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“O Ano em que meus pais saíram de férias” – O Mal sorrateiro da Ditadura

O ano é 1970 dias antes da Copa do Mundo disputada no México, quem não sabe o que aconteceu e não lembra orgulhoso de tantas jogadas e tantas “imagens” que viraram ícones da história do futebol; a defesa de Gordon Banks no cabeceio de Pelé contra a Inglaterra, os dois gols que Pelé não fez contra a Tchecoslováquia do meio-campo e contra o Uruguai após um brilhante drible de corpo. Jairzinho, Tostão, Rivelino, Gerson, Carlos Alberto Torres... Saudade até em quem só os viu por tapes como eu... Mesmo injusto paremos por aqui na escalação de um time dito por alguns ou melhor por muitos como o melhor de todos os tempos. A ditadura vive seu ápice com o governo Médici. Nesse contexto o país aguarda o início da Copa e como desde sempre o país da uma pausa em tempos de Copa do Mundo e Carnaval. Acompanhando a nação desde algumas décadas a ditadura se fazia presente na vida das pessoas, ainda que elas não tivessem tal consentimento, suas vidas eram sim influenciadas pelo regime militar.

E foi dessa maneira que ocorreu com o garoto mineiro Mauro (Michel Joelsas) de 12 anos, apaixonado por futebol e jogo de botão. Certo dia foi levado as pressas para a casa de seu avô em São Paulo, local onde ele iria ficar enquanto seus pais estivessem de “férias”. Esse é o tema e a premissa do filme do diretor Cao Hamburger, a história do conturbado ano de 1970 e daquele contexto contada através dos olhos de uma criança obrigada a amadurecer de forma repentina.

Durante a viagem para São Paulo, Mauro e seu pai (outro fanático por futebol) discutem sobre possíveis escalações da seleção (dizia-se que Tostão e Pelé não podiam jogar juntos). Bia (Simone Spoladore) e Daniel (Eduardo Moreira) são dois ativista fugindo da ditadura, antes de partir vão deixar Mauro com seu avô Motel (Paulo Autran). Após uma rápida despedida o menino é deixado só, bate no apartamento do avô e ninguém atende. Horas depois fica sabendo por meio do vizinho Shlomo (Germano Haiut) que entre a saída da família de Minas e a chegada em São Paulo Motel havia falecido. A partir daí é o próprio Shlomo um vizinho que se prontifica de cuidar do garoto sem saber ao certo os motivos que o levaram ate ali e o paradeiro de seus pais.
Mauro é acolhido pela comunidade em sua maioria judaica que habita a região do centro de São Paulo. Em sua nova realidade vai fazendo amigos, fazendo descobertas pertinentes a sua puberdade, jogando pelada na rua e torcendo pela seleção brasileira na Copa do México, sem jamais esquecer de seus pais, procurando saber quando estes voltarão de suas férias.

“O Ano em que meus pais saíram de férias” não é “mais um filme sobre a ditadura militar”, por mais que tenha o regime militar como o combustível de toda a história, seu enfoque é diferenciado do restante dos outros trabalhos a cerca do tema. Ao lado do chileno “Machuca” e do argentino Kamchatka “formam” um trilogia latina da ditadura partindo do ponto de vista de uma criança.

O Filme não peca por visitar um tema constantemente abordado pelo cinema brasileiro, qualquer filme ou história de modo geral necessita de um “porque” ser contada, e nesse ponto o filme de Cao encontra motivo para ser realizado. Não é um filme inteiramente sobre a ditadura e tão pouco um filme que ameniza a pressão exercida pelo regime militar, mas mostra um outra faceta da história, de como conviviam com as pessoas que não eram tão politizadas quanto os combatentes e ativistas de esquerda. Posto que mesmo hoje em dia a grande maioria mantém-se apolítica, não é exagero dizer que muitas pessoas não perceberam suas vidas modificadas pelo regime (vale ressaltar que o não perceber não significa que não modificava). Esse é momento do país, sobre tudo durante a euforia de uma Copa do Mundo alguns podem dizer um ópio para o povo ou um momento de alegria e esperança de um “caso” que dura até os dias de hoje.
No entanto, “O Ano em que meus pais saíram de férias” não é um filme sobre a relação do povo brasileiro com a sua seleção de futebol, é um retrato do mal sorrateiro, que de forma explicita e em outros momentos implicitamente, deixou uma marca na história do país e principalmente das pessoas, é justamente isso, o mal que pessoas “normais” direta ou indiretamente sofreram com a ditadura militar.

O diretor usou na maior parte do elenco atores desconhecidos, destaques para o garoto Michel Joelsas (Mauro) e Germano Haiut (Shlomo), com isso a história ganhou maior veracidade. Ainda que as atuações não sejam espantosamente ricas, não comprometem o andamento do longa.
Este é o 2º filme do diretor Cao Hamburger. O anterior foi Castelo Rá-tim-bum (1999). O roteiro tem a mão de Bráulio Mantovani de “Cidade de Deus”, baseado em história original do próprio Cao Hamburger e Cláudio Galperin.
Os diálogos são ótimos, divertidos, saudosistas e melancólicos ao revelar o contexto da época. As falas em off do personagem Mauro são também interessantes, enquanto o garoto “divaga” e questiona as “férias” de seus pais ou o significado da palavra exilado a qual ele mesmo aplica um novo sentido.

A direção de Cao Hamburger responsável não só pelo longa metragem Rá-tim-bum mas pela série exibida na televisão acompanha bem o espírito infantil que dá ritmo a história, ainda que tenha utilizado certos clichês de filmes com uma criança como ator principal, ou nos movimentos da câmera, “O ano em que meus pais saíram de férias” é um trabalho limpo, acessível sem ser superficial.

Ygor Moretti

“O Ano em que meus pais saíram de férias” – Nas Locadoras

Ficha Técnica
Título Original: O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias
Tempo de Duração: 110 minutos
Ano de Lançamento (Brasil): 2006
Site Oficial: http://www.oano.com.br/
Direção: Cao Hamburger
Roteiro: Cláudio Galperin, Bráulio Mantovani, Anna Muylaert e Cao Hamburger, baseado em história original de Cláudio Galperin e Cao Hamburger

ElencoMichel Joelsas (Mauro)
Germano Haiut (Shlomo)
Daniela Piepszyk (Hanna)
Caio Blat (Ítalo)
Paulo Autran (Mótel)
Simone Spoladore (Bia)
Eduardo Moreira (Daniel)
Liliana Castro (Irene)


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