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Micro-Contos escritos a partir das perguntas:

- O que te traz a calma perfeita?
- O que é que você esconde aí?
- Já dormiu em um automóvel?
- Tem algum método favorito?
- Já matou alguém?
- Dói?


A idéia era que as histórias fossem referentes a um mesmo personagem, fica aqui não só o convite da leitura, mas o desafio a quem quiser se aventurar no mundo dos micro-contos, que embora sejam curtos, possuem ou ao menos devem possuir a mesma estrutura de contos maiores, ou seja:

- Personagem
- Tempo
- Espaço

Texto originalmente publicado Contos das Rosas 



Mudança

Não conheceu o mar, nunca sentiu a areia fofa e a unidade de cada grão como minusculas galáxias entre os dedos. Morreu afogado num lago alcalino formado pela explosão de uma pedreira. Não ousava mergulhar do alto como os outros rapazes. Sabia que dependendo da altura e da forma como caísse, a água poderia ser tão dura quanto o concreto.


Praga de mãe

– Eita minino que gosta de água! Dizia a mãe num misto de zanga e funesta tentativa de dar-lhe algum atributo. Sem saber que aquilo era uma sentença continuava: – É sempre o primeiro a entrar e o último a sair da água.


Trabalho infantil

Comprou a passagem com dinheiro dos vários trocos que foi juntando. Super-faturou pães e maços de cigarro que a pedido da mãe ia comprar. Tráfico de influência, paraíso fiscal aos fins de semana quando ia encontrar com a namorada na cidade ao lado.


O trajeto

Dormir durante quase todo o percurso evitava que sofresse ao reencontrar cada quilometro, cada montanha e curva ao longo da viagem. Lugares desguaecidos de qualquer valor simbolico ou mesmo turístico, que apenas o advertiam; Está muito longe ainda.


Revanche

Eu vou dizer que vou joga bola. – Então pai marcamos uma revanche com o Quebra-Tudo lá Campo Limpo sabe?

Só isso já me garante o sábado, quando voltar no domingo, ai explico, ou não explico, apanho e calo a boca. Semana que vem invento outra coisa.


Eu era um covarde cínico

Se tu é macho mesmo vamos lá pular da pedra quero ver só seu bosta!

Não aceitou o desafio dos adversários, nem sentiu-se diminuído por isso. Sabia que a namorada não se importava com essas medições idiotas de força. De qualquer forma, enquanto nadava pelo canto do lago, observava os rivais pulando do alto da pedra. Desejou que calculassem mal o salto e estourassem a cabeça nos rochedos.


Dói?

Caimbrã é foda! Dizia uma das testemunhas. Pensa num alicate pegando no músculo, torcendo, retorcendo e esticando. O coitado não conseguiu nem boiar.

Conto publicado no Blog Contos das Rosas, plataforma para os textos produzidos no CLIPE 2015, na Casa das Rosas.

A idéia proposta aqui, era pegar um personagem ou livro clássico e transportá-lo num novo contexto na São Paulo de 2015. Abaixo a minha colaboração, já estendendo aqui o convite e desafio a quem quiser produzir algo com uma idéia similar!!!

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Hoje é um dia importante, estou decidido, vou dar um passo à frente com meus demônios, embora esteja descrente que conseguirei de fato exorciza-los…

Vim para um lugar que me faz esquecer por completo as coisas do Rio de Janeiro, o mar, a brisa e todas as tristezas que as ondas trouxeram para minha vida. Graças ao fabuloso emplasto Brás Cubas, atravessei o século, vi o novo milênio nascer, presenciei descobertas e frustrações da humanidade, que assim como um homem de meia idade, reconhece que é bem menos importante, bem menos interessante do que desejava ser.

Sou uma espécie de Dorian Gray com pecados e segredos, banais, banalíssimos como diria José Dias o amigo dos superlativos. Por esses dias, sinto uma estranha e traiçoeira saudade do poeta do trem, que a um século atrás me deu a alcunha de Casmurro. Desculpe poetinha, não sabia que nos dias de hoje só seriam escritosromancetes vampirescos ou romances românticos que deixariam até mesmo os ultra-romanticos encabulados. Lamento ter cochilado enquanto você lia aqueles poemas, que hoje os reconheço bons.

Na praça da Sé um desconforto se instala no peito, o ar decrépito de construções e prédios antigos, me fazem lembrar do Rio, e tudo que me oprime, envergonha e irrita, saio rápido dali. Nem Largo São Francisco onde me formei em direito trás alguma lembrança boa.

Saio da praça e sigo pela Rua Benjamin Constant, dobro a esquina com dificuldade para vencer dezenas de ambulantes oferecendo alianças e joias de gosto e procedência duvidosa. Prédio enormes perfurados com portelas que parecem levar a outras dimensões que não o interior de edifícios. Entro em uma delas, num extenso corredor abro a sétima porta a direita. Procuro um lugar mais ao fundo da sala de onde observo todos que chegam depois de mim.

Poucos participantes tomam seus lugares, homens reprimidos, assassinos em potencial talvez, ou apenas espécies fragilizadas por aquilo que neles é forte. Estamos aqui para castrar o que há de poderoso e ruim em nossos corações. Fazemos um exercício de respiração e rápida meditação, depois vem um exercício de quebra-gelo que sempre constrange mais do que liberta.

Estou atento, quero ser o primeiro a ter a palavra, firmo os pés no chão já projetando o impulso num quase salto. Quando somos perguntados sobre quem quer dar inicio aos testemunhos, levanto a mão enquanto início a caminhada. Decidido e disposto a guerra por aquela oportunidade, ninguém passará na minha frente, ninguém!

– Boa noite caros amigos, meu nome é Bento Santiago, também conhecido como Dom Casmurro… Respiro, penso no terceiro casamento destruído pelo ciúmes doentio, anuncio:

– Eu, Dom Casmurro, sou um homem que ama demais…


Texto para exercício de escrita do Clipe - Casa das Rosas:
Escrever uma carta de amor durante um incêndio.

Queria deixar uma carta que não fosse apenas um recado na porta da geladeira;

Tire a carne do freezer / lave a salada / Recolha a roupa do varal!

Mas deixasse claro que isso não foi suicídio nem terrorismo. Fatidicamente você irá lembrar de quando eu disse que ia explodir o prédio se ninguém da administração resolvesse o vazamento. Quando fico nervoso só falo merda, você sabe disso. No fim você tinha razão, eu sou mesmo distraído, odiava ouvir isso e repudiava quando você dizia achando graça de mais uma atrapalhada minha. Pois bem, foi essa “qualidade” que me fez esquecer o gás aberto e aí já viu…

Agora mais uma explosão destrói por completo a área de serviço e cozinha, e pensar que por capricho seu trocamos todo o revestimento e precisei carregar mais de dez caixas pesadas de material no deposito. Pelos ares também vão as roupas e minhas cuecas que secavam no varal. Você insistia para eu não lava-las durante o banho, pois nunca ficavam limpas de verdade. Mas eu me sentia mal em deixar lá misturada com as outras roupas, principalmente quando são cuecas brancas.

Um calor forte já alcança o quarto do meio, onde você aceitou que eu montasse o meuBUNKER, eu brincava que ali era acesso restrito, nem mesmo você poderia entrar, no máximo bater na porta e deixar o café.

Não vou pular pela janela nem tentar escapar pela porta já tomada pelo fogo, estou entre livros, cds, a prateleira que a muito custo montei, toda torta e com dezenas de pregos extras pra compensar a minha falta de habilidade com ferramentas. Cada objeto desses guarda uma lembrança, um passeio ou viagem que fizemos.

Agora não enxergo mais nada, a fumaça já envolve tudo e o gás carbônico substitui o oxigênio. Não deu tempo de comprarmos um umidificador, acordávamos sempre com a garganta seca, nem flores conseguimos cultivar, deixei morrer um Bonsai, presente de minha mãe, e até o cacto consegui a façanha de deixar morrer seco.

Esqueci de arrumar a cama do quarto, acabei de lembrar, agora já é tarde, tarde pra tudo, inclusive para trocar os presentes repetidos que guardamos dentro do armário. Tinhamos três panelas elétricas, demos uma pra minha mãe que sempre quis ter uma, Presenteamos a Nat e o Rafa, adorei o casamento deles, você ficou se escondendo das fotos, mas estava linda naquele vestido roxo, que aliás aqui entre nós, foi uma pechincha né? Caramba por falar nisso esqueci de tirar foto dele pra postarmos no site de venda online. Voltando às panelas elétricas, ficamos com a terceira e antes tivéssemos usado e abusado desses eletrônicos, salvo algum curto circuito, a chance era bem menor de terminar assim tudo em fogo.

Contudo, mesmo aqui nesse inferno, consigo controlar a raiva que sinto de tudo o que é contrário a minha vontade, não que eu esteja feliz com esse desfecho, mas pensar em você foi minha proteção contra incêndio, até onde deu pois a partir de agora é só ardor sem fim, chamas e cinzas depois. Tristemente você não saberá dessas palavras e pensamentos pois o que deu tempo de escrever foi mesmo um bilhete de geladeira que envio pelo whats:

Amo você, desculpe pela distração, esqueci a porra do gás ligado!

Acordava dez minutos mais cedo do que ela, fazia a barba e já entrava no banho quente. Antes de sair deixava a água cair nas costas, enquanto enxugava os braços e cabelos mantendo a cabeça inclinada para frente fora dágua - Que se dane o desperdício eu que não vou passar frio. Decretava.

No quarto ligava o rádio na estação que anunciava a hora de minuto em minuto. SEIS HORAS E CINCO MINUTOS! REPITA! SEIS E CINCO! 

Cala a boca já sei… Dizia vagarozamente enrolado ainda num mal humor matinal.

Seguia para a cozinha, já num tempo futuro em relação ao da esposa, deixando o trafego do banheiro e closet liberado.
Caneca de café esquentando no microondas e duas fátias de pão na torradeira, terminava de guardar carteira, óculos e outros acessório na bolsa e voltava para a cozinha no exato momento em que o microondas apitava pi-pi-pi - Já vai oh escandaloso! Quase sempre brigava com o eletro-doméstico. 

Mastigava rápido e tomava o líquido aos poucos enquanto ia esfriando, do banheiro ouvia o som de um volume pesado de água caindo no chão. - Já está enxaguando o cabelo. Detectava e iniciava os preparos para servir o café. Sempre lembrava de quando ela ela lhe pedia um copo dágua, repetindo quase sempre a mesma brincadeira; 37% gelada e 63% natural… 22% gelada e 78% natural… Só mudando a porcentagem da mistura, simulando um autoritarismo que ela não tinha.

Enchia metade da caneca com leite desnatado, uma rasa colher de chá com café soluvel, o bastante para “sujar” o leite. Evitava as grandes temperaturas e o risco de “criar” nata, ela odiava. Uma fatia de pão tostado e uma fina camada de margarina, dando aquele aspecto amarelado se impregnando no pão.

SEIS E MEIA!............ REPITA!............SEIS E MEIA! O rádio lhe informava novamente.
Puta merda vou me atrasar de novo! Se assustava, dessa vez agradecido pelo aviso do amigo invisível.

Na bandeja modesta e economica, levava bem menos do que gostaria de entregar; pensava em grandes e recheados pães de queijo, um largo e alto copo de suco natural, torradas e pasta de amendóin ou doce de leite, mas aquele não era dia de exageros.

O café estando amargo ou fraco demais, ela sempre dizia que estava bom, numa voz molenga num lento e pesado despertar. Assitia aos primeiros goles e primeiras mordidas enquanto do outro comodo vinha o alarme: - SEIS E QUARENTA!... REPITA!.....SEIS E QUARENTA!

O corpo tremia num sobre-salto, como se fosse dividir-se ao meio entre aquelas duas realidades ou caminhos, dava um mínusculo passo a trás como se fosse ir embora, retornava rapidamente na direção dela, dava um beijo no rosto quase competindo em espaço com a caneca junto a boca.

Tchau, vou indo, dizia de perto sentindo novamente o cheiro do café misturado ao hálito… - Tchau, dizia ela baixinho. Obrigado! dizia mais baixo ainda, agradecida e quase constrangida por todos os cuidados que ela sabia, vinham juntos de todos os pequenos gestos e medidas…

Pegue uma ou duas folhas de caderno, marque 10 minutos no relógio, e de a partída: Escreva por 10 minutos sem parar, sem pensar, escreva, escreva e escreva, não deixe a mão parar nem que fique escrevendo a mesma palavras algumas vezes. Passe o que estiver na sua mente para o papel, use o gatilho Nesse Momento (ou outro que quiser) para começar o texto e vá em frente!

Abaixo a minha experiência com 10 minutos frenéticos de escrita desenfreada...

Nesse Momento

Nesse momento estou pensando antes, durante e sobre o que vou escrever pelos próximos dez minutos. Sem saber muito bem o que, exceto o gatilho dado, nesse momento, nesse momento...

Talvez repita nesse momento, nesse momento por dez minutos e talvez noutro momento os críticos ou filófosos do nada vão achar zilhões de interpretações para isso que faço nesse momento, sem intenção alguma...
Mas não vou apelar ou ser o chato que não sabe brincar, até porque o gatilho desse momento ajuda mesmo o pensamento a seguir uma trajetoria em linha reta, constante, sem perder a velocidade, como se disparasse do três oitão cinco tiros: nesse momento nesse momento nesse momento nesse momento nesse momento.

Nesse momento em que algumas linhas já foram escritas, o ato de escrever é também físico, matemático com alguma coisa de astrologia ou astronomia pra tentar desvendar quanto tempo já passou.
Porém se a ideia era um texto não pensado, alguma sentenças prontas, clichês talvez, já rodeiam a mente, na falta de algo, e não querendo repetir de-no-vo nesse momento,  taco uma dessas frases que estão em orbita por aqui.

Não são sentenças muito boas, mas olha só sem nem mesmo serem usadas, já estão me garantindo algumas linhas e alguns segundos de escritas, por outro lado, no meio dessa metralhadora de pensamentos, qualquer coisa que apareça assim mais ou menos trabalhada, vai parecer fruto de uma verdadeira arquitetura literária. Mas não vai ser agora, não nesse momento (putz mais um tiro), fica aqui por enquanto você que não arquitertura literaria coisa nenhuma né... Vamos combinar né? Tá mais pra uma barraca de camping que num salto, pronto, tá de pé, montada. Mas fica aqui por perto talvez use metade de você, ou uma palavra solta.

Má noticia, talvez eu nem lhe use (frase pronta), mas é bom ter você por perto, só que não será nesse texto, não, não agora, desculpe, não nesse momento...


Olá leitor fantasma que está por aí!!!
Esse post já passou por aqui mas de forma incompleta, agora deixo aqui mais de um exemplo, mais de uma tentativa de descrever um personagem utilizando as características, jargões e palavras de um nicho específico. Desde já fica também o convite ou desafio pra que façam o mesmo; descrever um personagem usando das característica de sua profissão ou condição...

I

Eu não conheci o meu pai...  Seu rosto, aparece sempre desfocado, com um blur bem no meio da cara. Dizem que sou o seu ¾  duplicado. Sendo assim a descrição que faço é muito mais intuitiva e amargurada.
Um tremendo dum irresponsável isso sim! Aventureiro  e determinado, admito. Digo isso pelos registros de suas fotos, lugares mais exóticos e distantes, entre traficantes, tribos indígenas, povos do deserto e terroristas, animais e o completo nada das regiões geladas.
Você deve ser comunicativo e alto, talvez venha daí também o fato de eu ser essa girafa tímida. Mas você conseguiu se aproximar das pessoas para fotografa-las de perto em sua intimidade, olhando sempre para o alto com o pescoço esticado e queijo erguido.
Mas então por onde anda o seu campo de profundidade, a abertura do diafragma da sua maneira de ver e viver a vida, que nos deixa assim, como borrões desfocados mais ao fundo? Se esse pensamento fosse uma carta ou texto num cartão postal,  teria uma observação abaixo da linda fotografia:

Não apareça! Pois por aqui o teu filme está completamente queimado...


II

No reflexo do espelho tentava identificar o GRID em que foi baseado a construção de seu rosto. - Talvez modular. Pensou, buscando explicações para cada um daqueles elementos bem destacados, respeitando um alinhamento justificado que deixava tudo bem ajustado porém, fazia também com que olhos e bocas parecessem esticados. Com o cabelo tentava quebrar a monotonia de toda aquela harmonia, provocando contrastes com suas linhas finas e contornos desiguais. Mesmo assim, o layout do seu “cartão de visita” era aquele, normal, que no entanto, aos prestarmos mais atenção encontraríamos diversas irregularidades, constatando que a assimetria da natureza reinava por ali. Mais poderosa até que a proporção áurea que coexistia nos melhores trabalhos gráficos, baseados em briefing bem descritos. - Ah se pudesse usar os filtros do Photoshop, ferramenta clone para limpar espinha, Blur, Radlaby, Sponja e outras ferramentas para amenizar sardas e manchas da pele. Lamentava num pensamento silencioso e estridente dentro de sua cabeça. Contudo, em relação a sua palidez e a cor de seus cabelos, aqueles pequenos pontinhos magentas completavam a tríade em sua paleta de cores.  
Mas não só os programas gráficos poderiam dar jeito em sua pessoa, pois seus gestos e movimentos eram itálicos e sua voz minúscula. Sonhava com o dia em que suas frases fossem formadas por fontes bold e tivessem o peso de palavras em CAPS LOCK, mas que fossem também belas e únicas como uma tipografia baseada em movimentos de pincel.
De todo modo precisaria de muito mais esforços e um redesenho de seu logotipo. Como primeira ação deveria largar aquelas roupas e o habito de vestir-se sempre em tons de cinza,  para mergulhar no mar da possibilidades CMKY, retocar a tatuagem como um verniz localizado para assim comunicar-se, ser inserido no mundo onde ultrapassariam sua carcaça, capa e contracapa atraindo assim todos ao seu redor para conhecer os tesouros de seu verdadeiro conteúdo.



III

Tinha os olhos dum azul mais do que artificial, numa escala industrial de CMKY, sendo composto por  92% de Ciano, 71%  de magenta, 0 Yellow e 0 black. Era a formula “mágica” que deixavam aqueles olhos tão lindos e desconfortáveis de encarar frente a frente.
O rosto num grid modular tinha cada elemento bem destacado, boca, olhos, nariz e todas as outras partes da face sem nenhum conflito, no máximo no contraste desejado para um layout perfeito, clean e legível.
O tom de pele perfeito tratado em photoshop, ferramente clone, filtros de instagram, deixavam até mesmo as sardas como a terceira parte da tríade de cores, essa destinada aos detalhes, eram verniz localizado aplicado ao rosto.
Em contraste a todo esse equilíbrio estético, quando se movimentava revelava um caminhar itálico, devido a um problema de nascença na cintura. Também por conta disso, seus gestos eram minúsculos, um manuscrito tremido e atabalhoado, que não deixavam transparecer sua confiança e personalidade segura, forte, Bold.
Dessa forma com todos esses constrastes, entre uma bela capa e uma surrada contra-capa, poucos davam-lhe oportunidades, folheavam suas páginas e alcançavam seu real conteúdo, distribuído em estrofes e capítulos sedentos de visitação.


Alguns desses contos já foram publicados aqui, mas esses são "ineditos" já que foram "melhorados".
Gosto muito dos Mini-Contos ou Micro-Contos, são um ótimo exercício de compressão de idéias, ritmo e acontecimentos,cabendo o sucinto e o poético no mesmo espaço. Servem também para testar histórias, ou livrar-se delas em poucos caracteres. Obviamente de algumas você não vai se livrar pois vão pedir mais e mais, então o micro vai virar, mini, depois conto e até um romance ou roteiro. 
Já aconteceu, de um poema virar conto, e agora estar em processo de virar romance, mas isso é outra história...  


Das possibilidades de um olhar magnético

E se antes eu sentia repulsa, nojo e ódio daquele ser, segundos depois do feito, fui alcançado e invadido com opressão por outros sentimentos. No entanto esse novo sentido não tem nada de terno, mas uma absurda ligação como se dum momento a outro me tornasse gêmeo siamês de um inimigo.
Antes, só fúria e coragem para esmurra-lo, porém, quando o soco adversário me acertou em cheio, fui tomado de certeza, o rosto inchado pulsando e o sangue já descendo pelo supercílio me confirmavam a permissão para o crime.
Saquei a faca e o imobilizei ainda certo das minhas intenções. Enquanto a ponta da arma pressionava seu corpo, nenhuma hesitação me confundia. Mas... Com a força continua do golpe lento sobre a carne... O aço atravessou as roupas, a pele, as fibras e camadas de gordura, atravessando o interior do corpo como se fosse um vácuo, só parando ao chocar-se com a costela e já atingindo o chão debaixo de nós.
O suspiro fraco e a morte instalada foram como a conclusão de um exorcismo, apagando do rosto toda arrogância, trairagem, e outros tantos feitos daquele tremendo filho da puta. Agora uma vítima pacata, serena, nem mais sua hipocrisia e canalhices me davam nojo outra vez.
Não existe o arrependimento moral, mas o peso da maldição, ou melhor, da consequência  de ser a última visão de vida daqueles olhos, e ter naquele corpo o feito mais significativo da minha vida.  Se de fato passa um filme em nossa frente ao morrermos, àquele longa tinha o meu rosto como marca d’água, ou a minha assinatura como co-roteirista. E agora, como uma mancha, uma sujeira que não quer sair, vive impregnado em mim.

Santana

Santana não se abalava com o sorriso que via nos outros, e que esses outros direcionavam a terceiros. Não se importava tanto nem tentava imprimir em sua boca dura algum sorriso forçado. Pois sabia que a felicidade está inserida também nas bocas sérias, curvadas para baixo com lábios rachados e sobre tudo, no seu caso, a felicidade estava expressa abaixo e entre o seu enorme bigode e em suas lembranças de General.

...............................

Ah... A Felicidade... Santana a via refletida em tudo, inerente inclusive aos momentos tristes, eram todos repletos de uma felicidade que apenas Santana acreditava de forma inabalável... Usar aquele vestido era outra forma de incutir o seu corpo todo de felicidade.
Sabia Santana que o ato de usar seu vestido era incutir o seu corpo todo de felicidade. Até mesmo a lembrança de velhos vestidos que ela perdeu, estavam imbuídas de felicidade, o tecido envelhecido ou a cor démodé, eram para Santana, representações vívidas de pura felicidade.

...............................

Observavam os moradores, como Santana estava crescendo, agora inclusive tinha Shopping Center, e transito infernal, diziam os outros pessimistas, moradores mais velhos que gostavam do bairro a moda antiga, casas e alguns poucos comércios, cujos donos eram os próprios moradores de Santana, um lugar incerto onde a felicidade pairava no ar, podia sentir o seu cheiro, mas logo em seguida ia embora empurrada pelo vento.


A incrível história do homem que desistiu de viver...

Era uma vez um homem que desistiu de viver... No entanto, não se jogou da ponte, nem tomou veneno ou deu um tiro na têmpora, embora o som da palavra cicuta lhe agradasse aos ouvidos, e também lhe fazia lembrar daquele filósofo com nome de jogador. E assim um misto de dó e dor faziam com que ele gostasse ainda mais daquele homem, mais do filósofo do que do jogador, já que este último nunca defendera as cores do seu time de coração.
Um pequeno homem, diziam sobre o filósofo, baixo e feio diziam as más línguas dos historiadores. Como Jesus Cristo foi acusado de corromper a juventude com suas ideias. Fato é, que todos esses homens, nenhum tinha desistido de viver, mas ele sim tinha.
Alguém lhe disse que; desistindo de viver, ele se transformaria em uma pessoa extraordinária. Não extraordinário de bela, maravilhosa exemplar, mas fora da ordem, fora do normal, do que os outros acham certo e maravilhoso. Desistindo ele estaria  fora da luta bravia e rotineira “Que só os fortes aguentam”, diziam com olhos fechados e dedos em riste como se apontassem aos céus.

Mas ninguém entendia que desistir não era ficar trancafiado numa sala vivendo sobre a cama. Nem jogar-se dum alto prédio ou na frente do trem. Muito menos que todas essas possibilidades, com uma admirável destreza de não fazer mal a ninguém, nem mesmo a ele. O Homem tinha desistido de viver, mas continuava a pagar suas contas, ia ao trabalho, subia escadas, trocava ou comprava novas roupas e lavava a calçada aos finais de semana, tudo o que as outras pessoas cheias de vida faziam, mas ele... tinha desistido.

Num exercício proposto na Clipe - Casa das Rosas, a idéia era comparar a construção de um poema a alguma tarefa qualquer, algum ato rotineiro, como o celebre Catar Feijão de João Cabral de Melo Neto.

Minha comparação foi o quebra cabeça, a escolha de uma peça pra cada espaço, da mesma forma que o poema precisa de cada palavra no espaço, no ritmo na sequência certa, apesar do certo e errado, ideal ou não na escolha das palavras ser algo muito subjetivo e limitado ao poder de cada autor. Existe sim sempre a procura para ocupar aquele vazio. 

Mãos estáticas diante do vazio,
Infinito em centímetros onde dormem mil possibilidades,
Vácuo que reclama a coisa que lhe falta, 
sem saber o que lhe caberá.
No entanto, já existe o espaço do incompleto,
Já existe a ausência que não dói nem corrói,
Ausência branda de elemento, física, 
intransponível, suportável.
Paralelo o poema permanece estático,
Vai se construindo de cada resto do nada,
Se incorporando de cada espaço vazio do quebra cabeça.

Ygor Moretti

Catar Feijão

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.

João Cabral de Melo Neto

Trevas, um monolito preto, intransponível, im-pe-ne-tra-vel... Durante horas e as vezes dias, uma escuridão maciça e inorgânica. 
Em algum ponto do tempo transcorrido e desconhecido, sons de metal, gemidos, correntes e passos revelam a existência de salas adjacentes, por onde luzes opacas rastejam, rastreiam o chão em pequenos feixes de luz. Mesmo sem alcançar a sala escura, a pouca luz como uma explosão solar revela uma porta de ferro, trancas e cadeados. 
Lá dentro só silêncio e depois de segundos, escuridão novamente....

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É possível criar um texto sem personagem? Essa foi a proposta e desafio proposto pelo professor e escritor Ricardo Lísias, na CLIPE 2015.

Mais detalhadamente o desafio era imaginar um lugar fechado e narrar uma história sem personagem.
O Problema é que; ainda que não se tenha uma pessoa, animal ou qualquer outro ser no texto, uma cadeira, um objeto e até o nada pode tornar-se um personagem. 

Se fizermos uma busca quase em todo texto inclusive nesse acima, teremos algum personagem, ainda que de forme bem longínqua e subjetiva.

Em contra partida, nos dias a definição clássica que para ter um personagem, é necessário ter uma ação. Para não perder a graça vou deixar nos comentário uma informação a mais sobre o texto, sobre o que imaginei e onde se passa tal narrativa...

Aproveitando, deixo aqui o desafio, escreva uma história curta e sem personagem... 


Em umas das tarefas do primeiro módulo da Clipe 2015, curso de preparação para autores realizado pela Casa das Rosas em São Paulo, foi proposto aos alunos, investigar, observar e exercer os diferentes tipos de narradores em suas histórias.

Abaixo seguem três versões de uma mesma história contadas por narradores diferentes.

A incrível história do homem que desistiu de viver

3ª PESSOA - narrador oniciente, aquele que sabe de tudo, pensamentos, ações dos personagens e o porque de cada coisa.

Era uma vez um homem que desistiu de viver... No entanto, não se jogou da ponte, nem tomou veneno ou deu um tiro na têmpora, embora o som da palavra cicuta lhe agradasse e lhe fazia lembrar daquele filósofo com nome de jogador. E assim um misto de dó e dor faziam com que ele gostasse ainda mais daquele homem, mais do filósofo do que do jogador, já que este último nunca defendera as cores do seu time de coração.

Um pequeno homem, diziam sobre o filósofo, baixo e feio diziam as más línguas dos historiadores. Como Jesus Cristo foi acusado de corromper a juventude com suas ideias. Fato é, que de todos esses homens, nenhum tinha desistido de viver, mas ele sim tinha.

Alguém lhe disse que; desistindo de viver, ele se transformaria em uma pessoa extraordinária. Não o extraordinário de belo, maravilhoso exemplar, mas alguém fora da ordem, fora do normal, fora daquilo que se esperava das pessoas corretas. Desistindo ele estaria  fora do combate bravio e rotineiro “Que só os fortes aguentam”, diziam com olhos fechados e dedos em riste como se apontassem aos céus ou a outra verdade absoluta.

Mas ninguém entendia que desistir não era ficar trancafiado numa sala vivendo sobre a cama. Nem jogar-se dum alto prédio ou na frente do trem. Muito menos que todas essas possibilidades, com uma admirável destreza de não fazer mal a ninguém, nem mesmo a ele. O Homem tinha desistido de viver, mas continuava a pagar suas contas, ir ao trabalho, subir e descer escadas. Trocava ou comprava novas roupas e lavava a calçada aos finais de semana, tudo o que as outras pessoas cheias de vida faziam, mas ele... tinha desistido.

2ª PESSOA - O narrador é próximo do personagem, tem algum grau de parentesco ou intimidade, pode-se direcionar diretamente a ele, emitir sua opinião sobre as ações e pensamentos do personagem, no entanto, aqui o narrador não sabe de tudo, mas baseado no conhecimento que tem o personagem, pode "prever" algumas de suas ações.

Homem!!! Pra que desistir de tudo? Que fraqueza é essa? Bom menos mal que não vai se jogar da ponte, era só o que faltava né? Também não vá querer dar uma de poeta romântico e contrair tuberculose por ai, ou outra doença fatal. Seja homem que história é essa de desistir de viver?

No entanto, lhe aconselho por esses dias a ficar longe daquelas leituras que lhe deixam tão pra baixo, Sócrates que foi mal interpretado e injustamente morto, eu sei, é de foder uma coisa dessa. Mas também o que você quer? Em contra partida disso outros paspalhos dão com uma doze na cabeça, aquele louco varrido do Hemingway, não é parâmetro pra ninguém! Esqueça! Pense então no Sócrates do meu Timão, sei que você lamenta o fato dele nunca ter jogado pelo Palestra, mas são coisas da vida, paciência.

Por outro lado amigo, esqueça essas pessoas que dizem que desistir é coisa de fracos, é pecado e outro monte de baboseira. Porque eles burros levam tudo pro lado literal da coisa, acham que você vai se matar mesmo, se jogar da ponte, cortar os pulsos e esse monte de merda que as pessoas fazem por aí. Não é assim né?

Pois bem amigo, eu digo a você não desista, digo isso como conselho, mas a escolha é sua e não irei gostar mais ou menos de você por isso. Na verdade vou virar as costas e deixar você com seus pensamentos e filosofias, ou a total ausência desses.

Tranquilo, sem remorso de deixa-lo só, pois sei, que você continuará lavando a calçada, vai continuar a pagar as contas, ir ao trabalho, subir e descer escadas. Independentemente do que você escolher, ninguém vai notar, nem vão te aplaudir ou vaiar, ninguém vai perceber, mas eu sei amigo... que você... Desistiu...


1ª PESSOA - É o próprio personagem que narra a história, portanto, todas as ações e a narrativa por completo segue o seu ponto de vista, opinião e tendências, pode ser o tal do narrador não confiável que pretende que o leitor aceite a sua história.

Primeiro veio a revolta por tudo e por nada, vontade de explodir e ser a bomba que levaria tudo ao redor para os ares. E foi dia e noite, meses e anos de altos e baixos que levaram a cicatrização forçada das feridas, e o corpo e a alma calejarem. A partir daí, não quis mais nada, nem xingava mais o juiz ladrão ou o centro avante perna de pau que perdera mil gols. Nem políticos safados nem amores traídos, chegou o tempo em que eu desisti de tudo, tudo mesmo, inclusive de viver...

Contudo, a consequência de desistir não seria pular da ponte, cortar os pulsos ou beber cicuta igual fizeram Sócrates beber. Ah... Eu desisti até mesmo da filosofia e meu último pensamento espontâneo foi imaginar o Dr. Sócrates vestindo a camisa do Verdão. Mas também não ligava mais pra isso, desisti do grito de gol no meio da comemoração enquanto a rede ainda balançava.

Eu bem sei que nenhum dos Sócrates e outros mártires ou homens admiráveis tinham desistido de viver, mas eu desisti. Então vieram  todo tipo de gente conversar comigo, religiosos, moralistas e falsos amigos em tom de alerta dizendo: Que se eu desistisse, seria alguém extraordinário, e explicavam como se eu fosse uma anta e não entendesse. Extraordinário diferente de belo, exemplar, mas sim fora da ordem, fora do normal, fora da luta guerreira de cada dia que só os fortes aguentavam. E nesse ponto aumentavam o tom doutoral dos que sabem de todas as coisas.

Mas ninguém entendia que desistir não era de fato dar um fim na vida. Afinal, eu continuaria a pagar as contas, subir e descer escadas, comprar roupas novas, lavar a calçada e um tanto de outras coisas que essas pessoas cheias de vida faziam, mas eu ora bolas, tinha desistido...