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Aviel desistiu de buscar o “poema perfeito”, com os dias contados pela doença, interrompeu de vez sua carreira literária. Sem tempo para novos estudos, sem força para dezenas de escritas e reescritas, sem paciência para o ócio criativo que de vez em quando visitava retornando com certa clareza e folego para seus projetos. Porém, como ultimo ato, ao lado de outros sobreviventes de Auschwitz deixaria sua ode àquele mundo que o cercava…

Enquanto brindavam com seus licores de romã, Aviel e seus companheiros tentavam imaginar o percurso das águas de Munique, Nuremberg, Hamburgo e Frankfurtm, não mais inodoras, insípidas e incolores…
Nas canecas, nos cantis dos soldados, nos bebedouros das varandas deixados para os pássaros. O veneno desenvolvido pelo bioquímico Menashe, circulava por quase todo o território alemão.
E para Aviel essa água tinha absoluto sabor de vingança…

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Texto escrito para o site Ninho de Escritores, exercício número 12

Escreva um texto inteiro sobre uma mordida ou um gole!

Naquela noite teve um desses sonhos que parecem reais, muito reais. 
Em seu sonho permaneceria dormindo pra sempre, neste sonho, nesse lugar, nada acontecia, nem outros sonhos ou pesadelos. Tudo permanecia parado como em algum lugar do espaço onde nem estrelas ou qualquer outra coisa ofuscam a preseça do NADA.
Era perfeito viver nesse vácuo de existência onde as coisas são perfeitas justamente por não existirem. O mais absoluto Nirvana que de tão nada, nem deveria ser citado aqui.
Contudo, o digo porque era um sonho, lamentavelmente ele acordou, coberto da insistência da vida que se faz entre bilhões de coisas inúteis, mas que no entanto, existem, influenciam e lhe obrigam a lembrar que terá pela frente mais uma vez a miséria dos dias... 


Era uma vez um barquinho a vela.
Não era movimentado por motores, nem hélices.
Nem correntes ou ancoras podiam pará-lo.

Gostava de depender do vento.
Fazer de Icebergs playground,
de rochedos pequenas ilhas.
Poucos sabiam que o barquinho
já foi barco a vapor.
Truculento, pesado, cinza e barulhento
parecendo se arrastar pelas águas.

Mas aquele barquinho a vela,
queria ser bem menos do que isso.
Pois, sabe que em certas coisas, menos é mais.

De barco a vela queria se transformar em jangada, 
caiaque, standup-paddle.
Qualquer coisa sem amarras, 
até mesmo jacaré sobr eas ondas lhe serve.

Leve... leve como espuma, 
belo como horizontes, livre como pássaros...
O barquinho a vela, quer ser o próprio vento...

Micro-Contos escritos a partir das perguntas:

- O que te traz a calma perfeita?
- O que é que você esconde aí?
- Já dormiu em um automóvel?
- Tem algum método favorito?
- Já matou alguém?
- Dói?


A idéia era que as histórias fossem referentes a um mesmo personagem, fica aqui não só o convite da leitura, mas o desafio a quem quiser se aventurar no mundo dos micro-contos, que embora sejam curtos, possuem ou ao menos devem possuir a mesma estrutura de contos maiores, ou seja:

- Personagem
- Tempo
- Espaço

Texto originalmente publicado Contos das Rosas 



Mudança

Não conheceu o mar, nunca sentiu a areia fofa e a unidade de cada grão como minusculas galáxias entre os dedos. Morreu afogado num lago alcalino formado pela explosão de uma pedreira. Não ousava mergulhar do alto como os outros rapazes. Sabia que dependendo da altura e da forma como caísse, a água poderia ser tão dura quanto o concreto.


Praga de mãe

– Eita minino que gosta de água! Dizia a mãe num misto de zanga e funesta tentativa de dar-lhe algum atributo. Sem saber que aquilo era uma sentença continuava: – É sempre o primeiro a entrar e o último a sair da água.


Trabalho infantil

Comprou a passagem com dinheiro dos vários trocos que foi juntando. Super-faturou pães e maços de cigarro que a pedido da mãe ia comprar. Tráfico de influência, paraíso fiscal aos fins de semana quando ia encontrar com a namorada na cidade ao lado.


O trajeto

Dormir durante quase todo o percurso evitava que sofresse ao reencontrar cada quilometro, cada montanha e curva ao longo da viagem. Lugares desguaecidos de qualquer valor simbolico ou mesmo turístico, que apenas o advertiam; Está muito longe ainda.


Revanche

Eu vou dizer que vou joga bola. – Então pai marcamos uma revanche com o Quebra-Tudo lá Campo Limpo sabe?

Só isso já me garante o sábado, quando voltar no domingo, ai explico, ou não explico, apanho e calo a boca. Semana que vem invento outra coisa.


Eu era um covarde cínico

Se tu é macho mesmo vamos lá pular da pedra quero ver só seu bosta!

Não aceitou o desafio dos adversários, nem sentiu-se diminuído por isso. Sabia que a namorada não se importava com essas medições idiotas de força. De qualquer forma, enquanto nadava pelo canto do lago, observava os rivais pulando do alto da pedra. Desejou que calculassem mal o salto e estourassem a cabeça nos rochedos.


Dói?

Caimbrã é foda! Dizia uma das testemunhas. Pensa num alicate pegando no músculo, torcendo, retorcendo e esticando. O coitado não conseguiu nem boiar.

Conto publicado no Blog Contos das Rosas, plataforma para os textos produzidos no CLIPE 2015, na Casa das Rosas.

A idéia proposta aqui, era pegar um personagem ou livro clássico e transportá-lo num novo contexto na São Paulo de 2015. Abaixo a minha colaboração, já estendendo aqui o convite e desafio a quem quiser produzir algo com uma idéia similar!!!

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Hoje é um dia importante, estou decidido, vou dar um passo à frente com meus demônios, embora esteja descrente que conseguirei de fato exorciza-los…

Vim para um lugar que me faz esquecer por completo as coisas do Rio de Janeiro, o mar, a brisa e todas as tristezas que as ondas trouxeram para minha vida. Graças ao fabuloso emplasto Brás Cubas, atravessei o século, vi o novo milênio nascer, presenciei descobertas e frustrações da humanidade, que assim como um homem de meia idade, reconhece que é bem menos importante, bem menos interessante do que desejava ser.

Sou uma espécie de Dorian Gray com pecados e segredos, banais, banalíssimos como diria José Dias o amigo dos superlativos. Por esses dias, sinto uma estranha e traiçoeira saudade do poeta do trem, que a um século atrás me deu a alcunha de Casmurro. Desculpe poetinha, não sabia que nos dias de hoje só seriam escritosromancetes vampirescos ou romances românticos que deixariam até mesmo os ultra-romanticos encabulados. Lamento ter cochilado enquanto você lia aqueles poemas, que hoje os reconheço bons.

Na praça da Sé um desconforto se instala no peito, o ar decrépito de construções e prédios antigos, me fazem lembrar do Rio, e tudo que me oprime, envergonha e irrita, saio rápido dali. Nem Largo São Francisco onde me formei em direito trás alguma lembrança boa.

Saio da praça e sigo pela Rua Benjamin Constant, dobro a esquina com dificuldade para vencer dezenas de ambulantes oferecendo alianças e joias de gosto e procedência duvidosa. Prédio enormes perfurados com portelas que parecem levar a outras dimensões que não o interior de edifícios. Entro em uma delas, num extenso corredor abro a sétima porta a direita. Procuro um lugar mais ao fundo da sala de onde observo todos que chegam depois de mim.

Poucos participantes tomam seus lugares, homens reprimidos, assassinos em potencial talvez, ou apenas espécies fragilizadas por aquilo que neles é forte. Estamos aqui para castrar o que há de poderoso e ruim em nossos corações. Fazemos um exercício de respiração e rápida meditação, depois vem um exercício de quebra-gelo que sempre constrange mais do que liberta.

Estou atento, quero ser o primeiro a ter a palavra, firmo os pés no chão já projetando o impulso num quase salto. Quando somos perguntados sobre quem quer dar inicio aos testemunhos, levanto a mão enquanto início a caminhada. Decidido e disposto a guerra por aquela oportunidade, ninguém passará na minha frente, ninguém!

– Boa noite caros amigos, meu nome é Bento Santiago, também conhecido como Dom Casmurro… Respiro, penso no terceiro casamento destruído pelo ciúmes doentio, anuncio:

– Eu, Dom Casmurro, sou um homem que ama demais…


Um ataque cardíaco... E ganhou coroas, medalhas, odes e músicas.
Os mais distantes lamentavam profundamente sem lembrar do quão era duro a convivência com ele. De longe o achavam ainda uma ótima pessoa.
- Que perda irreparável diziam os próximos a esses. Mesmo sem conhece-lo.
Um ataque cardíaco e ficou lindo, esbelto, sereno, herói, um martir.
Depois do ataque cardíaco seus trabalhos viraram obras primas, as frases chatas que sempre repetia ditos populares, um hino.
Depois do ataque cardíaco o amor incondicional,
todas as conquistas vieram depois do ataque cardíaco junto de abraços demorados e choro incontrolável.
Quase o chamaram de santo ou algo próximo disso.
Em contra partida muitos outros continuaram a acha-lo um babaca, derrotado, azarado, um bosta.
- Foi sempre um nada, este é o o seu maior feito. Um ataque cardíaco. Diziam implacáveis.
Mas nínguém sabia que sua superioridade, principalmente agora, estava no fato de não ligar pra mais nada, seu último pecado em vida foi partir com o ar esnobe de quem diz: - Foda-se, a tudo...
Talvez pudesse melhorar ou diminuir a intensidade disso se não estivesse morto.
Mas era impossivel não se achar superior enquanto desfrutava de seu nirvana particular onde não sentia nem se importava com mais nada, ma-is na-da.

Trevas, um monolito preto, intransponível, im-pe-ne-tra-vel... Durante horas e as vezes dias, uma escuridão maciça e inorgânica. 
Em algum ponto do tempo transcorrido e desconhecido, sons de metal, gemidos, correntes e passos revelam a existência de salas adjacentes, por onde luzes opacas rastejam, rastreiam o chão em pequenos feixes de luz. Mesmo sem alcançar a sala escura, a pouca luz como uma explosão solar revela uma porta de ferro, trancas e cadeados. 
Lá dentro só silêncio e depois de segundos, escuridão novamente....

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É possível criar um texto sem personagem? Essa foi a proposta e desafio proposto pelo professor e escritor Ricardo Lísias, na CLIPE 2015.

Mais detalhadamente o desafio era imaginar um lugar fechado e narrar uma história sem personagem.
O Problema é que; ainda que não se tenha uma pessoa, animal ou qualquer outro ser no texto, uma cadeira, um objeto e até o nada pode tornar-se um personagem. 

Se fizermos uma busca quase em todo texto inclusive nesse acima, teremos algum personagem, ainda que de forme bem longínqua e subjetiva.

Em contra partida, nos dias a definição clássica que para ter um personagem, é necessário ter uma ação. Para não perder a graça vou deixar nos comentário uma informação a mais sobre o texto, sobre o que imaginei e onde se passa tal narrativa...

Aproveitando, deixo aqui o desafio, escreva uma história curta e sem personagem... 
Sketchbook de quem não sabe desenhar

Deu uma passadela com os olhos na manchete porque a matéria era muito longa. 
Preferiu o resumo e antes a resenha porque a obra era longa demais.

Tomou veneno, porque subir ao 30º andar demoraria demais, porém, enquanto engasgava com o líquido, sentia falta de ar, espasmos e dores pelo corpo, arrependeu-se, pois a queda seria de fato, muito mais rápida.
Correu 5 KM porque não cabia em sua rotina treino pra maratona.

Contudo, diante de todos os tropeços e fracassos, não explodiu, embora quissesse ser uma granada em fagulhas. Outro dia com o humor um pouco mais afetado, desejou ser uma bomba de Napalm ou nitroglicerina líquida distribuída nos rios da cidade. Independente do que fosse, não teria tempo pra juntar os cacos e por isso, preferiu ficar avançar ao estágio de zumbi, porque não tinha tempo para o velório nem as burocracias do necrotério.

Escreveu um haicai porque nem poesia ou soneto tinha tempo, nenhuma rima em suas frases a não ser as acidentais, nem conto, nenhuma história para contar, nem romances ou enlaces eram comportados pelas horas daqueles dias.

Micro-conto ou mini conto que surgiu (também) após a leitura do mini-conto do amigo Maik Barbara Dois Lados da Moeda – Cara&Coroa  entre outras inspirações... he-he-he. Mas não se espante além do que essas próximas linhas insinuam... é tudo ficção.

Das possibilidades de um olhar Magnético

E se antes eu tinha nojo, ojeriza, repugnância e outros tantos adjetivos que poderiam mostrar o asco que sentia na sua presença... Agora sinto uma absurda ligação, genuína, lhe sendo e lhe tendo como o que há de mais intimo, o feito mais importante da minha vida.

Porque agora, eu sou a sua ultima visão do que é, do que foi a vida, e se de fato lhe passou um filme diante dos olhos antes do golpe final, aposto que o meu rosto era uma marca d´agua à frente dessa tela. Em contra partida admito; que o seu ultimo olhar também ficou gravado em meus olhos, no exato momento em que empurrava a faca um pouco mais pra dentro do seu peito, quando a carne se rompeu de vez e o aço adentrou por completo só parando no osso de sua costela... Aquele seu olhar com olhos estatelados seguidos de um profundo suspiro, lhe tornou insuportavelmente próximo, ligado a mim, talvez fosse a culpa e a responsabilidade de eu me tornar a sua ultima lembrança em vida. 


E nesse seu ultimo olhar de quase morto, sem querer, eu e você aniquilamos toda a sua arrogância, toda a hipocrisia que antes morava em seus olhos, que azar, porque se fosse assim antes, eu juro... Não precisava ter lhe matado... 
Ao terminar mais um texto sabia que a mãe aguardava ansiosa para lê lo, sabia também que mais uma vez se emocionaria. O amigo crítico literário se diria mais uma vez surpreendido pelo sua genialidade literária, e o amigo iletrado confessaria que somente os seus textos é que lhe despertavam curiosidade e algum contato com a literattura.

Tentava adivinhar qual o número de curtidas e comentários que teria ao publicar em seu site pessoal (sabia de certo que o número seria como de costume entre 800 a 1000 manifestações de fãs). Difícil mesmo era decidir pra qual concurso mandar aquele conto já que sabia que seria o vencedor. 

Mas não sabia, jamais desconfiara dos amigos, dos editores, dos menestréis e acadêmicos que se moviam todos unidos para contornar a sua loucura míope, incapaz de enxergar a verdade de páginas, telas, livros e cadernos vazios que só em sua mente estavam repleto de pura poesia... 
Micro Contos publicados na Revista Digital Benfazeja


AQUÁRIO

Precisava de um aquário para lhe fazer companhia... Encasquetou. Silencioso e presente o bastante para fazer presença nos momentos alegres mas solitários enquanto escrevia... Um enorme peixe dourado a lhe observar com dois grandes olhos. Boca e guelras em constantes movimentos, mas pareciam mais súplicas do que qualquer outro gesto de vida.

Sentiu-se tão preso e sufocado quanto aquele peixe, aquela presença agora o incomodava, o motor do filtro e as bolhas de agua causavam um barulho ensurdecedor. Havia ali dentro daqueles 100 litros um pedido constante e silencioso de socorro que o ligava quase de forma magnética, escrava aquela visão. A partir dali por trás do vidro num reflexo sem muita exatidão via-se preso outra vez solitário de mãos atadas sem poder nadar...


VESTIDO DE MORTO

Traje social quase uniforme para toda e qualquer situação, rosto pálido sempre cansado, assustado. Camisas largas no corpo, cores claras inexpressivas, as calças curtas sobrando nas canelas cumpridas. 
Passos e vida calma até o fim, no caixão pela primeira vez um rosto terno e não mais apático, nunca mais...


SANTANA

Santana não se abalava com o sorriso dos outros em face dos seus poucos risos, pois sabia que a felicidade está inserida também nas bocas sérias, nos lábios rachados e sobre tudo, abaixo e entre o seu enorme bigode.

Sabia Santana que o ato de usar seu vestido era incutir o seu corpo todo de felicidade. E suas lembranças de General estavam imbuídas de felicidade.

Ah... A Felicidade... Santana a via refletida em tudo, inerente inclusive aos momentos tristes, eram todos repletos de uma felicidade que apenas Santana acreditava de forma inabálavel...


ULTRA-HIPER-SUPER-ROMÂNTICOS

...Afinal, diziam que os Ultra-Românticos tinham desistido de envelhecer ricos de cultura, por isso eram rápidos, marcantes e efêmeros aos 27 ou pouco antes dos 20. Mas e se a evolução tivesse lhes dado pés intactos de tiros acidentais, peitos inflados sugadores e purificadores de um ar de vida, plena, i-mor-tal?...

Um novo email... era o que assinalava a luzinha piscando na tela do monitor, de pronto Edgar detectara o remetente, era mais um trabalho free lancer.

Torcia para que aquela nova encomenda coincidisse com algum texto já produzido e arquivado no HD. Perguntava-se se algum editor teria culhões para apostar em um de seus inéditos contos de terror...

Ygor MF

Então ia retirando tijolo à tijolo, recontando, devolvendo cada um ao depósito, construindo torres ou cubos maciços que em nada lembravam os seus projetos. Neste momento os repensava, imaginava-os melhorados, concretizados. Era o tempo de entende-los e definir aqueles ainda não muito claro em sua mente como por exemplo: A Ponte Subterrânea.

Ao final juntava o bilhete "refaça a ponte" a pilha de recortes iguais espetados no porta recado. Refazia os cálculos que se repetiam sem-pre-cor-retos, Então começava a reconstruir a ponte, desde a colocação do primeiro tijolo já sabia que queria que recompô-la outras tantas vezes, mas assim mesmo era perfeito em casa movimento naquela nova tentativa de transpor um abismo...

Ygor Moretti 

        Era uma vez um homem que desistiu de viver...
       Não se jogou da ponte, nem tomou veneno ou um tiro na tempora, embora a palavra cícuta lhe agradava os ouvidos, lhe fazia lembrar daquele filósofo com nome de jogador, misto de dó e dor faziam com que ele gostasse ainda mais daquele homem.
   Alguém lhe disse que se desistindo de viver se transformaria em uma pessoa extraordinária, fora da luta bravia e rotineira. Desistir no entanto não era ficar trancafiado numa sala vivendo sobre a cama, ele continuava a pagar suas contas, ia ao trabalho, subia escadas, trocava ou comprava novas roupas e lavava a calçada aos finais de semana, tudo o que as outras pessoas cheias de vida faziam, mas ele... tinha desistido.

Ygor MF



Precisava de um aquário para lhe fazer companhia... Encasquetou. Silencioso e presente o bastante para fazer presença nos momentos alegres mas solitários enquanto escrevia... Um enorme peixe dourado a lhe observar com dois grandes olhos. Boca e guelras em constantes movimentos, mas pareciam mais súplicas do que qualquer outro gesto de vida.

Sentiu-se tão preso e sufocado quanto aquele peixe, aquela presença agora o incomodava, o motor do filtro e as bolhas de agua causavam um barulho ensurdecedor. Havia ali dentro daqueles 100 litros um pedido constante e silencioso de socorro que o ligava quase de forma magnética, escrava aquela visão. A partir dali por trás do vidro num reflexo sem muita exatidão via-se preso outra vez solitário de mãos atadas sem poder nadar...

Traje social quase uniforme para toda e qualquer situação, rosto pálido sempre cansado, assustado. Camisas largas no corpo, cores claras inexpressivas, as calças curtas sobrando nas canelas cumpridas. 
Passos e vida calma até o fim, no caixão pela primeira vez um rosto terno e não mais apático, nunca mais...
















Santana não se abalava com o sorriso dos outros em face dos seus poucos risos, pois sabia que a felicidade está inserida também nas bocas sérias, nos lábios rachados e sobre tudo, abaixo e entre o seu enorme bigode.
Sabia Santana que o ato de usar seu vestido era incutir o seu corpo todo de felicidade. E suas lembranças de General estavam imbuídas de felicidade.

Ah... A Felicidade... Santana a via refletida em tudo, inerente inclusive aos momentos tristes, eram todos repletos de uma felicidade que apenas Santana acreditava de forma inabálavel...

Ygor MF
...Afinal, diziam que os Ultra-Românticos tinham desistido de envelhecer ricos de cultura, por isso eram rápidos, marcantes e efêmeros aos 27 ou pouco antes dos 20. Mas e se a evolução tivesse lhes dado pés intactos de tiros acidentais, peitos inflados sugadores e purificadores de um ar de vida, plena, i-mor-tal?...

Um novo email... era o que assinalava a luzinha piscando na tela do monitor, de pronto Edgar detectara o remetente, era mais um trabalho free lancer.
Torcia para que aquela nova encomenda coincidisse com algum texto já produzido e arquivado no HD. Perguntava-se se algum editor teria culhões para apostar em um de seus inéditos contos de terror...

Ygor MF
















Quando o copo que trazia a palavra “tchau” desenhada no corpo se espatifou no chão, o outro copo, que carregava os dizeres “oi”, viu-se sozinho, sem mais poder dizer oi ao amigo. Ficou então aquele cumprimento solto, vazio, sem resposta, apenas um eco se perdendo entre os outros copos e cristais do armário que mudos, sem desenhos ou palavras no corpo não respondiam.

                Com a fatalidade sabia que não poderia mais dizer-lhe oi, entristeceu-se, pois nem tchau pode dizer. Agora mesmo que o amigo não ouvisse ou os cristais ligassem, só lhe coube dizer Adeus... Que não estava escrito em nenhum outro utensílio da cozinha.