Video Conto - My Funny Valentine

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Continuando a divulgar o livro Do Som ao Impacto, lançado pela editora Multifoco, convido a todos agora para participar de algo diferente. Trate-se do vídeo-conto My Funny Valentine, um dos contos do livro, que disponibilizo aqui e convido leitores, blogueiros e curiosos a fazer a leitura em conjunto desse texto.

O conto está separado por parágrafos, que deve ser escolhido e gravado em áudio e vídeo, envie para a página do Moviemento no Facebook, (não esqueça de salvar o arquivo ou vídeo, ou link com o nome do conto e parágrafo escolhido) os mais criativos serão escolhidos e então incluído no "longa" de leitura vídeo e áudio do vídeo conto My Funny Valentine. 

Abaixo link para inspiração da música que inspirou o nome do conto, e acima, ilustração sugestiva sobre a personagem Helena... Um imã para cafajestes...



My Funny Valentine

Parágrafo 1

Os carros iam passando diante de seus olhos calmos, curiosos. Debruçada no banco traseiro, ignorava mais uma advertência de sua mãe a respeito de sua postura dentro do veículo. A menina observava os diferentes carros e pessoas que se aproximavam do automóvel de seu pai. Tinha enjoado de perguntar quanto do percurso ainda tinha de ser percorrido.

Procurou outras coisas merecedoras de sua atenção.As mãos apoiadas no queixo, de tempo em tempo, soltavam-se explodindo um sincero aceno em direção aos passageiros dos outros carros. Com o balanço de suas mãozinhas, seus lábios formavam sem emitir som a palavra “tchau”. Virou-se! Permaneceu sentada corretamente no banco de passageiro, do jeito que sua mãe queria que fosse. Decidiu que mais nada merecia sua atenção. Observando aquela natureza
patética do interior de um automóvel, adormeceu.


Parágrafo 2

Em seu sonho o carro de seu pai deslizava sutilmente pela estrada, não havia outros carros e podia se ver lá na frente a praia, não havia em sua mente a complexidade da arquitetura das cidades. Para entrar na água, que ela não mais temia, era só descer do carro e pronto, de encontro às primeiras ondas, que em seus sonhos eram sempre pequenas.

Quinze anos se passaram. Ela tem agora o andar de uma mulher. Se os seus 24 anos não a tornavam mulher por completo, intelectualmente ela estava emancipada, diferente de outras moças de sua idade. Conseguia compreender os filmes daquele diretor, entendera que para certas artes precisamos estar prontos, aptos, merecedores de seu entendimento. Uma menina mulher, uma mulher ainda menina, com busto, coxas, cabelos, cintura e olhos pretenciosos sobre os homens ao seu redor e complexos para as mulheres que o confrontavam.


Parágrafo 3

Descia a rua Augusta rumo ao Espaço Unibanco. “Curta as Seis”. Filme Europeu! Assim Helena era mais Helena!
Discreta e elegante, dava margem para a suspeita de ser uma prostituta. Mantinha um sorriso entreaberto no rosto, como quem cumprimenta a noite que se aproxima; e todos os homens como possiveis clientes. Num modo pessoal de crueldade misturado a um humor requintado que só mesmo ela achava graça.

As luzes no cabelo iam se apagando, era preciso voltar ao salão de beleza, porém era preciso esperar para ter dinheiro e voltar ÀQUELE salão. Os seus lábios estavam um pouco ressecados, tinha visto numa revista a receita de uma mistura de frutas para hidratá-lo. O seu rosto estava perfeito, a mudança de alimentação desde o mês passado fizera efeito de fato. Com algumas roupas ainda se achava um pouco gorda. Outras, porém, davam-lhe a cintura perfeita
e a aparência de estar dois quilos acima do peso.
De acordo com o que ouvira de um amigo, era a
perfeição física de uma mulher segundo os homens,
ou segundo as bichas como ele. 


Parágrafo 4

Estava satisfeita consigo, com o que via no reflexo dos vidros dos carros e lojas, um sorriso ameaçava tomar seu rosto tamanho era o orgulho dela mesma. Saindo do cinema, um tour pelo centro. Fazia questão de pegar o “Avenidas”, adorava o trajeto daquele ônibus por mais que levasse maior tempo até o apartamento. Helena era um ímã para cafajestes...
- Alo!? Alo! O telefone a acordara logo pela manha.
- Oi, é você, por que ligou tão cedo?! Ok, estou a caminho. Só me dê um tempo para tomar uma ducha, e me aprontar.
Normalmente acordava com o despertar de seu estéreo programado para tocar a música 10 do CD, aquela música que lhe deixava tanto triste quanto alegre, que lhe fazia atingir um sublime sentido. My Funny Valentine, uma canção que dava a tudo razão, talvez por aguçar ao máximo seus sentimentos, só mesmo um despertar surpreso despreparado não fazia sentido. Um ímã para cafajestes...


Parágrafo 5

Aprontou-se! Aquele vestido florido a deixava divina, as pontas engomadas, o busto justo, bem apertado, ela ficaria por se admirar a tarde inteira. O batom, no entanto, não lhe agradava, mas sendo quase uma exigência de Tadeu ela achava que valia o esforço de aturar o acessório.
No caminho suspiros e assobios. Ela não olhava, nem um sorriso soltava, não se empolgava, direcionava essa “energia” vinda de fora para sua autoestima, não deixava transparecer o seu não-ligar. 
Lembrou-se de um poema de seu admirador secreto, não era de todo ruim, pretensioso, mas de algum valor:
“Eu te resgataria Helena Troiana, faria, mitologia onírica. Desta realidade que sem tu, Configura-se aterradora! Caminho único para o sepulcro...”


Parágrafo 6

Chegando à casa de Tadeu, deparou-se com os amigos dele que lá estavam, e eles, com suas coxas. Não teve, entretanto, tempo para se sentir mal, puxada pelo punho foi levada para dentro da casa. Com os pés, Tadeu abriu e fechou a porta do quarto, deitou-a na cama ainda com lençóis e cobertores desarrumados, e com uma mão de cada lado de sua cintura foi puxando sua calcinha, certificou-se da
porta encostada.
- Como adoro esse seu vestido. Murmurou com o rosto colado ao de Helena. Permaneceu estática, olhando para o teto. Impossível partilhar do prazer que ele encontrava ou propunha, em dado momento quase adormeceu, conseguia por fim dominar a repulsa àquele momento. Afinal de contas, depois alcançava certo deleite enquanto dormia.


Parágrafo 7

Quando acordou encontrou um rosto sereno lhe esperando, era Tadeu com um sorriso amarelo, desviou o olhar pela janela onde pode ver que já era noite. Tadeu disse algo, ela pouco se importou.
Fechou os olhos. Odiou aquele olhar falso simulando carinho, o rosto ardia, sabia que estava vermelho por causa da barba cerrada dele. Sem responder, levantou-se e foi direto ao banheiro, sonolenta, permaneceu debaixo do chuveiro. Tentava se lembrar de algum filme no cinema. Pensava na nova fase do cinema francês e na exposição, que só iria até este fim de semana das fotos na noite clandestina de Paris. Aquela reportagem da revista sobre a vida de garotas brasileiras que faziam programas na
“Cidade Luz”, tinha mesmo lhe chamado a atenção.
A voz de Tadeu atravessava seus pensamentos de forma irritante. Parou de pensar e continuou apenas debaixo do chuveiro...


Parágrafo 8

Saindo do banheiro, viu Tadeu dormindo nu na cama, boca e pernas abertas, satisfeito e indiferente a tudo. Vestiu-se. Arrumou o decote do vestido, não precisava mais do batom. Na rua parou o primeiro taxi que atravessou seu caminho. Dentro do carro aproximava-se de sua mente uma clareza, seguida de alguma confusão, eram flashs da rua Augusta e
das ruas de Paris, letreiros e anúncios de cinema, a música no rádio atrapalhava sua tentativa de assoviar baixinho: “My Funny Valentine”. 
Ela disse NÃO às lágrimas que se aprontavam nos olhos, pensava na menina que fora e na mulher que se tornara. Uma última olhada para trás, entre possíveis destinos apenas pediu ao motorista que seguisse em frente.

Helena... Era um imã para cafajestes...


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