Poesia - a deusa gálica - Jorge Luís Borges

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a deusa gálica


Quando Roma chegou a estas terras últimas e a seu mar de
águas doces indefinido e quem sabe interminável, quando
César e Roma, esses dois claros e altos nomes, chegaram, a
deusa de madeira queimada já estava aqui. Seria chamada
Diana ou Minerva, à maneira indiferente dos impérios que
não são missionários e que preferem reconhecer e anexar as
divindades vencidas. Antes ocuparia seu lugar numa hierarquia
precisa e seria a filha de um deus e a mãe de outro e a
vinculariam às dádivas da primavera ou ao horror da guerra.
Agora a acolhe e exibe essa estranha coisa, um museu.
Chega-nos sem mitologia, sem a palavra que foi sua, mas
com o apagado clamor de gerações hoje sepultadas. É uma
coisa rota e sagrada que nossa ociosa imaginação pode enriquecer
irresponsavelmente. Nunca ouviremos as súplicas de
seus adoradores, nunca saberemos os ritos.



Jorge Luis Borges
Do livro, Atlas - Editora Companhia das Letras.
Tradução: Heloisa Jahn.


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