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O frio que vem pela janela da sala
contrapõe-se com o despertar de misterioso e
imprevisto bem estar.
São os barulhos da janela,
e as contas atrasadas o anúncio da morte caseira,
pronta com temperos da cozinha,
morte que interrompe as conversas de janelas e
a alternância de canais na televisão.
Devo tomar a rua, alcançar as praças,
sentar-me aos bancos. Ouvir o som baixo e
fraco das coisas, apanhar jornais envelhecendo?
O caviar apodrece no refrigerador,
espera por outras ocasiões de consumo,
intransponível...
À luz da garagem acesa, a casa dorme....
Porcelana, louça, dinheiro,
chaves em locais fáceis.
Pintava-se assim com o brilhar dos cristais no armário
a hipocrisia burguesa de um anoitecer em família.
Sem que os burgueses saibam dos burgos,
nem das revoluções,
a enorme televisão ou os vinhos envelhecidos
denotavam a história.

Ilustração de Leandro Bulkool

Não Alcalóide


Sem saber da existência do fantasma
de Gene Kelly, permaneço abaixo de gotas
que nem desconfiam de ritmo ao cair e explodir
na testa franzida.

O escuro, o silêncio, são todas formas,
são vidas esquecidas.
Uma mulher esperava na sala,
roubava-me a paciência,
mastigava consciências e fazia bolas azuis de chicletes.

Um abajur a olhava, a luz tinha gosto de hortelã.
Alguns quadros eram pintados,
e visões mudas eram ignoradas,
um grito necessitava ser gritado,
ganhava uma complexidade orgânica,
e tinha a altura como fundamento.

Noutro canto a alegria temia sua denúncia,
mas os tecidos mais que células,
evoluções menores que os órgãos esperavam,
esperavam as conquistas humanas,
o estigma das máquinas.

Mas a noite chegava, jamais faltava,
rios de culturas gastronômicas nos ligavam
ao oriente, gotas de Samurai despencavam do ar.
Cada susto aguardava por de trás da porta.

O livro Um Objeto Quando Esquece, disponivel para download ou leitura online!!! 
Leia abaixo ou acesse o LINK


Post Coitum – Animal Triste

Câmera lenta, foco, luz , corredor.
Andar entre paredes não ousando derruba-las,
nem ultrapassa-las ou transpo-las fisicamente fazendo parte
de sua existência branca.

Aquário, remédio, flash back.
Descobrir cartas tímidas entre outras,
as minhas chegam sempre assim,
ser assim, ter assim as palavras,
em bloco entre outras.

Cenário, nu, preto e branco.
Caminhar para aquele lugar,
um lago de mármore,
oxigênio sintético.
Simetria, sinistro.

Todos os objetos do cômodo
são muralhas cinzentas de aprisionamento.
Um vaso faz chorar,
lençol, camisa de força.
A tristeza pesa no corpo,

Conspiração gravitacional.
Tu tens a tristeza num terno
que permite o abraço material,
o tapa que desmoraliza,
o murro na boca do estômago.
O teu chinelo foi roubado,
A tua cama desfeita,
Os cabelos crescem e lhe personificam, lunático.

Impossível fugir dos espelhos,
A voz alta.
O toque do telefone, o frio na espinha.
Raiva...Raiva por sentir raiva,
Por ter sido triste no ultimo instante,
Por não ter quebrado aquela vidraça.

Tomada final, take, destino.
Traição de mentira, vida de plástico,
Interpretar a si mesmo.
Não se saber personagem,
não reconhecer tua ultima conquista.

Correio, coito, canção.
Não entender o fim da historia,
claustrofobia, medo de gente, de rua vazia.
Tu tens a doença da noite mal dormida,
morte homeopática,
sem rimas, sem “casting”,

triste sem querer

Poema do livro "Um Objeto Quando Esquece", ainda inédito.




Poema que era pra fazer parte do livro "Um Objeto Quando Esquece" e agora, já que reencontrei o rascunho misturado entre outros documentos, fará parte do livro.

Um Objeto Quando Esquece 2

Dar a um objeto a capacidade dos dramas psicológicos,
das memórias falhas feitas de fibra.
Dar a ele a arquitetura do impossível
já que o objeto carrega em seu projeto
o impensável que os olhos
cegos não vêem e as mãos não contam.

Dar a ele olhos que nos vejam como equações
errôneas de retas curvas que não se encontram.
Dar a ele o olhar crítico e cínico do objeto 
que nos cerca indiferente.

E se transformarmos esse objeto no mundo extenso
do papel e distancia-lo do mundo tato, 
mundo cheiro sem sentido.
Duvidaríamos, arrogantes, do tanto de anos
que há naquelas retas.

Não percebendo um sentimento que não se move 
e não se encerra, não se ludibria
e não se esquece.
Que milhões de arestas seriam incapazes de fazer sentido 
daquele objeto perdido e esquecido,
objeto falho de arquitetura fatídica, inesquecível...

Ygor Moretti


Continuando a divulgar meu livro que está no Clube de autores, publico aqui mais um poema do livro "Um Objeto Quando Esquece".

Homem Jovem à sua Janela

A rua não sabia que era espiada,
nem o parapeito era usado num quase salto,
num sobre-salto sobre as pretensões possíveis do quarto.
Os prédios e toda a geometria da esquina não suspeitavam
do homem à janela.

Atrás do Homem na Janela um poema aguarda seu fim,
Alguém lá dentro retrata tudo o que é de fora, o que não pertence ao Homem,
Tudo o que é rua e paisagem na real composição de quem observa e constrói o movimento e o estático.

Atrás do Homem um corpo que acorda, que agoniza
ou não reclama mais a sua vida.
No entanto a calma de quem está na janela
é a de quem logo descerá à rua
e irá pegar o pão fresco na padaria,
ou o jornal que ainda não
anunciou o homicídio.

Enquanto o Homem permanece à janela
não permite que a morte seja algo maior do que os seus trabalhos noturnos.
Não surgirá por enquanto a falta.
Por enquanto ainda não se deu o atraso no trabalho,
E todas as pretensões daquele cadáver ainda aguardam
suas realizações.

O Homem à janela mantém as mãos sujas guardadas nos bolsos,
e a face lânguida incapaz de voltar-se a cena do quarto
observa a esquina e a mulher de vestido.
Tenta alcançar as impossibilidades de um assassino, enquanto
bem menos possíveis dois olhos mortos vividamente estáticos o
observam da cama...

Capa do livro "Um Objeto Quando Esquece"


Eis a nova capa do meu livro "Um Objeto Quando Esquece" disponível para venda no site Clube de Autores.  

Publico aqui a segunda parte do prefácio e um dos poemas que compõem o livro:

Olhando para trás nos mais de dez anos em que comecei e continuei a escrever estes poemas ainda sem que fizessem parte de um projeto maior...
Percebo que também por estarem “soltos” durante todo esse tempo o livro absorveu e delimitou partes diferentes através de estilos e motivos distintos que me fizeram escrevê-los. Nos anos ou melhor, dias finais dessa produção me coube deixar tudo mais ou menos sob uma mesma ótica, num mesmo contexto respeitando a proposta inicial(que na verdade só veio depois) de mais do que escrever... Construir poemas...

Assim numa primeira parte do livro estão poemas que me foram impostos a sua escrita, para expor aquilo que dizem...
Na segunda parte, estão poemas nos quais a imposição partiu de mim, talvez estes textos não necessitassem ser escritos, nem contenham de forma mais explícita algum sentimento(que é o que infelizmente sempre se espera de poesia), mas existem para o exercício poético, para o propósito da construção.
Por fim a terceira e última parte contém textos que também podem ser definidos como prosa poética ou micro-contos, nestes há uma mistura das duas primeiras partes, pois carregam uma imposição alheia para que sejam escritos junto de minucias necessárias para sua construção.

A Insatisfação da Forma

A Filosofia do grito, cabeças e braços,
o dorso do cavalo malhado,
o torso escuro na sombra.
O grito silencioso, contínuo
o movimento em desespero, estático.

Fêmur, porrete janela lamparina,
a tentativa de imprimir o grito na história.
Ferradura castidade,
os seres atingem um nível de existência,
de existência somente.
Persistência da garganta do som do corpo rojo.

A bidimensionalidade das casas,
a construção de arestas por corpos mutilados,
a criança morta a cabeça que ainda respira,
qualquer coisa respira,
pedra touro sono vento.
Expressões de mármore e danças
na dubiedade do escuro que não esquece um seio ou uma flor...