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Texto mais para ser escrito do que lido. (Mas se quiser Leia)

Dia 31 de maio de 2007, saio as 17 horas e 30 minutos do trabalho que fica no bairro de Pirituba, sigo até a Lapa onde pegarei outro ônibus rumo a zona sul de São Paulo. Com sorte, sem trânsito, fenômenos naturais ou alguma revolução repentina... chego em 1 hora e meia.
Até a lapa o tráfego vai bem, o tempo é frio, uma fina garoa faz com que o clima fique entre o húmido e o seco(nada que prejudique de forma catastrófica o trânsito).
Percebo a fila do lotação maior que o normal, calculo que se quiser mesmo ir sentado, só a partir da terceira lotação... Passados 10 minutos nenhum sinal do Campo Limpo/Lapa.
Nesse ponto chega a informação não de uma revolução repentina, mas de uma manifestação que já vinha povoando as páginas dos jornais daquela semana e naquele momento tomara uma proporção maior, influenciado diretamente no caminho de volta pra casa dos paulistas. Trata-se de um movimento estudantil de alunos e funcionários da USP protestando contra sansões do governo sobre as universidades públicas. Pra ser mais exato mexendo no bolso dessas. Fico sabendo de um conflito de policiais e estudantes próximo ao Palácio do Governo e que a ponte da Rebouças está interditada.
Estou ilhado próximo ao Largo da Batata, sem muitas opções e o trânsito agora caótico não evolui pra lugar nenhum. Repentinamente surge um ônibus que me oferece um caminho alternativo no qual vou ter de caminhar uns dois quilômetros a mais do que o normal. Pois bem, pego o ônibus desço na Av. Giovanni Gronchi e sigo a pé o caminho de casa, durante a caminhada quase condeno a ação dos estudantis e ameaço um xingamento, mas pondero e penso que talvez eles sejam os únicos a estarem lutando por uma causa pura, digamos sem outros interesses, oportunismos ou demagogia(será?), de certo se o povo (esse que se lasca nos ônibus e lotações) punir tal manifestação, não deve-se chama-lo de ignorante. Pois todos estão muito cansados para manifestações e cansados de falsas revoluções.
Nesse ponto eu percebo também que pelo bem e pelo mal vou me distanciando daquele espírito jovem e rebelde, não que eu ainda não seja jovem, rebelde e imaturo, mas começa se aproximar um certo pré-conceito, uma raiva, uma ignorância que toma frente de tudo, antes mesmo de formularmos uma opinião sincera a respeito das coisas do nosso dia-a-dia. E eu só não me desespero frente a denúncia do tempo que me vai passando, e sobre tudo do cansaço de ver os membros serem aos poucos cortados(no sentido figurado é claro), só não me vendo como Dorian Gray (por sinal livro que leio no momento), por que há ainda um alarme que mesmo depois de um grito ou uma burrice de minha parte, me informa que eu estou errado, que eu poderia ter tido outra ação, dito de forma diferente ou ter respirado fundo e ter mais 5 segundos de paciência com alguém ou algum objeto que costuma me provocar.
Depois desse bate-papo comigo mesmo, me concentro no caminho de volta pra casa, avisto a vídeo-locadora e resolvo ver se encontro algo bom.

Semanas atrás, assisti “Os Sonhadores” do diretor italiano Bernardo Bertolucci, hoje levo “Antes da Revolução” do mesmo diretor. Já não vou discorrer tanto sobre os dois filmes como o faço costumeiramente nesse espaço, mas de repente suspeito de certos pretextos por trás desse texto, da mesma forma que há outros pretextos nos filmes de Bertolucci, da mesma maneira que incluímos um pano de fundo em todas as nossas ações, as nossas falas e nos nossos passos.
Talvez não se perceba nada além das cenas de sexo do filme “Os Sonhadores”, talvez a história de três jovens que se descobrem em plena revolução de 68 na França, não passe de uma mesquinhez burguesa ou uma rebeldia sem causa, da mesma forma que o jovem Fabrício de “Antes da Revolução” seja o exemplo maior da rebeldia sem causa, da juventude pseudo-intelectual, e nesse caso a revolução comunista de 1960 na Itália, seja algo muito maior para a frágil compreensão das coisas do jovem Fabrício.
Em “Os Sonhadores” três jovens cinéfilos se conhecem numa sessão de cinema onde vários grupos de cinéfilos se encontram para discutir sobre filmes, diretores e movimentos. A amizade dos três inicialmente tendo em comum a paixão pelo cinema, vai se aprofundando a medida que começam suas descobertas pessoais e sexuais. Nesse ponto chega a revolução estudantil de 1968 e assim eles são questionados sobre sua postura frente as coisas de seu tempo, seus deveres, escolhas e sobre o momento em que terão de se tornar pessoas completas.

Já Fabrício de “Antes da Revolução” é um jovem intelectual de classe alta, que vive entre os valores da revolução comunista o qual ele mesmo não tem total convicção de estarem certos, e um relacionamento de sofrimento e sexo com sua tia. Bertolucci já foi chamado de gênio por “Antes da Revolução” e de imaturo por “Sonhadores”, ah o inverso também aconteceu; por Antes da Revolução ser o segundo filme de sua filmografia lhe coube o rótulo de pretensioso e exagerado uso de clichês da época, e em dias mais atuais, Sonhadores foi tido como um “novo clássico”.
Então eu vou fazendo alguns “links” e penso na geração cara pintada, (daria um “Sonhadores”), quantos pretextos não teriam no processo do Impeachment conquistado pela geração cara-pintada? E assim que motivos tem os estudantes que nesse momento levam spray de pimenta nos olhos e cacetes nas costas?
A necessidade desse texto é a de ser escrito, nem tanto a de ser lido, mas claro que o meu ego ficará bem mais massageado com dois ou três leitores...
Alguém começa a falar de sua volta pra casa... descreve a hora do rush de uma metrópole... discorre sobre seus pensamentos durante uma caminhada... Tudo para falar de dois filmes com um tema em comum?!!! Sendo assim os demais textos nos quais fui mais fiel à proposta do blog passam desde já a suspeitos de estarem falando sobre mais coisas além de Cinema...

Ygor Moretti 06/06/2007
Os Sonhadores
Ficha Técnica
Título Original: The Dreamers
Tempo de Duração: 130 minutos
Ano de Lançamento (EUA / França / Itália): 2003
Direção: Bernardo BertolucciRoteiro: Gilbert Adair

ElencoMichael Pitt (Matthew)
Louis Garrel (Theo)
Eva Green (Isabelle)
Robin Renucci (Pai)
Anna Chancellor (Mãe)

Antes da Revolução
Ficha Técnica
Título Original:
Tempo de Duração: 112 minutos
Ano de Lançamento 1964 - Itália
Direção: Bernardo Bertolucci
ElencoAdriana Asti,
Francesco Barilli,
Allen Midgette,
Morando Morandini,
Christina Pariset
Gianni Amico,
Domenico Alpi,

Texto mais para ser escrito do que lido. (Mas se quiser Leia)
Ficha Técnica(Só pra tirar um barato):
Titulo Original: Texto sem necessidade de ser lido
Tempo de Duração: 2 dias para ser escrito – 10 minutos para ser lido
Ano de Lançamento: 05/06/2007
Direção: Ygor Moretti
Roteiro: Ygor Moretti

Elenco:
Manisfestação dos estudantes da USP
Transito de São Paulo
Vídeo Locadora (Não cito o nome pra não fazer propraganda rsss)


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