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Literatura de Esbarrão – A QUEDA



Escrito por Alberto Camus, “A Queda” conta a história de um advogado que depois de presenciar o suicídio de uma mulher no rio Sena, refaz o caminho de toda sua história, por toda a sua consciência, ao fundo da vontade humana, nos escombros de sua alma revela os seus segredos mais intrínsecos.

O livro trata-se de um monólogo, onde o autor transgride as expectativas página á página e mantém um rico lirismo por toda a narrativa.

"...Mas permita que me apresente: Jean-Baptiste Clamence, seu criado. É um prazer conhecê-lo. Sem dúvida, deve ser um homem de negócios, não é? Mais ou menos? Excelente resposta! E também judiciosa: estamos apenas mais ou menos em todas as coisas. Vejamos, deixe-me bancar o detetive. Tem mais ou menos minha idade, o olhar esclarecido dos quarentões que já fizeram de tudo um pouco. Está mais ou menos bem vestido, quer dizer, como as pessoas se trajam em nosso país, e tem as mãos finas. Portanto, mais ou menos um burguês! Mas um burguês requintado! Implicar com os imperfeitos do subjuntivo, na realidade, demonstra duplamente sua cultura: em primeiro lugar, porque os reconhece, e porque, a seguir, eles o irritam. Enfim, eu o divirto, o que, sem vaidade de minha parte, pressupõe no senhor uma certa abertura de espírito. O senhor é, portanto, mais ou menos ... Mas que importa? As profissões me interessam menos do que as seitas. Permita-me que lhe faça duas perguntas, e só me responda se não as julgar indiscretas. O senhor possui bens? Alguns? Bom. Repartiu-os com os pobres? Não. É, portanto, o que chamo um saduceu. Se não tem familiaridade com as Escrituras, reconheço que não lhe adiantará muito. Adianta? Então conhece as Escrituras? Decididamente, o senhor me interessa.

Não será igualmente bom viver à semelhança da sociedade e para isso não será necessário que a sociedade se assemelhe a mim? A ameaça, a desonra, a polícia são os sacramentos dessa semelhança. Desprezado, perseguido, forçado, posso então dar a plena medida de mim mesmo, gozar o que sou, ser, enfim, natural. Eis por que, meu caro, depois de ter saudado solenemente a liberdade, decidi às escondidas que era preciso passá-la sem demora a quem quer que fosse. E, todas as vezes que me é possível, prego na minha igreja de Mexico-City, convido a boa gente a submeter-se e a solicitar humildemente os confortos da servidão, chegando até a apresentá-la como a verdadeira liberdade...."














Livro - A Queda
Ano 1987
Tipo de capa BROCHURA
Páginas  112
Editora  Record


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