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Miles Raymond (Paul Giamatti) desperta de forma intranquila de seu sono. Alguém liga em seu telefone. Ele está atrasado para aquele compromisso. Faz rapidamente a mala, passa em uma loja de conveniência e compra o jornal do dia. Toma um café expresso e pede um croissant de espinafre. Neste inicio de filme podemos perceber que Miles é um personagem no mínimo excêntrico e isso se confirmará ao longo da história mas é na riqueza, ou melhor, na sutileza de cada detalhe que Sideways, filme do diretor Alexander Payne, se mostrará interessante.

Já em seu carro, Miles vai à casa de seu amigo Jack (Thomas Haden Church), os dois farão uma viagem de uma semana pelas vinícolas do Vale de Santa Inez, na California. Será a viagem de despedida de solteiro de Jack, que Miles, um aficionado por vinhos e escritor frustrado, planejou. Porém as reais expectativas de Jack vão muito além de vinhos, golf e papo cabeça com o amigo. Essa diferença de valores ou planos fará com que descobertas, conflitos, dramas e alguns momentos de graça perambulem entre os dois. Classificado como Comédia-dramatica, talvez Sideways esteja mais para o drama do que para a comédia, porém com mais uma rica interpretação de Giamatti o filme mostra-se muito maior do que qualquer denominação rasteira pode ofertar.


Não seria exagero ou engano comparar e até mesmo confundir Miles Raymond com um personagem de Wood Allen, intelectual, escritor em crise, depressivo, problemático, tímido e atrapalhado. Miles está preso a um passado recente, com dificuldades para aceitar o divorcio de dois anos atrás. A base de remédios e terapias ineficazes segue buscando e ao mesmo tempo evitando encontrar uma nova pessoa, na verdade incapaz de enxerga-la ainda que esteja bem a sua frente.

A relação dos amigos Miles e Jack também é bastante interessante, pois ainda que amigos de longa data os dois não possuem nada em comum, são exatas contraposições. Enquanto Jack um ator de qualidade duvidosa é sempre reconhecido por fãs etc. O trabalho de Miles jamais é levado a sério. Editoras o recusam mesmo reconhecendo sua qualidade, porém como é dito em certo momento: É um daqueles bons livros que não encontra quem o publique. Enquanto Miles é um intelectual, profundo conhecedor e apreciador de vinhos e momentos introspectivos, Jack é superficial em seus conhecimentos e princípios, um aventureiro, simpático mas fútil.

O roteiro escrito e adaptado pelo próprio Alexander é inspirado no romance homônimo de Rex Pickett e a direção é de Alexander Payne de “Os Descendentes” e “Confissões de Schmidt” . Mais o destaque técnico de Sideways fica com a fotografia quase a todo instante pode se perceber na composição das cenas a luz e os planos muito bem construídos, como se de fato estivesse sendo construído um retrato. Um tom “amarelado” e belíssimas locações dão a película maior dramaticidade.


Com orçamento de 18 milhões, Sideways foi indicado a cinco Ocars tendo vencido o de melhor roteiro adaptado em 2005.

Originalmente publicado no O Cinemista

O diretor Steve McQueen de Hunger (2008), foca mais uma vez patologias que unem corpo e comportamentos socialmente inaceitáveis em Shame

Novamente ao lado de Michael Fassbender no papel principal, com direção e roteiro de McQueen, Shame fala de um assunto ainda mais difícil que o primeiro longa do diretor. Michael Fassbender é Brandon um bem sucedido homem que mora sozinho em Nova York num sofisticado apartamento. Tudo parece perfeito, tranquilo e resolvido na vida de Brandon exceto pelo que desde os primeiros instantes do filme nos mostra. Brandon é viciado em sexo e isso não quer dizer que ele gosta muito, pois é uma doença, um desvio comportamental que não lhe causa prazer algum, muito ao contrário disso, o mantém refém de seus próprios impulsos. Nessa prisão a sua única escapatória é o sexo, seja virtual, com desconhecidos ou prostitutas. No entanto todo esse contato é feito sem nenhuma outra interação, sem nenhum envolvimento se não o sexo, sem prazer e sabiamente tratado pelo diretor sem nenhum erotismo. 

Em meio a esse caos mais ou menos organizado a vida de Brandon sofre uma mudança repentina, Sissy (Carey MUlligan de Driver) sua irmã mais nova aparece para uma temporada junto ao irmão. Se Brandon com sua doença mostra-se avesso a qualquer contato maior com pessoas, Sissy é a exata antítese disso, carente e emocionalmente instável provoca uma drástica ruptura na rotina de Brandon. É nesse novo contexto, focado nessa invasão de uma privacidade já conturbada que o roteiro de McQueen vai explorar.

Em planos próximos e sinuosos a câmera nos permite acompanhar as andanças do personagem em busca de sua “droga”ou administrando sua vida dúbia entre a saciedade e a culpa. Mas é um acompanhamento parcial onde closes sem pernas, braços e outras partes do corpo denotam o que de fato interessa ao personagem. Nisso tudo direção e roteiro são certeiros ainda que econômicos, principalmente nos diálogos e cenas espaçados por longos momentos de silêncio.

Outro ponto forte e certo do longa é a atuação de Fassbender e Mulligan que mesmo tendo pela frente personagens com características opostas e fortes em momento algum apelam para o bizarro ou o exagero fácil. Fassbender tem a habilidade de juntar a frieza e o sofrimento do personagem através de gestos simples e olhares dispersos, sem esperança. Já Carey Mulligan da mesma forma une a doçura e a promiscuidade de Sissy num mesmo tom que soa a disfarce ou inocência.

Conquistando vários prêmios pelo mundo, Shame foi filmado em apenas 25 dias.

Publicado originalmente no O Cinemista

Mais um publicação que originalmente saiu no O Cinemista  e trago agora para os leitores do Moviemento. 

Medianeiras

Martin (Javer Drolas) e Mariana (Pilar López de Ayala) estão reaprendendo a viver sozinhos. Depois do fim de seus respectivos relacionamentos lutam contra depressões, síndromes aos montes e uma cidade que ao mesmo tempo que os une os mantém separados, desconhecidos. Bateria de remédios e a própria solidão são armas usadas nessa batalha. Tratamentos ineficazes contra o “vilão” da história; a arquitetura desordenada da cidade que segundo Martin é a principal culpada pelos males sociais e pessoais dos grandes centros urbanos.

Enquanto não se encontram, escutam a mesma música, se emocionam com o mesmo filme, percorrem o mesmo caminho e principalmente procuram a mesma coisa. Mas não se acham, não se percebem em meio ao caos da cidade que os cega.



Dirigido por Gustavo Taretto, Medianeras foi premiado no Festival de Gramado e no Festival de Berlim. Segundo o diretor o tema do longa é a cidade sendo a solidão um dos males desse lugar que atinge especialmente Martin e Mariana. Tal contexto poderia resultar num drama pesado e tenso, mas não é o que acontece. Num ritmo agitado e divertido somos levados pelo pensamento dos personagens a cerca de sua situação e a impressão que eles têm da cidade, das pessoas e de convenções sociais como: Internet, trabalho, relacionamento, arquitetura e muitos outros temas que invariavelmente chegarão ao público com muita simpatia e identificação.

A linguagem do longa é moderna e ágil. Animações e recortes enfeitam a narrativa, não apenas esteticamente, mas colaborando para a construção do contexto, numa chuva bem organizada de informações. Medianeras investe num estudo, ou melhor, num retrato contemporâneo dos “novos adultos”, sujeitos adaptados as novas tecnologias mas com hábitos ou lembranças de tempos anteriores. Jovens que, recentemente, conquistaram sua independência e precisam agora enfrentar as complicações desse feito.


Os atores Javier Drolas e Pilar López de Ayala, sustentam toda a história como se estivessem num diálogo direto e constante diminuindo a importância de tudo ao seu redor, fazendo dos sentimentos e pensamentos de seus personagens a ferramenta ideal para traduzir seus dramas e contar suas histórias.

Crítica originalmente publicada no O Cinemista repuplicada aqui no Moviemento, vale a pena ver o filme e depois conferir se sua opinião bate com o texto daqui... Há quem prefira ver os filmes com o menor número de informações possíveis, outros já se armam com mais dados, enfim, uma ótima opção pra quem ainda não viu e uma oportuna chance de rever este grande filme, fica a dica...


PEDRO ALMODÓVAR E O CINEMA DO 
COTIDIANO IMPROVAVEL…

O quão surpreendente podem ser os filmes do espanhol Pedro Almodóvar? Se alguém já arriscou algum palpite provavelmente foi mais uma vez surpreendido a cada novo lançamento do espanhol. Engraçado que, contudo, os seus esquemas e a sua forma parecem ser sempre os mesmos. No entanto, os temas e principalmente a força com que os invade é que causa tal surpresa, para não dizer choque. Almodóvar faz uma visita aos ditos “tabus”, defrontando-os: homossexualidade, erotismo, estupro, pedofilia, mudança de sexo, etc.

Em “A Pele que Habito”alguns desses elementos estão presentes com a mesma força e clareza que desconcerta e marca. Todavia, não cabe aqui a questão sobre o que leva o diretor à esses temas. Corajoso, controverso ou oportunista, a principal qualidade de Pedro Almodovar é o apuro técnico crescente de seu trabalho, com dezenas de filmes e prêmios em sua carreira. Não resta duvida de que este é um grande contador de história. Como pode ser percebido em A Pele que Habito, os personagens de Almodóvar e suas histórias, por assim dizer, são sempre movidos por segredos, pelo drama desses serem descobertos ou pelo trauma de te-los que guardar. Excêntricos, estranhos, violentos e até maléficos, há sempre um desconcerto dentro dessas pessoas que reverbera ao seu redor das maneiras mais fortes e sofríveis.

É um segredo que move o personagem de Antonio Bandeiras em A Pele que Habito. Roberto é um renomado cirurgião plástico empenhado em “produzir” geneticamente uma pele humana que seja mais resistente, o que segundo ele poderia erradicar doenças como a malária e outros males de que sofre a humanidade. Para isso mantém numa espécie de cativeiro Vera, sua cobaia em quem faz teste de resistência a fogo e picadas de mosquitos, lhe prometendo a pele mais resistente do mundo. Quando está fora em outros compromissos ou em palestras divulgando seus avanços e tentando convencer a comunidade científica do benefício de usar tal tecnica, sua mãe é responsável pelos cuidados de Vera.



Certo dia Marilia sua mãe recebe a inusitada visita de Zeca, seu filho a muito tempo desaparecido. É tempo de carnaval e Zeca esta vestindo uma fantasia de leopardo, na verdade aquele é um disfarce e o carnaval a brecha para conseguir fugir da policia que o persegue após um assalto mal planejado. Após esse tenso reencontro, que termina com Marilia feita de refém, Zeca descobre Vera trancafiada em um quarto. Seu rosto o faz lembrar de alguém do passado, alguém com quem teve e ainda tem um forte sentimento. Tomado por esse sentimento invade o quarto de Vera e ainda mais intenso a estupra, neste momento Roberto aparece e mata seu meio irmão. Este será o primeiro momento de alguma ternura entre Roberto e Vera, deixando de lado os papéis de médico e paciente ou cientista e cobaia, após uma infeliz tentativa de sexo os dois apenas adormecem abraçados. Neste momento o filme se divide voltando a um passado remoto e trágico que explicará o papel e o caminho de cada um até aquele momento…



Através desse artifício no roteiro, Almodovar reconstruirá a história de cada um desses personagens que em verdade estão sempre tentando remontar peças importantes de suas vidas. Ainda seguindo características marcantes do diretor, atuações teatrais próximas de um exagero proposital e cores fortes, quase sempre saturadas, vão dando formas ao cinema do espanhol. Quando começou as filmagens de A Pele que Habito, Almodovar dizia que queria fazer um filme de terror sem gritos ou sangue e consegue atingir o ápice desse sentido através do caos do desconhecido e do improvável, que em seu trabalho é a principal matéria prima…


Olá!!! Continuando após uma pausa no Moviemento, hoje na verdade publico um texto de um tempo atrás mas que é sempre bem vindo, atual. Trata-se da crítica do "novo clássico" Fargo, de 1996, texto originalmente publicado no O Cinemista onde colaborei por um bom tempo. Mas em breve tem material inédito aqui no Movimento, inscreva-se para receber as notícias, acompanhe também nas redes sociais, deixe seu comentário! 

UMA COMÉDIA DE ERROS

Ao deparar-nos com as cenas finais de Fargo, sobre tudo com a sequência do triturador de madeira e toda a conclusão da história, é com grande espanto que lembramos do “aviso” no início do filme: “Baseado em fatos reais”. Não se sabe ao certo até que ponto tudo aquilo é real ou imaginação da dupla, ou ainda como sugere um dos irmão em entrevista: Uma compilação de fatos, recortes de acontecimentos em lugares e épocas diferentes costurados em uma só história.

Por outro lado, essa é uma das características mais marcantes da filmografia de Joel e Ethan Coen, o bizarro, o extraordinário e cruel, juntam-se com o banal e o cômico, numa mesma linha, ritmo e frequência, não destoando nem parecendo estranho aos olhos. “Fargo”, “Gosto de Sangue”, “Onde os Fracos Não Tem Vez”, “Queime Depois de Ler”, são todos exemplos dessas improváveis misturas que, nas mãos habilidosas dos Coen, vem dando ótimos resultados.

Produzido em 1996, “Fargo” é o que se pode chamar de um “novo clássico”. Com orçamento baixíssimo para os padrões de hollywood, o longa levou duas estatuetas de melhor roteiro e atriz para Frances McDormand. Além dos próprios irmãos, os atores William H. Macy e Steve Buscemi – que, até então, fazia importantes mas pequenos papéis como em Cães de Aluguel e Pulp Function – passaram a despertar maior interesse em toda a industria cinematográfica.

Jerry Lundegaard (William H. Macy) é gerente de uma revendedora de automóveis, passando por sérios problemas financeiros. Ele elabora um plano para dar a volta por cima. Trata-se do sequestro da própria mulher. Para isso, contrata Carl (Stevie Buscemi) e Peter (Gaear Grimsrud). O resgate será pago por seu sogro, um rico empresário que tem por Jerry um total desprezo. Tudo parece perfeito até que Jerry e seus dois comparsas mostram-se atrapalhados por completo, incapazes de dar cabo da “missão”. Uma sucessão de erros começa a frustrar os planos de Jerry, tornando a história cômica e trágica. É nesse cenário que aparece a chefe de policia Marge Gunderson (Frances Mcdormand). que está nos últimos meses de sua gravidez, mas intrépida e com uma visão aguçada para cada detalhe. Ela mergulha nas investigações de um homicídio triplo que a levará até o sequestro de Jean Lundegaard.

Toda essa história acontece na fria e distante Fargo, Dakota do Norte, sob uma nevasca constante em uma amplidão branca e isolada. O clima e o espaço tem, portanto, grande influência no ritmo do filme ao passo que, manchas de sangue contrapostas com a neve ou qualquer outro acontecimento estranho, vão ganhando um contraste gigantesco diante da vida pacata daquela pequena cidade. Escrito pelos irmãos, o roteiro de Fargo, assim como a maioria dos filmes da dupla, teve instruções rígidas para ser seguido à risca, um trabalho minimalista que foca desde movimentos, expressões, pausas ou hesitações, completo e detalhado. Por outro lado, nada em todo esse trabalho é gratuito ou meramente estético e alegórico. Tudo tem sim uma função na construção da história, de dar apoio ou mais ênfase ao que se conta, exemplo disso é a atenção dada ao dialeto, gírias e ao sotaque local presentes nos diálogos.

Assim Joel e Ethan Coen vão construindo sua história na mundo do cinema, unindo o grandioso com o pequeno, o inusitado com o corriqueiro, tendo ritmo europeu, cara de independente e a força e amplitude do cinema norte americano…

Mais um texto publicado originalmente no Cinecult
Drive de Nicolas Winding Refn

Dirigido pelo dinamarquês Nicolas Winding Refn e estrelado por Ryan GoslingDriver conta a história do piloto e mecânico que se define com a frase: “I Drive…”. Mecânico habilidoso, piloto voraz, o personagem de Ryan se divide entre trabalhos de dublê para o cinema e a vida na oficina. Além desses presta serviços escusos a assaltantes e demais interessados num exímio piloto e profundo conhecedor das ruas. Numa espécie de “pré-contrato”, fica ajustado que ele participará apenas da “logística” da coisas digamos assim, depois do serviço finalizado nenhum outro tipo de contato ou ligação será tolerada.


Essa é a vida deste “cavalheiro solitário”, do qual não sabemos nada, nem do passado e como ele chegou até ali e tão pouco de suas aspirações ou por qual motivo ele realiza aqueles trabalhos. Não há uma voz off que nos apresenta o personagem, muito menos nos diálogos durante o filme conseguimos encontrar alguma informação. Mas há em certo momento um ponto fraco assimilado, ou talvez uma baixa na guarda, que é quando este encontra com Irene (Carey Mulligan) e seu filho Benicio, vizinhos de seu apartamento.



Ainda bastante contido esboçando um sentimento através de sorrisos ligeiros e silenciosos. A partir desse encontro, de olhares demorados e expressivos, é que a vida desses tomará um outro rumo, ou ao menos sinalizará para tal. Pois quando tudo parece estar se encaixando, se rendendo, Irene recebe a notícia de que seu marido sairá da prisão. Contudo é preciso salientar que “Drive” não se prende a esse encontro e a esperança que esse possa representar na vida de cada personagem, mas trata da dualidade da vida deste protagonista, carismático e desconhecido, calmo e explosivo, compassivo e letal, diferenças separadas por um fio.


Drive na verdade é um desses filmes mais complexos de se definir, o que é na verdade sua grande qualidade – já que definições, esquemas, ou classificações podem ser pejorativas. Não é um drama, tão pouco um romance a seria triste defini-lo como um filme de ação, por isso pode-se dizer que o diretor dinamarquês fez um trabalho completo – não perfeito – que embora possa frustrar quem chegou até o longa por meio das cenas de perseguições do trailer, deve muito mais surpreender a quem tinha menores expectativas. Contudo há de se ter uma espera no minimo curiosa já que o longa passou à frente de Lars Von Trier e tomou o Cannes de Melancolia. Sem entrar em julgamentos após assistir os dois longas é de fato fácil saber o porque Driver levou o prêmio.





O grande mérito do diretor Nicolas Winding Refn foi conseguir beber de diferentes fontes de inspiração ou melhor influências, já que em seu trabalho se percebe muito mais apuro técnico e trabalho duro do que puramente inspirações, e entregar um produto novo, a tal da antropofagia talvez.
Tudo em Drive, roteiro, direção e fotografia se move com perfeita unidade e a trilha sonora pontua um ambiente underground, melancólico. Para fechar o bom trabalho de Albert Brooks muito bem no papel de “vilão” e sobre tudo Ryan Gosling que caiu de vez no gosto do público e principalmente dos diretores, deixando para trás papéis coadjuvantes e chegando ao primeiro escalão silenciosamente como se sempre estivesse entre principais nomes de Hollywood.

CINEMA ARGENTINO SE FAZENDO ENTENDER

Crítica originalmente publicada no O Cinemista na coluna Cinecult - Um Conto Chinês
Um jovem casal chinês em um barco. Ele se prepara para pedi-la em casamento. Neste momento, os diálogos em mandarim não são traduzidos. Entendemos a cena de uma forma superficial, mas não incompleta, estabelecendo conexões com certo significado universal, jovens namorados-cena romântica-aliança-pedido de casamento. Até que uma vaca cai do céu e atinge a moça, destruindo o sonho do rapaz e obstruindo qualquer construção de sentido.

Essa é a cena inicial de Um Conto Chinês, longa argentino dirigido por Sebastián Borensztein e estrelado por Ricardo Darín no papel de Roberto, um solitário e rabugento veterano da guerra das malvinas. Roberto tem uma vida pacata, dono de uma pequena loja de ferramentas, se conecta com o mundo através de sua coleção de noticias estranhas recortadas de jornais, até que certo dia Roberto e Jun se encontram. Jun, o chinês da primeira cena, aparece perdido naquele país, com rumo incerto a procura de um tio do qual não sabe muito, sem saber uma palavra sequer do idioma e costumes daquela terra. Num momento raro de bondade e disposição, Roberto decide ajudar o jovem chinês, sem saber que terá toda sua rotina mudada e, a partir dali, outra vida.

O longa é mais um exemplo de como o cinema argentino tem constantemente alcançado um patamar único no cenário cinematográfico, realizando produções que tem sido sucesso de crítica e público, trabalhos acessíveis mas não superficiais, artísticos mas não herméticos, como parte do cinema europeu.


“Um cuento chino” demonstra uma das habilidades do cinema argentino que o faz tão cativante, mostrar a comédia que há dentro de cada drama ou o contrário, o drama contido em cada comedia. Por incrível que pareça, vacas caindo do céu, o encontro e a convivência inusitada de um argentino e um chinês foram baseados em fatos reais.

Entre tantos pontos positivos, talvez o mais interessante de todos seja a límpida comunicação estabelecida entre filme e público, que se constrói através do hiato de comunicação entre os personagens. Diante disso, público e personagens estarão unidos num mesmo gesto, num mesmo esforço de entender e se fazer entender.

Direto do Cinecult , Cinemista, crítica de A Bela da Tarde, com Catherine Deneuve e direção de Luis Bunuel.


Um casal apaixonado, uma esposa linda e recatada, um marido presente e atencioso, essa é a impressão que temos de Séverine e Pierre Serizy durante os primeiros segundos de “A Bela da tarde”, enquanto os dois passeiam numa carruagem aparentemente de forma romântica. Minutos depois o marido ordena que a carruagem seja imediatamente parada, arrasta a mulher para dentro da mata e pede ao cocheiros que à amarrem numa árvore e comecem a chicote-la para depois abusar sexualmente da esposa. Mas calma, tal brutalidade não passou de um sonho, de um devaneio de Séverine (Catherine Deneuve), uma moça tímida, de uma sensualidade contida mas que mesmo assim desperta o desejo dos homens e a curiosidade das mulheres.


Em seus pensamentos mais recônditos Séverine alimenta estranhos desejos sexuais e um profundo descontentamento com os prazeres que o marido pode lhe proporcionar. Quando tem conhecimento da existência de um discreto bordel de Madame Anaïs, Séverine dá inicio a busca da realização de suas obsessões. O endereço Cité Jean de Saumur, nº 11, ressoa em sua mente, ainda que temerosa Séverine mergulhará enfim num mundo que lhe é totalmente avesso as suas convicções sociais, deparando-se com personagens e situações bizarras que no entanto, não a assustarão mais.

Essa é a história de “A Bela da Tarde”, que segue com um clima de surrealismo e suspense, talvez essa a maior qualidade do trabalho do diretor Luis Buñuel, imprimir tal clima surrealista de forma discreta, nas pequenas coisas, nos pequenos gestos e olhares dos personagens. A sensação é a de que em todas as cenas, algo vai eclodir na tela, uma situação ou um desvario virá a tona. Se as coisas realmente acontecem ou são apenas desejos íntimos de Séverine ou mesmo de Pierre seu marido, tudo permanece num leque de opções que o roteiro apresenta. Assim, mais do que um drama surreal que se “explica” e se utiliza de tal característica “A Bela da tarde” soa melhor como um intrigante drama psicológico, vivido por um personagem atormentado por estranhos desejos secretos.


A atuação de Catherine Deneuve corresponde à complexidade de sua personagem, a atriz compila gestos e olhares dúbios que a todo instante confundem ou escondem sua verdadeira personalidade. O filme ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza e teve uma “continuação” filmada em 2006 “Sempre Bela” onde um homem 38 anos depois reencontra a esposa de um amigo, que se prostituía. Antes de filmar A Bela da Tarde, a atriz Catherine Deneuve interpretou outra personagem com sérios distúrbios sexuais em “Repulsa ao Sexo” (1965) de Roman Polanski. No longa, Catherine é Carol Ledoux, uma bela mulher que é sexualmente reprimida e vive com sua irmã mais velha. Ela constantemente resiste aos assédios do seu namorado e também desaprova o amante da irmã. Quando esta viaja com ele em férias, Carol fica sozinha no apartamento e se afunda em uma profunda depressão, passando a ter várias alucinações. Reza a lenda que a atriz teria “ganho” seu papel em “A Bela da Tarde” após o diretor ver sua atuação em “Repulsa ao Sexo”.

Divulgando o material publicado no O Cinemista na coluna Cinecult, dessa vez o texto é sobre Swimming Pool, filmaço do diretor François Ozon

A BEIRA DA PISCINA…
Sarah Morton (Charlotte Rampling) é uma escritora de romances policiais, uma mulher recatada e desconfiada. O sucesso de público e crítica conquistados por seus romances, já não lhe satisfaz. Inquieta com a situação Sara parte para a casa de seu editor John Bosload, em uma pequena cidade na França. Lá ela terá a tranqüilidade necessária para mergulhar em seu trabalho a fim de produzir algo inteiramente novo, capaz de surpreender a crítica e o público.
No entanto, em meio aquele cenário bucólico e paradisíaco, Sara terá a repentina aparição de Julie (Ludivine Sagnier), filha de John, para dividir a casa com ela. Julie é uma garota linda, sensual, cheia de vida e apreciadora de exageros de todos os tipos.
Desse encontro inesperado e antagônico, nascerá uma estranha e forte relação de atração e repulsa. Fatos que influenciarão de forma inimaginável no romance que vai paralelamente sendo escrito por Sara.


“Swimming Pool” tem roteiro e direção do sempre surpreendente diretor François Ozon, diretor do irreverente “8 Mulheres”(2002) e do pertubardor “Sob a Areia”(2000). Os filmes de François possuem sempre uma dualidade que confronta certo humor com um suspense mordaz, afinando ainda mais os laços da realidade com a insanidade e a psique de seus personagens.
Outro ponto forte de Swimming é a atuação de Charlotte Rampling, que transmite no olhar e nos pequenos gestos as inseguranças e inquietudes de seu personagem, assim como seu papel em “Sob a areia” dessa vez Charlotte executa uma atuação intensamente introspectiva. Ao contrário desse caminho está Ludivine Sagnier no papel de Julie, que explora a sensualidade e o todo o lado explicito de sua personagem, mas fazendo com que o real caráter de Julie seja apenas uma incerta e perigosa suposição para quem se aproxima dela. Assim, François percorre mais uma vez o universo feminino por um viés psicológico, não deixando de demonstrar característica realistas e míticas provenientes desse tema.

Continuando a divulgar e resgatar os textos do O Cinemista, coluna cinecult onde escrevi até o ano passado. Dessa vez crítica do longa de animação Valsa com Bashir.

Durante as primeiras cenas de Valsa com Bashir, animação israelense que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, é impossível, ou ao menos de grande dificuldade, não permanecer impressionado e perplexo com as deslumbrantes imagens do longa. Uma mistura de desenhos 2D com traços grossos e tremidos, junto a movimentos em 3D, que chegam a assustar tamanho o realismo alcançado.


Passados essas primeira impressões, que ao longo do filme voltaram a deslumbrar os olhos do público, Valsa com Bashir mostra a tentativa angustiada de Ari Folman (Diretor e roteirista do filme, também soldado das forças de Israel) de reconstruir sua memória sobre o tempo da guerra civil Libanesa e do massacre de Sabra e Shatila. Tal viagem de reconstrução terá inicio quando Folman ouve o relato de um amigo sobre os pesadelos que o perseguem desde o tempo do exército, intrigado com a sua falta de lembranças daqueles tempos, o diretor, roteirista e personagem do filme dá inicio a busca por suas memórias perdidas.

Nesse caminho o longa ganha um “ar” documental que intercala os dramas das pessoas envolvidas na guerra chegando a momentos de pura vertigem, onde realidade e alucinações mal podem ser distinguidas. Como não poderia ser diferente de uma história sobre guerra e mais, sobre os conflitos do oriente médio, Valsa com Bashir toca sim em questões políticas, mostra os absurdo cometidos e deixa claro sua critica, no entanto, sem deixar-se levar por uma postura panfletária, sendo mais pacifista do que partidário.


UMA OBRA PRIMA FEITA DE ELEMENTOS AUTOBIOGRÁFICOS E DE SONHOS


Em Fellini 8 ½ o cultuadissimo diretor italiano Frederico Fellini admite que sua obra possui elementos auto-biográficos, porém insiste que tais elementos estão no filme de forma superficial. No entanto toda a obra de Fellini é marcada por um rigor autoral.

No longa de 1963 juntamente com um material biográfico, Fellini inseri diversos devaneios, sonhos, imagens e situações surreais criadas pelo diretor. A riqueza dos mundos criados por Fellini perpassam os sonhos, as loucuras e também o mundo circense, são elementos recorrentes em toda sua filmografia marcada pelo inusitado e pela perturbação de questões supra-humanas.


Fellini 8 ½ conta a história do diretor Guido Anselmi (Marcello Mastroianni) que vive um momento delicado em sua carreira, sem saber como dirigir seu próximo filme, vivendo uma crise de inspiração, pressionado pelos produtores e ainda num caldeirão de incertezas entre a esposa e sua amante. Em meio a isso Guido tira férias e viaja para uma estância hidrográfica onde irá buscar a paz necessária para realizar seu próximo trabalho. Mas não é o que acontece, amante, esposa, cunhada, produtores e diversos fantasmas e lembranças do passado insistem em perseguir Guido tornando seu trabalho infértil e doloroso.

Esse é o tema do longa, vencedor de dois Oscars de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Figurino, recebendo ainda outras indicações; Melhor Diretor; Melhor Roteiro Original e Melhor Direção de Arte. Fellini retira o-que-ser-contado a partir do nada, insiste em metalinguagem, um filme sobre a criação de um outro filme, como o próprio diretor confessa, esse trabalho remete a fase pela qual ele passava, um bloqueio criativo que paralisou momentaneamente seu trabalho.


Nos extra do DVD lançado pela versátil, entre entrevistas, making of e outros materiais extras, há um texto onde o diretor descreve o drama vivido, quando era cobrado e aguardado ansiosamente por todos envolvidos no projeto sem que estes soubessem que suas carreiras corriam perigo. Frederico Fellini é um ícone do cinema mundial, toda sua obra é obrigatória para cinéfilos e aspirantes a diretor, roteiristas e enfim a quem quiser conhecer um trabalho árduo e repleto de arte.

Critica originalmente publicada no O Cinemista Cinecult, Felinni8/1 

Escrito e dirigido por Giuseppe Tornatore. Baaria é uma das maiores produções do cinema italiano (no quesito financeiro), dirigido com a segurança de quem conhece o ofício. Tecnicamente perfeito… E mesmo assim, Baaria, filme do aclamado diretor de “Cinema Paradiso”, não convence. Fica preso em seus próprios maniqueísmos. O preciosismo de Tornatore tornam-se, neste longa, não mais que manias, repetições e clichês usados de forma oportunista.


A grandiosa história de Baaria reconta décadas importantes da Itália, período da guerra e do pós guerra, assim como as transições políticas e a luta do partido comunista. Assim, participaremos da trajetória de Peppino Torrenuova e toda a sua saga, desde a sua infância ao conhecimento do amor, a construção da família e a carreira politica. Baaria parece englobar todas as outras histórias contadas pelo diretor em seus outros filmes, a paixão pelo cinema, personagens folclóricos (para não dizer lunáticos), a politica e o amor sempre influenciando e impulsionando as decisões dos personagens, as lembranças nostálgicas e um certo teor autobiográfico, quase explícitos.

Contudo, elementos que são responsáveis por filmes inesquecíveis, como “Cinema Paradiso”, “Malena”, “Estamos todos Bem”, e “O Homem das Estrelas”, juntos e misturados em Baaria são dissolvidos nos 150 minutos do longa o que por diversas vezes o torna cansativo.

Qualquer tentativa de definir Baaria parece ser um paradoxo, pois se o fato de Giussepe Tornatore não conseguir reinventar-se ou atingir outros patamares indica certo desapontamento, por outro lado, a poesia continua presente no trabalho do cineasta, poesia acentuada com a parceria de Enio Moricone na trilha sonora promovendo ainda grandes momentos para o cinema. 

Publicação Original no Cinecult do O Cinemista

Continuando a divulgar os textos publicados no O Cinemista , publico agora aqui no "Moviemento Hiroshima Meu Amor" de Alan Resnais, mais um texto do Cinecult.

PRISÃO DO ESQUECIMENTO

O diálogo do incomunicável, a expressão do inexpressível, compreender e se livrar do passado que não se entende e não se liberta. Essas são tentativas frustradas dos personagens de “Hiroshima Meu Amor”, uma atriz francesa de passagem pelo Japão para gravar um filme contra a guerra se encontra com um arquiteto japonês, ambos perdidos de seus relacionamentos conjugais se encontram em uma país que tenta ainda se reencontrar emocionalmente numa pós catástrofe atômica.

O diretor francês Alain Resnais tenta contar a história do incontável, em diálogos desconexos, distantes, sozinhos. O início do filme é composto de longos momentos de silêncio, contemplação do nada, imagens fortes do bombardeio do qual a cidade de Hiroshima foi alvo.


A trilha sonora melancólica acentua o clima e cada sentimento dos personagens, enquanto estes são a justa contraposição de sentimentos e caminhos a ser percorrido. Elle (Emmanuelle Riva) é uma bela e sensível atriz, no entanto atormentada por um amor do passado que a mantém inerte, como se perambulasse através dos dias e pessoas. O olhar sempre angustiado parece buscar a visão daqueles dias perdidos. Lui (Eiji Okada), ao contrário, quer fugir dos dias passados, e do atual momento de sua vida com um casamento fracassado sem amor. Para isso, o arquiteto encontrará em Elle o caminho para sua fuga ou sua redenção. Nesse romance intenso e descompassado Hiroshima meu Amor alcança maiores vôos do que somente um relacionamento entre duas pessoas, segue inerente, toda uma carga política, e filosófica por trás de todo gesto que se vê na tela.

Sendo um dos precursores da Nouvelle Vague, o diretor Resnais conta uma história densa, utilizando e misturando a linguagem literária à cinematográfica, formatando uma história quase estática, mas ainda sim não linear. Sem dúvida que Hiroshima Mon Amour não é um filme fácil, já que os cineastas da “nova onda” buscavam justamente o distanciamento de produções comerciais, buscando o conflito da imoralidade antes escondida.

Por fim, cabe se dizer que: Para se ver livre do passado há de se entregar a prisão do esquecimento…

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Continuando as publicações do cinecult do cinemista, O Evangelho Segundo São Mateus de Píer Paolo Pasolini.

Diz-se que no projeto inicial do longa “A Paixão de Cristo”, o diretor Mel Gibson não pretendia incluir qualquer tipo de legenda, acreditando que a história de Jesus Cristo se faz conhecida nos quatro cantos do planeta e a sua universalidade faz desnecessária qualquer tradução. Independente de religiões e culturas podemos ver isso em uma cena de “Amistad” de Steven Spilberg, em que escravos aprisionados de navios negreiros fazem a sua interpretação da história de Cristo, sem qualquer tipo de conhecimento ou preconceito “chegam” próximos a essência da história.

Em “O Evangelho Segundo São Mateus” o diretor italiano Pier Paolo Pasolini valoriza a imagem e o silêncio, há claro as legendas e na versão disponível em DVD, existem as opções dubladas e a versão original com áudio em italiano e legenda em inglês. No entanto, o que chama mais atenção no longa é o caráter de certa forma austero de Jesus, essa impressão se dá por outros motivos e não por alguma tentativa do diretor de tentar mudar o caráter do personagem bíblico. Pasolini influenciado pelos ideais neo-realistas formou um elenco todo de “não-atores” e abdicou de maneirismos e instrumentos dramático-sentimentais. Em contra partida, a história originalmente contada pelo apostolo Mateus é cuidadosa e fielmente retratada passando por cada momento registrado no livro, desde o nascimento de Jesus, aos ensinamentos e parábolas, do chamado dos apóstolos à ressurreição.

Embora colorido digitalmente a simplicidade da produção ainda se faz notar, seja no figurino e ou nas locações em que foi filmado. Corte secos e closes estáticos aumentam proporcionalmente a tensão e a importância de cada fala. O amadorismo dos atores apenas colabora para uma maior verossimilhança, não vemos os atores, mas os personagens “vivos” naquele contexto. Destaque maior para o ator Enrique Irazoqui (Jesus Cristo), sua atuação é contida, serena e intensa. Mesmo nos momentos mais críticos da história como na crucificação ou no Getsêmani o ator não apela, não se aproxima de “caricaturas” mas transmite em sua interpretação o caráter reto de Jesus, pronto e ciente de seu destino…


Continuando a "repuplicação" do material do Cinemista de onde colaborei, posto agora texto sobre "Crepúsculo dos Deuses", clássico obrigatório pra ver e rever.

Este é um trecho do diálogo que demonstra a situação financeira de Joe Gilliis, um fracassado argumentista que precisa desesperadamente dessa quantia para que o banco não lhe tome o carro, seu único bem material. Enquanto é perseguido por seus credores, Joe encontra a garagem de uma casa aparentemente vazia, é lá que deixará seu carro escondido até que tudo se acalme. No entanto o que parecia ser apenas uma mansão abandonada, é na verdade o castelo de decadência de Norma Desmond, estrela do cinema mudo esquecida pela “nova” indústria cinematográfica. Norma vive ao lado do mordomo Max que lhe serve não só como funcionário, mas como protetor do sonho, ou pesadelo em que esta insiste em permanecer.

Neste cenário quando os caminhos de Joe e Norma se cruzam surge a possibilidade de que ambos alcancem a redenção de suas angústias. Depois que Joe é confundido com um agente funerário contratado para o enterro do macaco de estimação da atriz, Norma vê no escritor a chance de voltar às telas e lhe contrata para reescrever um roteiro feito por ela. Por sua vez, o escritor vê naquela ambiente, uma temporada de paz, ganhos fáceis e a possibilidade de ter um argumento seu enfim aceito pelos estúdios. Um laço intenso e estranho vai se desenvolvendo entre os personagens e os envolvendo num relacionamento doentio e oportunista de parasitas que tentam usufruir daquilo que só encontram no outro.

Se em outro clássico do cinema, a transição do cinema mudo para o falado é vista de maneira alegre, colorida e dançante como em “Cantando na Chuva”, o mesmo não acontece no longa de Billy Wilder, que insere em Crepúsculo dos Deus, uma pesada carga de tensão e pessimismo. A trama se desenvolve através da narração de Joe Gillis fazendo diversas inferências durante todo o longa, refazendo o percurso que o levou a morte, como vemos na cena inicial do filme.


As atuações de Gloria Swanson (Norma Desmond) , Erich von Stroheim (Max) e William Holden (Joe), são os pilares do roteiro bem construído. Embora seja tido como um dos grandes clássicos do cinema, Crepúsculo dos Deuses é menos “badalado” que outras produções do diretor como “O Pecado mora ao Lado” e Quanto mais quente melhor”, no entanto Crepúsculo é um desses trabalhos que comporta e “pede” outras visitas de minuciosas observações, clássico, atual e atemporal.


A IMPOSSIBILIDADE…

É entre outras coisas do que se trata o filme do diretor Kar Wai Wong, a impossibilidade do amor, da fidelidade e também da infidelidade, a impossibilidade de conter e contar um segredo. No entanto o que poderia ser um filme angustiante, tenso e até desolador, nas mãos de Wong transforma-se em poesia, visual, auditiva e porque não reflexiva.

Amor á Flor da Pele mostra a vida o encontro e desencontros de Chow (Tony Leung Chiu Wai) e Li-Zhen (Maggie Cheung). Ele é jornalista, ela secretária, ambos recém casados e por conta do trabalho de seus respectivos cônjuges passam a maior parte do tempo sozinhos. Nessa lacuna que nascerá a amizade de Chow e Li-Zhen que, mais tarde, através de uma descoberta, fará com que uma cumplicidade, beirando um sentimento maior, apareça se fazendo na verdade necessária para a vida de cada um.

Essa é a história de In the Mood for Love, titulo inspirado na musica de mesmo nome do inglês Bryan Ferry. A música, no longa, não aparece somente como sugestão no nome, mas como poucas vezes visto no cinema, tem importância, influência determinante no longa, mais que uma simples trilha sonora. Dá ritmo a trama, acentua as emoções, sem contar que, junto das belas imagens, da fotografia forte e expressiva da película, termina por dar uma maior plástica ao filme junto desses outros elementos. A estética parece ser um alvo claro do diretor, porém, todo o cuidado com os mínimos detalhes transporta sempre um significado, um propósito. Em “Amor…” tanto a música, quantos a força das cores e mesmo o figurino, colaboram para enfatizar a mensagem do longa, dando maiores informações sobre a complexidade dos personagens e a própria trama.


Amor a Flor da Pele é um desses trabalho que carrega diversas interpretações, filme para ser discutido e revisto, cada vez surpreendendo e deixando escapar um novo, um outro segredo.


Veja o link original das minhas colaborações com o O Cinemista 


Com o "congelamento" do Cinemista publicarei aqui no Moviemento os textos publicados na sessão Cinecult do Cinemista, começando com Ladrões de Bicicleta de Vittorio de Sica.

Dirigido pelo italiano Vittorio de Sica, um dos precursores do Neo Realismo, clássico do cinema italiano, Ladrões de Bicicleta mostra-se influente ainda nos dias de hoje, tanto pelas técnicas quando pelo tema abordado. De um prédio público um funcionário segurando uma lista de nomes chama por Ricci, nome que não se encontra na aglomeração da escadaria. A câmera segue percorrendo a rua e o seu movimento, Ricci está sentado, cabisbaixo na calçada até que percebe que sua sorte pode estar mudando. É quando lhe surge a oportunidade de trabalhar como “Colador de Cartazes”, trabalho simples mas que lhe renderia um ordenado capaz de manter uma vida digna e cuidar da mulher e dos dois filhos. No entanto há uma condição, para tal função o trabalhador precisa possuir uma bicicleta. Para recuperar a bicicleta empenhada Ricci e sua mulher empenham suas roupas de cama. Durante o seu primeiro dia de trabalho, Ricci tem sua bicicleta roubada…

O Realismo de De Sica, o seu relato da verdade, carrega e ironia, o improvável o imponderável da vida. Contrapõe justos e injustos, desmistifica, justifica o trabalhador e o ladrão. Essa é a história de Ladrões de Bicicleta, mais do que uma história é o retrato de uma país sem perspectivas no qual a luta pela sobrevivência faz com que valores morais sejam esquecidos.

Neste cenário Ricci e seu filho Bruno vão percorrer as ruas da cidade, o submundo, vão se deparar com personagens amargos, marginais gerados pela dureza da vida. Vão deparar-se com questões, conflitos morais e éticos. Enquanto o pai luta para manter a sobrevivência da família, o filho observa a figura de pai-herói ruindo aos poucos.

Utilizando atores amadores, apresentando profundidade em cada cena, valorizando a ação em diferentes camadas do filme o diretor faz uso de técnicas documentais, objetivo, bruto, seco, contudo consegue não só chocar, mas também nos emocionar.

Infelizmente a difícil situação no oriente médio continua em voga. Em nosso parceiro O Cinemista, na sessão Cinecult escrevi mais uma crítica, dessa vez "Paradise Now", Nãodeixe de ler e leia também a crítica de "Valsa com Bashir" no mesmo Cinecult do Cinemista.

Trecho da crítica:
Com roteiro e direção de Hany Abu-Assad, “Paradise Now” conta a história dos palestinos Khaled (Ali SUliman) e Said (Kais Nashef), amigos desde a infância e agora recrutados para uma missão em Tel Aviv, depois disso, segundo sua crença, irão diretamente para o paraíso.

Khaled e Said trabalham em uma oficina mecânica em meio a carros velhos e a pobreza da Faixa de Gaza. A ocupação israelense como se construísse um grande labirinto, determina os caminhos por onde as pessoas devem andar, fechando ruas e estradas. Nos bares se discute o que fazer com os “colaboradores”, traidores e informantes do inimigo. Enquanto em locadoras e lojas são alugadas ou vendidas fitas com execuções desses colaboradores ou discursos de mártires.