e descer escadas, comprar roupas novas, lavar a calçada e um tanto de outras coisas que essas pessoas cheias de vida faziam, mas eu ora bolas, tinha desistido...


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