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"Os Arqueiros não se movem após a bola na trave" Parte 2
- Lembro que comecei com a bola, meticulosamente ajeitei a palheta mais para o lado esquerdo do botão, um toque sutil a bola rola devagar parando na frente de outro jogador vindo da direita. Foi como Carlos Alberto Torres na final em 70. Anuncio: -Pro Gol! Meu avô permanece parado. - Vai arruma seu goleiro! Ele faz um movimento qualquer não alterando muito a posição do arqueiro. Miro, abaixo a cabeça rente o campo, posiciono a palheta um pouco a direita. O botão sai meio torto da direita para esquerda atingindo a bola levando-a para o canto direto do goleiro que só a observa bater na trave e sair pela linha de fundo.
Se ela ainda tivesse voltado ao campo eu teria direito a mais um movimento batendo pro gol se quisesse, sem que meu avo pudesse movimentar seu goleiro, era umas das regras que eu mais gostava no futebol de botão, mais que o gol, torcia para que um lance desse acontecesse a todo momento.
Tiro de meta. Meu avõ mais uma vez perdido. - Pode ser com o goleiro, bata na bola pra frente. Ele o faz sem o menor jeito e a bola vem direto para o meu zagueiro no campo de defesa. Este a domina, descola um lançamento preciso até o ponta esquerda que recolhe, domina e dá um passe rápido para o centroavante que corre por trás da zaga ficando sozinho com o gol a sua frente.
Pro Gol!!! Anuncio de forma enérgica, ainda não acreditando no capricho da bola na trave do ultimo lance. Um chute forte, seco, direto, a bola ultrapassa o goleiro e estufa a rede...
Não me lembro qual o placar do jogo, fui me afastando e deitei no sofá olhando a cena, adormeci. Fui acordar já era noite.
-Minha mãe ainda não voltou? Perguntei, tendo como resposta somente um silêncio e os passos dos dois parecendo fugir caminhando em direção a cozinha. Corri em direção a janela e lá fiquei observando a rua vazia.
- Menino venha jantar saia daí!!! Ordenava a prima Dora.
Durante este curto espaço de tempo pude ver um vulto lá fora, era um carro e percebi que ele parou um pouco mais a frente, só me restando a fumaça vinda do escapamento. Com duas malas pesadíssimas, os ombros arqueados, um rosto cansado pedindo ajuda, minha mãe apareceu, deixando cair uma das malas.
Eu recuei durante um momento, sem deixar ela me avistar, ela repousou a outra mala na calçada de frente para a casa e se direcionou para tocar a campanhia, eu agora sabia! Ela tinha voltado!!! Não sei e nunca soube onde ela fora, se estava em seus planos voltar e o que a fez voltar. Também nunca pude imaginar o que a faria partir.
Fui correndo em sua direção, no contorno da sala acabei pisoteando um dos botões, continuei correndo como louco em direção a minha mãe. E lembro mais que tudo, de forma intensa, da textura de seu vestido. Então corri e deixei-me cair em seu colo seguro e delicado.
Eu não fazia questão de ter nenhuma pergunta respondida, nenhum novo time de botão, no momento seguinte em que nos colamos abraçados toda insegurança se tornou um sentimento menor quase sem motivo...
- Pauloooo!!! Vem jantar!!! Num salto, num susto estou de volta no meu quarto enquanto minha mãe me chama para o jantar. Mas cá está a lembrança e junto desta certo medo, medo inevitável, que tanto me alerta quanto me envergonha. Cá está ainda uma dúvida, dúvida que só me agita a cada dia. Assim tento então buscar a velocidade ainda não alcançada ao seu encontro, a verificação se ela ainda estará lá. Larguei as coisas espalhadas, e desci as escadas correndo, num peito juvenil, tento sempre, todos os dias, chegar mais rápido junto dela e concretizar o que para mim se tornou um maravilhoso e incerto abraço...
FIM
Ygor Moretti


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