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Uma barata!!! Uma barata!!! Gritava Edgar com indignação.
-Terei de escrever um livro em que o personagem principal é uma barata, mais absurdo ainda que essa barata antes era um homem...

Não se conformava pois sabia que aquela ideia absurda depois de passada pelas suas mãos faria tremendo sucesso. Por outro lado menos mal que tal projeto era obra encomendada, os editores não haviam aprovado e tão pouco estavam dispostos a apostar naquilo. Mas era fato e doloroso, outro escritor que não ele estaria nas estantes das livrarias, na mão das pessoas no metrô e nos talkshows culturais.  E ninguém... ninguém saberia que Edgar Além Poeta era o real autor daqueles livros fantásticos que compunham as listas dos 20 mais vendidos.

Impossível eliminar o ego do trabalho, em meio a tudo isso era o que lhe aniquilava por dentro. Por mais que estivesse empregado, que seus textos fossem bons, comprados, lidos e realmente bons, contudo, o fato de seu nome não estar nas capas dos livros revistas, ou de sua página pessoal não estar “bombando” de likes, lhe tirava a paz. 
Talvez... bem, beeeeem da verdade não era o ego o status de escritor famoso, Pop Star que Edgar perseguia agoniado. O que lhe causava maior tormento era não participar das fagulhas de idéias que explodiam para iniciar aquelas histórias.

Se o seu texto era tão bom ao dar continuidade aqueles briefings, porque não deixá-lo produzir por completo um novo romance policial dentre os vários que ele já tinha rascunhado?
Ao final Edgar acabava se apaixonando por aqueles personagens que só no meio desse novo relacionamento lhe lembravam:
- Ei!!! Eu não sou teu!!!

E lá se iam como uma noiva que prestes a casar partia para as mãos de outro, numa dolorosa noite de núpcias.  Aquele novo job iniciava assim:

"Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara, durante o sono, numa espécie monstruosa de inseto."
...enquanto olhava sua vítima ainda deitada tentando se recompor do golpe, ajustava o silenciador no cano da arma. Calmo, sem desespero sabia que ela jamais sairia dali. Passou a mão na boca que lhe parecia inchada por causa do soco que tomara, a mancha de sangue que lhe veio na mão lhe confirmou toda a raiva, todo o motivo para terminar com aquilo...com gosto.

Bom dia Edgar!!! Trabalho pra você, reunião amanha aqui no escritório, só para você se acostumar a idéia é mais um romance um romance histórico, sobre uma mulher indignada com seu casamento, tentando mudar o curso de sua vida, até que comete um adultério, é o que vai causar todo o reboliço da trama, tendeu?

Bjs e até amanha!
PS: Não se atrase o cliente parece bem metódico... chato mesmo! 
PS2: Ainda não tive tempo de conversar com o Roberto sobre o seu original, mas prometo essa semana tentarei algo.

Não!!! Eu não sou um poeta, apesar do nome. E o "pesar" não contém nenhum desgosto para com os poetas e muito menos para a poesia, mas sim para a brincadeira fácil e boba que vem sempre atrelada ao nome:  - Ahhhhh poeta então... Ou: Poeteiro o Sr. né? Sem contar que de modo geral, para aquele que não tem a mínima intimidade com o objeto livro, todo escritor é poeta e todo poeta é... Um romântico, um sonhador, um delicado ou sei lá que outra forma pejorativa que eles conseguem extrair do que antes era um elogio...


Bom... Eu não sou poeta, não sou muito romântico nem sou fã de coisas delicadas, principalmente na literatura. Eu sou um contista, ou melhor tento ser mas não é bem assim que ganho a vida, por tanto, sou um ghost writer, escrevo textos diversos, inclusive poesias. Mas aqui num tempo livre vou escrever as minhas histórias, os contos de Edgar Além Poeta... Vamos lá!


 Plim!!! Nova mensagem aparece no desktop. É o primeiro contato num briefing bem simplificado, quase como uma resenha diz assim:

História de um defunto autor que de forma irônica reconta sua história. A narrativa deve começar a partir de seu enterro e numa sequência não linear (o autor ressaltou isso) deve passar pela sua infância, adolescência, mocidade, velhice etc etc... Ah, é um romance de época vamos marcar uma reunião com o cliente, ele possuí muito material de pesquisa histórica e outros detalhes. Por enquanto sem nome definido...

Lá se vai o meu texto pro espaço, para o espaço da gaveta junto de outras tantas anotações de textos ainda não escritos. Vou trabalhar...

Edgar Além Poeta

Óbvio e surpreendente o lançamento do filme The Raven, adaptação dos contos do escritor Edgar Alan Poe, tido com um dos principais mestres do conto policial. Óbvio pois a literatura de Poe possibilita inumeras adaptações para o cinema, sua inventividade e suspense permanecem atuais e unicas até os dias de hoje. Por tanto, explicando melhor o "Óbvio" disso é como dizer: "poxa como não fizeram isso antes!!!". Já a surpresa se dá por estar em meio a constantes lançamentos que ignoram o velho ou preocupam-se com as "necessidades" do presente. Ou ainda a surpresa me chega por ser um admirador dos Contos da rua Morgue e não ter tipo nenhuma notícia sobre a produção.

Em The Raven, John Cusack é o próprio escritor Edgar Alan Poe à caça de um assassino serial que imita os crimes dos seus contos. A direção é de James McTeigue, responsável pelos ótimos "V de Vingança" e "Ninja Assassino".
 
 

Para conhecer e aproveitar mais as diversas referências do longa vale a leitura de alguns dos contos do autor encontrados no livro "Histórias Extraordinárias" disponível em diversos formatos desde ebooks à edições de bolso.


Veja também: Micro conto publicado aqui no Moviemento: Ghost Writer

...Afinal, diziam que os Ultra-Românticos tinham desistido de envelhecer ricos de cultura, por isso eram rápidos, marcantes e efêmeros aos 27 ou pouco antes dos 20. Mas e se a evolução tivesse lhes dado pés intactos de tiros acidentais, peitos inflados sugadores e purificadores de um ar de vida, plena, i-mor-tal?...

Um novo email... era o que assinalava a luzinha piscando na tela do monitor, de pronto Edgar detectara o remetente, era mais um trabalho free lancer.
Torcia para que aquela nova encomenda coincidisse com algum texto já produzido e arquivado no HD. Perguntava-se se algum editor teria culhões para apostar em um de seus inéditos contos de terror...

Ygor MF