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Amaro -

de Ygor Moretti

A noite era fresca, muito embora se alguém surgisse reclamando da noite “fria”, tal afirmação não poderia causar espanto algum. Assim, o clima de fora propiciava que lá dentro ar condicionado e labaredas das tochas de fogo, comidas e bebidas formulassem uma atmosfera quente, num ambiente escuro e silencioso onde ela ainda não ficara totalmente a vontade.


Aquele gole despreparado e inocente fora o encontro mais amargo que ela teve com o que antes sempre fora doce, de imediato sentiu a força da cachaça curtida no licor, depois veio o sabor do chocolate, por último a sensação de fogo na garganta, causando-lhe arrepio nos braços partindo velozmente até a espinha fazendo o corpo todo tremer. Ficou intrigada, partiu para um segundo gole, imaginava se algo que tinha comido antes não alterara o seu paladar, ou se toda aqueles antagônicas sensações em um só líquido não era na verdade fruto de um perceber equivocado. Dessa vez ficaria mais atenta para proteger e mesmo evitar a cara feia que sabia, feia mas inevitável. Tinha medo de comprimir por demais a testa, o canto dos olhos ou demonstrar por demais as gengivas.


Já esperando por cada etapa da bebida percorrendo sua boca, não se assustou com o gosto amargo, tentou saborear o escasso sabor que logo se dissipou dando lugar a quentura da garganta. No terceiro gole cada uma dessas sensações lhe surgiu mais fraca, ao passo que a essa altura já se sentira mais a vontade, percebia o sorriso mais largo e demorado, os braços produzindo movimentos mais extensos já envoltos sobre os ombros e pescoço dele.

Olhou ao redor e viu copos cheios e intactos nas outras mesas, quis ouvir o que as pessoas tanto conversavam. Com goles cada vez mais velozes e profundos o silêncio instaurado entre eles ia sendo combatido, por mais que tal silêncio não incomodasse nenhum nem outro, era por olhares esguios, sorrisos incontidos e melindrosos que eles estabeleciam alguma comunicação. Quando partilhavam o copo se tocavam através das mãos. Ele virou todo o líquido do copo na boca, manteve uma pequena pedra de gelo sobre a língua até desaparecer. Ela ficou olhando sem graça, não acreditando que ele fosse mesmo beber tudo, até que ele se aproximou e deu-lhe um beijo gelado dentro da boca, ela sentiu ainda um resto da bebida compartilhada, gelada e doce, sem mais amarguras...


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