Mini Contos

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Alguns desses contos já foram publicados aqui, mas esses são "ineditos" já que foram "melhorados".
Gosto muito dos Mini-Contos ou Micro-Contos, são um ótimo exercício de compressão de idéias, ritmo e acontecimentos,cabendo o sucinto e o poético no mesmo espaço. Servem também para testar histórias, ou livrar-se delas em poucos caracteres. Obviamente de algumas você não vai se livrar pois vão pedir mais e mais, então o micro vai virar, mini, depois conto e até um romance ou roteiro. 
Já aconteceu, de um poema virar conto, e agora estar em processo de virar romance, mas isso é outra história...  


Das possibilidades de um olhar magnético

E se antes eu sentia repulsa, nojo e ódio daquele ser, segundos depois do feito, fui alcançado e invadido com opressão por outros sentimentos. No entanto esse novo sentido não tem nada de terno, mas uma absurda ligação como se dum momento a outro me tornasse gêmeo siamês de um inimigo.
Antes, só fúria e coragem para esmurra-lo, porém, quando o soco adversário me acertou em cheio, fui tomado de certeza, o rosto inchado pulsando e o sangue já descendo pelo supercílio me confirmavam a permissão para o crime.
Saquei a faca e o imobilizei ainda certo das minhas intenções. Enquanto a ponta da arma pressionava seu corpo, nenhuma hesitação me confundia. Mas... Com a força continua do golpe lento sobre a carne... O aço atravessou as roupas, a pele, as fibras e camadas de gordura, atravessando o interior do corpo como se fosse um vácuo, só parando ao chocar-se com a costela e já atingindo o chão debaixo de nós.
O suspiro fraco e a morte instalada foram como a conclusão de um exorcismo, apagando do rosto toda arrogância, trairagem, e outros tantos feitos daquele tremendo filho da puta. Agora uma vítima pacata, serena, nem mais sua hipocrisia e canalhices me davam nojo outra vez.
Não existe o arrependimento moral, mas o peso da maldição, ou melhor, da consequência  de ser a última visão de vida daqueles olhos, e ter naquele corpo o feito mais significativo da minha vida.  Se de fato passa um filme em nossa frente ao morrermos, àquele longa tinha o meu rosto como marca d’água, ou a minha assinatura como co-roteirista. E agora, como uma mancha, uma sujeira que não quer sair, vive impregnado em mim.

Santana

Santana não se abalava com o sorriso que via nos outros, e que esses outros direcionavam a terceiros. Não se importava tanto nem tentava imprimir em sua boca dura algum sorriso forçado. Pois sabia que a felicidade está inserida também nas bocas sérias, curvadas para baixo com lábios rachados e sobre tudo, no seu caso, a felicidade estava expressa abaixo e entre o seu enorme bigode e em suas lembranças de General.

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Ah... A Felicidade... Santana a via refletida em tudo, inerente inclusive aos momentos tristes, eram todos repletos de uma felicidade que apenas Santana acreditava de forma inabalável... Usar aquele vestido era outra forma de incutir o seu corpo todo de felicidade.
Sabia Santana que o ato de usar seu vestido era incutir o seu corpo todo de felicidade. Até mesmo a lembrança de velhos vestidos que ela perdeu, estavam imbuídas de felicidade, o tecido envelhecido ou a cor démodé, eram para Santana, representações vívidas de pura felicidade.

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Observavam os moradores, como Santana estava crescendo, agora inclusive tinha Shopping Center, e transito infernal, diziam os outros pessimistas, moradores mais velhos que gostavam do bairro a moda antiga, casas e alguns poucos comércios, cujos donos eram os próprios moradores de Santana, um lugar incerto onde a felicidade pairava no ar, podia sentir o seu cheiro, mas logo em seguida ia embora empurrada pelo vento.


A incrível história do homem que desistiu de viver...

Era uma vez um homem que desistiu de viver... No entanto, não se jogou da ponte, nem tomou veneno ou deu um tiro na têmpora, embora o som da palavra cicuta lhe agradasse aos ouvidos, e também lhe fazia lembrar daquele filósofo com nome de jogador. E assim um misto de dó e dor faziam com que ele gostasse ainda mais daquele homem, mais do filósofo do que do jogador, já que este último nunca defendera as cores do seu time de coração.
Um pequeno homem, diziam sobre o filósofo, baixo e feio diziam as más línguas dos historiadores. Como Jesus Cristo foi acusado de corromper a juventude com suas ideias. Fato é, que todos esses homens, nenhum tinha desistido de viver, mas ele sim tinha.
Alguém lhe disse que; desistindo de viver, ele se transformaria em uma pessoa extraordinária. Não extraordinário de bela, maravilhosa exemplar, mas fora da ordem, fora do normal, do que os outros acham certo e maravilhoso. Desistindo ele estaria  fora da luta bravia e rotineira “Que só os fortes aguentam”, diziam com olhos fechados e dedos em riste como se apontassem aos céus.

Mas ninguém entendia que desistir não era ficar trancafiado numa sala vivendo sobre a cama. Nem jogar-se dum alto prédio ou na frente do trem. Muito menos que todas essas possibilidades, com uma admirável destreza de não fazer mal a ninguém, nem mesmo a ele. O Homem tinha desistido de viver, mas continuava a pagar suas contas, ia ao trabalho, subia escadas, trocava ou comprava novas roupas e lavava a calçada aos finais de semana, tudo o que as outras pessoas cheias de vida faziam, mas ele... tinha desistido.


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