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Trecho do Conto - 8:15 am – O momento em que me tornei cético

Aguardava inutilmente pela permissão do semáforo para atravessar a rua, procurava pela permissão que o verde do farol anunciaria, mais pelo instinto de aguardar e proteger-se por de trás do sentido impregnado na cor do que pelo medo e as impossibilidades que o vermelho representava, já que, mesmo diante desse, não haveria carros nem qualquer outro obstáculo que me impediria de cruzar a rua deserta. Alarmes, trânsito ou horários a cumprir já não existiam...



Desde a falha nas negociações diplomáticas e após o alerta de bombardeio, a cidade fora evacuada, só eu insistia e minha insistência era assim meio despercebida e totalmente desprovida de intenções honrosas. Não era o apego pela minha terra, nem uma insinuação de oposição ao inimigo. Enquanto toda a gente corria fugindo para distâncias seguras da sombra da bomba, sentei no meio-fio, abdiquei de atravessar a rua. Enquanto riscava o fósforo para acender o cigarro fui atingido por aquele cheiro da pólvora após a rápida chama no palito. Aquele cheiro que só é bom por que é também rápido, adentrou minhas narinas, respirei mais fundo para buscá-lo já disperso no ar... em extinção.


Acendi a outro fósforo, dessa vez o mesmo cheiro me causou enjôo e irritação no nariz, acendi o cigarro e mirei o semáforo que piscava amarelo em alerta de que a cidade já não funcionava mais.
Foi durante aqueles minutos enquanto aguardava sentado olhando para o céu, que perdi a fé em Deus... No trajeto daquelas quatro toneladas, ganhando velocidade, descendo sobre a cidade, despi-me de todos os escrúpulos que me impediam de amaldiçoar o Deus corrupto e contrabandista de compaixão, impune e indiferente a tudo. Se rastejando entre as nuvens, cinzento, corrompendo a gravidade, burlando leis físicas, poluindo a visão de quem perplexo, não sabia se Deus era a bomba ou se a Bomba era a exata ausência de deus...

Ygor MF


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