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ADMIRÁVEL MUNDO NOVO? SIM!
Frank e o Robô se passa num futuro próximo onde em nossa realidade cotidiana convivemos ao lado de robôs com um elevado poder de interação com humanos. O ator Frank Langella é Frank, um velho genioso e solitário cujos filhos estão distantes e pensando em interná-lo, já que, o pai devido a idade encontra dificuldade em viver sozinho. Como última tentativa antes da internação Hunter seu filho lhe presenteia com um robô para auxilia-lo nas mais diversas tarefas e assim cuidar de sua saúde.
Observamos o mal estar do personagem com aquela geringonça a lhe perseguir, juntando ao fato da biblioteca que ele frequenta assiduamente estar passando por um processo de modernização. Lá também um robô vai substituir Jennifer (Susan Sarandon) no atendimento aos clientes. Tudo isso parece a introdução de um discurso puritano e ingênuo, neste ponto o filme de Jake Schreier parece caminhar para o lugar comum, clichês condenando a tecnologia que atropela as coisas simples da vida etc, etc. No entanto, esse contexto; “confrontos” de novo e velho, tecnológico e tradicional que o longa vai mostrar é apenas um pretexto para a história que realmente interessa; a improvável amizade entre Frank e o Robô.
É nesse momento que a “revira-volta” acontece. Pois aqui há outra proposta de discussão: Quão aptos, quão dispostos estão os homens para conviver e se doar um pelos outros? Dessa forma o longa volta a despertar interesse pois a crítica (se é que há uma) não é direcionada às máquinas ou à tecnologia que distancia as pessoas e sim para as próprias pessoas que se deixam afastar por “n” motivos.

Em seu filme de estréia como diretor, Jake Schreier mostra-se bastante a vontade a frente de estrelas como Susan Sarandon e Liv Tyler, que aqui não passam de coadjuvantes. O diretor mantém cada um no seu respectivo lugar sem alongar determinado papel somente pelo fato de um grande nome estar por trás dele. O grande nome no longa é o de Frank Lagella, que neste projeto bem menor volta a ter grande atuação aja vista seu ótimo trabalho em Frost/Nixon (2008). Frank percorre com naturalidade as contradições de seu personagem glutão, ignorante e esperto, o popular “come quieto” que até então não se interessava por mais nada ao seu redor.
Por fim, atuações, direção, temas e discussões já citadas no parágrafo acima são tratadas sem grandes enfeites ou disfarces. Longe também dos clichês que outrora se temia. Boa dose de humor e drama numa mesma receita que aliás tirando robôs quase humanos, é a mesma receita de cada um dos nossos dias…
Lançado em 2012, “Frank e o Robô” foi premiado com o troféu Alfred P. Sloan no Sundance Filme Festival 2012.
Originalmente publicado no O Cinemista
Miles Raymond (Paul Giamatti) desperta de forma intranquila de seu sono. Alguém liga em seu telefone. Ele está atrasado para aquele compromisso. Faz rapidamente a mala, passa em uma loja de conveniência e compra o jornal do dia. Toma um café expresso e pede um croissant de espinafre. Neste inicio de filme podemos perceber que Miles é um personagem no mínimo excêntrico e isso se confirmará ao longo da história mas é na riqueza, ou melhor, na sutileza de cada detalhe que Sideways, filme do diretor Alexander Payne, se mostrará interessante.

Já em seu carro, Miles vai à casa de seu amigo Jack (Thomas Haden Church), os dois farão uma viagem de uma semana pelas vinícolas do Vale de Santa Inez, na California. Será a viagem de despedida de solteiro de Jack, que Miles, um aficionado por vinhos e escritor frustrado, planejou. Porém as reais expectativas de Jack vão muito além de vinhos, golf e papo cabeça com o amigo. Essa diferença de valores ou planos fará com que descobertas, conflitos, dramas e alguns momentos de graça perambulem entre os dois. Classificado como Comédia-dramatica, talvez Sideways esteja mais para o drama do que para a comédia, porém com mais uma rica interpretação de Giamatti o filme mostra-se muito maior do que qualquer denominação rasteira pode ofertar.


Não seria exagero ou engano comparar e até mesmo confundir Miles Raymond com um personagem de Wood Allen, intelectual, escritor em crise, depressivo, problemático, tímido e atrapalhado. Miles está preso a um passado recente, com dificuldades para aceitar o divorcio de dois anos atrás. A base de remédios e terapias ineficazes segue buscando e ao mesmo tempo evitando encontrar uma nova pessoa, na verdade incapaz de enxerga-la ainda que esteja bem a sua frente.

A relação dos amigos Miles e Jack também é bastante interessante, pois ainda que amigos de longa data os dois não possuem nada em comum, são exatas contraposições. Enquanto Jack um ator de qualidade duvidosa é sempre reconhecido por fãs etc. O trabalho de Miles jamais é levado a sério. Editoras o recusam mesmo reconhecendo sua qualidade, porém como é dito em certo momento: É um daqueles bons livros que não encontra quem o publique. Enquanto Miles é um intelectual, profundo conhecedor e apreciador de vinhos e momentos introspectivos, Jack é superficial em seus conhecimentos e princípios, um aventureiro, simpático mas fútil.

O roteiro escrito e adaptado pelo próprio Alexander é inspirado no romance homônimo de Rex Pickett e a direção é de Alexander Payne de “Os Descendentes” e “Confissões de Schmidt” . Mais o destaque técnico de Sideways fica com a fotografia quase a todo instante pode se perceber na composição das cenas a luz e os planos muito bem construídos, como se de fato estivesse sendo construído um retrato. Um tom “amarelado” e belíssimas locações dão a película maior dramaticidade.


Com orçamento de 18 milhões, Sideways foi indicado a cinco Ocars tendo vencido o de melhor roteiro adaptado em 2005.

Originalmente publicado no O Cinemista


Houve um tempo que desenhos eram somente para crianças, histórias ingênuas, personagens caricatos e músicas… Muitas músicas entre uma cena e outra. Mais tarde os produtores perceberam que ao fazer uma animação para toda a família, diminuindo cenas intermináveis de canções e com personagens mais complexos e divertidos, o sucesso seriam bem maior arrastando para os cinemas não só as criancinhas, mas os pais delas, irmãos mais velhos e até mesmo cinéfilos de carterinha que aguardam ansiosos tanto pelo novo filme de Almodovar quanto pela próximo lançamento da Pixar.

Assim, neste cenário o longa de animação “A Pequena Loja de Suicídios” mistura todas essas tendências sem abrir mão de longas canções caminhando no viés de tudo para ser um filme familiar mesmo tratando de um tema tão difícil.

Dirigido pelo francês Patrice Leconte numa co-produção de Bélgica, Canadá e França, o longa “A Pequena Loja de Suicídios” conta a história de uma cidade onde todos os moradores vivem como moribundos, tristes, sempre pensando na morte e principalmente no suicídio tendo esse como a única solução para suas vidas. Entre prédios, casas, ruas e comércios, uma pequena loja é a principal atração para esses infelizes. Trata-se de uma pequena loja especializada em artigos para o suicídio, ali todo tipo de produto para essa finalidade é encontrado. Cordas, armas, facas, venenos e muitos outros produtos. Administrada pelos Tuvache, prestam um serviço especializado e profissional com o lema: Morte ou reebolso. Mishima, o patriarca, é o principal responsável pela loja, ajudado pela mulher Lucrèce e os dois filhos mais novos – também obcecados pela morte – Marilyn e Vicent.


Tudo parece tranquilo, sob controle. Os clientes jamais voltam para reclamar dos serviços prestados pelos Tuvache e, como um total paradoxo à rotina da família, a vida segue. Lucrèce está grávida e dá a luz ao pequeno e sorridente Alain. É quando toda a confusão tem início. Alain sorri, canta, brinca, elogia e agrada seus familiares, para o espanto e desespero de seus pais, totalmente avessos a esse comportamento. Inconformado com o meio em que vive o garoto junto de amigos traça um grandioso plano para mudar toda a rotina de sua família e de todos daquela triste cidade.

A Pequena Loja de Suicídios trata de um tema bastante difícil e não o esconde em momento algum, no entanto, a habilidade de seus criadores o torna um longa divertido, agradável e porque não dizer inspirador. Os traços dos personagens e cenários são pesados e belíssimos, assim como as cores e todo o clima que cerca cada cena. O roteiro conta com diálogos inteligentíssimos e engraçados assim como as belas canções que compõe o longa. Sim, essa parece ser a principal característica da animação. Aqui as canções não são aquele momento em que queremos pular para a próxima cena, ao contrário, é o respiro e o que desperta, renova a atenção para a história e parece quase impossível não entrar no embalo, que mesmo em francês possuí um ritmo contagiante.

Assim num constante paradoxo o pequeno Alain segue sua missão de mudar para melhor a vida de seus parentes, mostrando-lhes o lado bom da vida, sendo que isso pode também representar a falência dos negócios da família. Ainda neste sentido, o diretor acerta em cheio na dose de criatividade, diversão e inteligência com que dirige a história. De forma até despretensiosa, ele detecta um problema crônico dos grandes centros urbanos e da mesma forma aponta para uma solução, cantando… C’est la vie.


Originalmente publicado no O Cinemista

Com roteiro e direção de Hany Abu-Assad, “Paradise Now” conta a história dos palestinos Khaled (Ali SUliman) e Said (Kais Nashef), amigos desde a infância e agora recrutados para uma missão em Tel Aviv, depois disso, segundo sua crença, irão diretamente para o paraíso.

Khaled e Said trabalham em uma oficina mecânica em meio a carros velhos e a pobreza da Faixa de Gaza. A ocupação israelense como se construísse um grande labirinto, determina os caminhos por onde as pessoas devem andar, fechando ruas e estradas. Nos bares se discute o que fazer com os “colaboradores”, traidores e informantes do inimigo. Enquanto em locadoras e lojas são alugadas ou vendidas fitas com execuções desses colaboradores ou discursos de mártires.

Contudo, até aqui a vida dos amigos segue “normal”, até o momento em que partem para o ataque suicida em Tel Aviv, sem hesitar em nenhum momento. Porém algo sai errado na missão, Khaled e Said se separam e a missão é temporariamente abortada.

É aqui que a trama de “Paradise Now” toma um rumo mais interessante, pois após esse primeiro fracasso, os amigos passam a discordar entre si e questionar os motivos de sua missão e se aquela é a única forma de resolver o confronto e chegar ao paraíso.

De uma forma natural o longa nos faz percorrer os diferentes caminhos que Khaled e Said seguirão, mostrando mais do que o lado político, o lado humano das duas partes sem tomar partido mas lançando interessantes indagações sobre a questão. A direção e roteiro seguem uma linha quase documental, sem interferir com trilha sonora, diálogos ou cenas mais oportunistas no sentido de provocar uma ou outra emoção.


Em sentido parecido as atuações e personagens se alternam diante de suas convicções e revelam de forma superficial mas bem definida, suas histórias, sonhos, dramas, amores e conflitos. Os atores Ali Suliman e Kais Nashef reafirmam de forma muito sutil e plausível, essas pequenas erupções de seus personagens, num interessante limiar entre explanar e sugerir pensamentos e intenções. Rodado em 2005, o longa foi indicado ao Oscar de Melhor filme estrangeiro e concorreu ao Urso de Ouro no Festival de Berlim. O tema é ainda atual, e nesses dias de 2014 os conflitos voltaram a se intensificar. De certa forma fazendo uma alusão ao clássico “Apocalypse Now” (1979) de Francis Ford Coppola, “Paradise Now” soa melhor não como uma afirmação ou anúncio, mas uma pergunta: Paradise Now?

Originalmente publicado no O Cinemista


Sob a Areia é o primeiro trabalho em que o diretor francês François Ozon e a atriz britânica Charlotte Rampling realizam juntos, mais tarde em 2003 a dupla voltaria a trabalhar em Swimming Pool – À Beira da Piscina. Pode-se dizer que os dois longas são bastante parecidos em sua abordagem introspectiva à cerca dos sentimentos de uma mulher madura. Além de diretor, François é também roteirista dos dois filmes e neles transita com maestria entre o suspense, o drama e a hipótese do surreal.

Em Sob a Areia Charlotte Rampling é Marie Drillon, uma esposa dedicada ao casamento e empolgada com as férias que irá passar com o marido em uma praia ao sul da França. Jean(Bruno Cremer) à seu modo, taciturno e calado, também parece empolgado. No entanto, enquanto Marie adormece sob o sol Jean vai dar um mergulho e desaparece. Assustada e desnorteada com o desaparecimento do marido Marie sai à sua procura sem saber se ele se afogou, se simplesmente ainda não voltou do “passeio” ou se de fato foi embora. 


Passado tempos do ocorrido, Marie permanece aflita em busca de respostas questionando o seu casamento e as motivações de seu marido. Contesta as evidências apresentadas pela policia e insiste em viver como se nada tivesse acontecido. Visões e conversas com Jean continuam a fazer parte de seu dia a dia, inclusive no conviver com amigos e Vincent, um novo amante, Marie imprime a presença de Jean em todas as suas citações e contextos.

Para o diretor Sob a Areia é um filme sobre o amor: “O filme fala de amor, perda e obsessão. Marie na verdade só se dá conta de que ama muito o marido depois de perdê-lo…” Contudo, o diretor não deixa que o longa percorra um caminho único de interpretação, ministrando o suspense e o surreal em paralelos bem próximos faz com que a história seja intrigante até o último instante.


Entre todos os motores que dão relevância a cada minuto da “fita” talvez o mais poderoso seja a atuação de Rammpling, que buscando a postura de quem mente pra sí mesmo consegue nos confundir também, sobre aquilo que é verdade e principalmente sobre o sentimento de despendemos com essa criatura; admiração e pena…

Originalmente publicado no O Cinemista



Polissia mostra o cotidiano de um departamento de policia especializado em crimes contra crianças, estupros, abusos, pedofilia, abandono e outros. Um drama documental e corajoso, escrito e dirigido por Maïwenn Le Besco que venceu o prêmio do Juri do Festival de Cannes 2011.

Além de escrever e dirigir Maiwenn também atua. Faz o papel de Melissa, fotografa que passará uma temporada acompanhando o cotidiano dos policiais afim de montar um livro. No entanto, seu personagem pouco colabora ou importa para a história. Apesar desse elemento descabido, o grande trunfo de Polissia é justamente mesclar a dura realidade com a qual os policiais diariamente se confrontam com momentos mais amenos de pura rotina e ainda alguns raros momentos de descontração.

Pelos vários personagens e tramas paralelas, o longa flerta com o esquema de seriado. Por outro lado, é muito bem amarrado e resolvido sem deixar que a história vá para muito longe do tenso ambiente da delegacia. Há também uma tênue linha documental mas muito sutil que em momento algum se torna didática ou cansativa. Vale ressaltar a coragem de não se desviar do tema ou amenizá-lo de alguma forma, consequencia disso são alguns momentos e imagens bastante fortes. Aqui Maiwenn encontrou um ótimo parâmetro para contar uma história sem esquecer da denuncia e vice-versa.



Propositalmente escrito errado, “Polissia” simula a escrita de uma criança, que embora façam parte do universo do longa são tratadas como coadjuvantes. Não é nelas que a camera se demora. Com movimentos rápidos entre um personagem e outro, o que se quer mostrar na tela são as reações e os sentimentos despertados em cada situação e cada personagem. Por sua vez, falta aqui alguém que se classifique como personagem principal, que em Polissia é muito mais uma Coisa do que alguém, são sentimentos como o Amor e o Horror respectivamente presentes em lugares e situações até então impraticáveis.



Originalmente publicado no O Cinemista

O WESTERN EM SUA EXCELÊNCIA

Originalmente publicado no O Cinemista
Harmonica, modo como o personagem de Charles Bronson é chamado por estar sempre acompanhado de uma gaita, desce do trem na estação, lá três homens já o aguardam. Num determinado momento do lento diálogo entre o quarteto, Harmonica nota que três cavalos acompanham os homens e decreta: Dois cavalos a mais. Em seguida num movimento rápido dispara três tiros certeiros. Ele está em busca de vingança…

Jill McBain (Claudia Cardinale) chega da estação para encontrar seu novo marido com quem se casou meses atrás e só agora irão morar juntos. Mas ninguém a espera pois todos estão mortos. Frank (Henry Fonda) e sua “gangue” fizeram o trabalho sujo a pedido de Morton (Gabriele Ferzetti) um milionário interessados nas terras por onde uma futura linha de trem passará. A partir desse momento, Jill MacBain está em busca de vingança. Fugido da prisão o pistoleiro Cheyenne (Jason Robards) fica sabendo que homens usando casacos como o que ele e seu bando usam estão cometendo brutais assassinatos, numa suposta tentativa de incriminá-lo. Cheyenne está em busca de vingança…



Noutro momento os caminho de Jill, Harmonica e Cheyenne se cruzarão, ainda que exista uma forte tensão entres os três, Jill será protegida pelos dois homens enquanto é perseguida por Frank e seus comparsas. Como diz o diretor Sergio Leone, em Era Uma Vez no Oeste todos os personagens, exceto o de Claudia Cardinale, sabem que vão morrer. É um encontro lento e silencioso com a morte anunciada. E será o interesse desses personagens que moverá o longa. No entanto, outras histórias podem ser retiradas deste longa que fala de muitas outras coisas, como a transformação do Velho Oeste com a chegada da modernidade vinda através dos trens, a mudança de comportamento das pessoas com a velocidade nas comunicações e viagens além do dinheiro, que chegando aquelas terras fez mudar a figura do vilão. Não mais um fora da lei, barbado e armado, mas um homem bem vestido, rico e instruído. Os “românticos” assaltos a banco serão deixados de lado. Homens gananciosos e inescrupulosos passarão a fomentar a discórdia e o desajuste social sem portar qualquer tipo de arma. Este é papel de Morton vivido por Gabriele Ferzetti personagem que está por trás das ações do impiedoso Frank.

A idéia inicial de Sergio Leone, para a primeira cena do filme, era ter Clint Eastwood, Eli Wallach e Lee van Cleef – atores de “Três Homens e um Conflito” – no papel dos três pistoleiros que morrem logo nos primeiros minutos do filme. Impossibilitado de contar com os três, desistiu da idéia que mostraria, além de audácia por “queimar” três renomados atores em menos de 10 minutos de fita, o fim de um ciclo e o início de outro. Caberia então ao desconhecido Charles Bronson encabeçar essa nova jornada.” Era Uma Vez no Oeste” faz parte de outra trilogia composta de “Quando Explode a Vingança” (1972) e “Era uma Vez na América” (1984). Com Era uma vez no Oeste o diretor Sergio Leone levou ao patamar máximo o spaghetti western. Perfeccionista como poucos se deteve a cada detalhe de um filme de longos 165 minutos.

O ritmo do longa é extremamente lento, há longos espaços sem diálogo e quando acontecem são marcados pela morbidez que acompanha aos personagens no encalço da morte, assolados pelo calor do deserto mas ainda sim frios, quase despreocupados. Leone usa closes e outras tomadas e movimentos modernos para a época. Movimentos que, na verdade, iriam inspirar diretores como Tarantino e outros. É emblemática a cena em que o vilão Frank é “apresentado”, a câmera da a volta pelo personagem partindo de suas costas e foca bem próximos dos olhos azuis de Henry Fonda, mostrando um contraponto do carismático Fonda travestido como um vilão implacável.

O som e a trilha sonora tem importante papel em toda a construção da história. Na primeira cena, o girar de um moinho enferrujado, as gotas que caem no chapéu de um homem, que permanece imóvel, e o irritante “zunido” de uma mosca rondando outro rosto denotam a monotonia daquele lugar. Numa parceria vitoriosa com Ennio Morricone, em Era uma Vez no Oeste Ennio compôs um tema para cada personagem. A gaita do personagem de Charles Bronson, pacato e ameaçador. Claudia Cardinale é acompanhada por uma musica que evoca a esperança por um recomeço, o surgimento de uma cidade ou uma nova vida. Frank (Henry Fonda) caminha inclemente junto de uma composição acentuada pelo som malévolo de uma guitarra. Por fim Cheyenne (Jason Robards) oferece a dualidade do som de um banjo, displicente e sagaz. Neste mesmo ritmo, as atuações correspondem totalmente a cada nuance de seus personagens. O silêncio e as expressões de Charles Bronson, a doçura e a coragem no olhar de Claudia Cardinale contraposto a frieza dos movimentos e olhares de Henry Fonda. Mas é Jason Robards, no papel de Cheyenne, que rouba a cena com a dualidade do seu personagem. O ator transita natural e certeiro entre o bufão e o sisudo, o vilão e uma espécie de anti-herói.

Produzido em 1968, o dvd duplo de Era uma vez no Oeste, traz muito material extra, documentários, entrevista, galerias e biografias, tudo com legenda em português.

Crítica originalmente publicada no O Cinemista repuplicada aqui no Moviemento, vale a pena ver o filme e depois conferir se sua opinião bate com o texto daqui... Há quem prefira ver os filmes com o menor número de informações possíveis, outros já se armam com mais dados, enfim, uma ótima opção pra quem ainda não viu e uma oportuna chance de rever este grande filme, fica a dica...


PEDRO ALMODÓVAR E O CINEMA DO 
COTIDIANO IMPROVAVEL…

O quão surpreendente podem ser os filmes do espanhol Pedro Almodóvar? Se alguém já arriscou algum palpite provavelmente foi mais uma vez surpreendido a cada novo lançamento do espanhol. Engraçado que, contudo, os seus esquemas e a sua forma parecem ser sempre os mesmos. No entanto, os temas e principalmente a força com que os invade é que causa tal surpresa, para não dizer choque. Almodóvar faz uma visita aos ditos “tabus”, defrontando-os: homossexualidade, erotismo, estupro, pedofilia, mudança de sexo, etc.

Em “A Pele que Habito”alguns desses elementos estão presentes com a mesma força e clareza que desconcerta e marca. Todavia, não cabe aqui a questão sobre o que leva o diretor à esses temas. Corajoso, controverso ou oportunista, a principal qualidade de Pedro Almodovar é o apuro técnico crescente de seu trabalho, com dezenas de filmes e prêmios em sua carreira. Não resta duvida de que este é um grande contador de história. Como pode ser percebido em A Pele que Habito, os personagens de Almodóvar e suas histórias, por assim dizer, são sempre movidos por segredos, pelo drama desses serem descobertos ou pelo trauma de te-los que guardar. Excêntricos, estranhos, violentos e até maléficos, há sempre um desconcerto dentro dessas pessoas que reverbera ao seu redor das maneiras mais fortes e sofríveis.

É um segredo que move o personagem de Antonio Bandeiras em A Pele que Habito. Roberto é um renomado cirurgião plástico empenhado em “produzir” geneticamente uma pele humana que seja mais resistente, o que segundo ele poderia erradicar doenças como a malária e outros males de que sofre a humanidade. Para isso mantém numa espécie de cativeiro Vera, sua cobaia em quem faz teste de resistência a fogo e picadas de mosquitos, lhe prometendo a pele mais resistente do mundo. Quando está fora em outros compromissos ou em palestras divulgando seus avanços e tentando convencer a comunidade científica do benefício de usar tal tecnica, sua mãe é responsável pelos cuidados de Vera.



Certo dia Marilia sua mãe recebe a inusitada visita de Zeca, seu filho a muito tempo desaparecido. É tempo de carnaval e Zeca esta vestindo uma fantasia de leopardo, na verdade aquele é um disfarce e o carnaval a brecha para conseguir fugir da policia que o persegue após um assalto mal planejado. Após esse tenso reencontro, que termina com Marilia feita de refém, Zeca descobre Vera trancafiada em um quarto. Seu rosto o faz lembrar de alguém do passado, alguém com quem teve e ainda tem um forte sentimento. Tomado por esse sentimento invade o quarto de Vera e ainda mais intenso a estupra, neste momento Roberto aparece e mata seu meio irmão. Este será o primeiro momento de alguma ternura entre Roberto e Vera, deixando de lado os papéis de médico e paciente ou cientista e cobaia, após uma infeliz tentativa de sexo os dois apenas adormecem abraçados. Neste momento o filme se divide voltando a um passado remoto e trágico que explicará o papel e o caminho de cada um até aquele momento…



Através desse artifício no roteiro, Almodovar reconstruirá a história de cada um desses personagens que em verdade estão sempre tentando remontar peças importantes de suas vidas. Ainda seguindo características marcantes do diretor, atuações teatrais próximas de um exagero proposital e cores fortes, quase sempre saturadas, vão dando formas ao cinema do espanhol. Quando começou as filmagens de A Pele que Habito, Almodovar dizia que queria fazer um filme de terror sem gritos ou sangue e consegue atingir o ápice desse sentido através do caos do desconhecido e do improvável, que em seu trabalho é a principal matéria prima…


Olá!!! Continuando após uma pausa no Moviemento, hoje na verdade publico um texto de um tempo atrás mas que é sempre bem vindo, atual. Trata-se da crítica do "novo clássico" Fargo, de 1996, texto originalmente publicado no O Cinemista onde colaborei por um bom tempo. Mas em breve tem material inédito aqui no Movimento, inscreva-se para receber as notícias, acompanhe também nas redes sociais, deixe seu comentário! 

UMA COMÉDIA DE ERROS

Ao deparar-nos com as cenas finais de Fargo, sobre tudo com a sequência do triturador de madeira e toda a conclusão da história, é com grande espanto que lembramos do “aviso” no início do filme: “Baseado em fatos reais”. Não se sabe ao certo até que ponto tudo aquilo é real ou imaginação da dupla, ou ainda como sugere um dos irmão em entrevista: Uma compilação de fatos, recortes de acontecimentos em lugares e épocas diferentes costurados em uma só história.

Por outro lado, essa é uma das características mais marcantes da filmografia de Joel e Ethan Coen, o bizarro, o extraordinário e cruel, juntam-se com o banal e o cômico, numa mesma linha, ritmo e frequência, não destoando nem parecendo estranho aos olhos. “Fargo”, “Gosto de Sangue”, “Onde os Fracos Não Tem Vez”, “Queime Depois de Ler”, são todos exemplos dessas improváveis misturas que, nas mãos habilidosas dos Coen, vem dando ótimos resultados.

Produzido em 1996, “Fargo” é o que se pode chamar de um “novo clássico”. Com orçamento baixíssimo para os padrões de hollywood, o longa levou duas estatuetas de melhor roteiro e atriz para Frances McDormand. Além dos próprios irmãos, os atores William H. Macy e Steve Buscemi – que, até então, fazia importantes mas pequenos papéis como em Cães de Aluguel e Pulp Function – passaram a despertar maior interesse em toda a industria cinematográfica.

Jerry Lundegaard (William H. Macy) é gerente de uma revendedora de automóveis, passando por sérios problemas financeiros. Ele elabora um plano para dar a volta por cima. Trata-se do sequestro da própria mulher. Para isso, contrata Carl (Stevie Buscemi) e Peter (Gaear Grimsrud). O resgate será pago por seu sogro, um rico empresário que tem por Jerry um total desprezo. Tudo parece perfeito até que Jerry e seus dois comparsas mostram-se atrapalhados por completo, incapazes de dar cabo da “missão”. Uma sucessão de erros começa a frustrar os planos de Jerry, tornando a história cômica e trágica. É nesse cenário que aparece a chefe de policia Marge Gunderson (Frances Mcdormand). que está nos últimos meses de sua gravidez, mas intrépida e com uma visão aguçada para cada detalhe. Ela mergulha nas investigações de um homicídio triplo que a levará até o sequestro de Jean Lundegaard.

Toda essa história acontece na fria e distante Fargo, Dakota do Norte, sob uma nevasca constante em uma amplidão branca e isolada. O clima e o espaço tem, portanto, grande influência no ritmo do filme ao passo que, manchas de sangue contrapostas com a neve ou qualquer outro acontecimento estranho, vão ganhando um contraste gigantesco diante da vida pacata daquela pequena cidade. Escrito pelos irmãos, o roteiro de Fargo, assim como a maioria dos filmes da dupla, teve instruções rígidas para ser seguido à risca, um trabalho minimalista que foca desde movimentos, expressões, pausas ou hesitações, completo e detalhado. Por outro lado, nada em todo esse trabalho é gratuito ou meramente estético e alegórico. Tudo tem sim uma função na construção da história, de dar apoio ou mais ênfase ao que se conta, exemplo disso é a atenção dada ao dialeto, gírias e ao sotaque local presentes nos diálogos.

Assim Joel e Ethan Coen vão construindo sua história na mundo do cinema, unindo o grandioso com o pequeno, o inusitado com o corriqueiro, tendo ritmo europeu, cara de independente e a força e amplitude do cinema norte americano…

Mais um texto publicado originalmente no Cinecult
Drive de Nicolas Winding Refn

Dirigido pelo dinamarquês Nicolas Winding Refn e estrelado por Ryan GoslingDriver conta a história do piloto e mecânico que se define com a frase: “I Drive…”. Mecânico habilidoso, piloto voraz, o personagem de Ryan se divide entre trabalhos de dublê para o cinema e a vida na oficina. Além desses presta serviços escusos a assaltantes e demais interessados num exímio piloto e profundo conhecedor das ruas. Numa espécie de “pré-contrato”, fica ajustado que ele participará apenas da “logística” da coisas digamos assim, depois do serviço finalizado nenhum outro tipo de contato ou ligação será tolerada.


Essa é a vida deste “cavalheiro solitário”, do qual não sabemos nada, nem do passado e como ele chegou até ali e tão pouco de suas aspirações ou por qual motivo ele realiza aqueles trabalhos. Não há uma voz off que nos apresenta o personagem, muito menos nos diálogos durante o filme conseguimos encontrar alguma informação. Mas há em certo momento um ponto fraco assimilado, ou talvez uma baixa na guarda, que é quando este encontra com Irene (Carey Mulligan) e seu filho Benicio, vizinhos de seu apartamento.



Ainda bastante contido esboçando um sentimento através de sorrisos ligeiros e silenciosos. A partir desse encontro, de olhares demorados e expressivos, é que a vida desses tomará um outro rumo, ou ao menos sinalizará para tal. Pois quando tudo parece estar se encaixando, se rendendo, Irene recebe a notícia de que seu marido sairá da prisão. Contudo é preciso salientar que “Drive” não se prende a esse encontro e a esperança que esse possa representar na vida de cada personagem, mas trata da dualidade da vida deste protagonista, carismático e desconhecido, calmo e explosivo, compassivo e letal, diferenças separadas por um fio.


Drive na verdade é um desses filmes mais complexos de se definir, o que é na verdade sua grande qualidade – já que definições, esquemas, ou classificações podem ser pejorativas. Não é um drama, tão pouco um romance a seria triste defini-lo como um filme de ação, por isso pode-se dizer que o diretor dinamarquês fez um trabalho completo – não perfeito – que embora possa frustrar quem chegou até o longa por meio das cenas de perseguições do trailer, deve muito mais surpreender a quem tinha menores expectativas. Contudo há de se ter uma espera no minimo curiosa já que o longa passou à frente de Lars Von Trier e tomou o Cannes de Melancolia. Sem entrar em julgamentos após assistir os dois longas é de fato fácil saber o porque Driver levou o prêmio.





O grande mérito do diretor Nicolas Winding Refn foi conseguir beber de diferentes fontes de inspiração ou melhor influências, já que em seu trabalho se percebe muito mais apuro técnico e trabalho duro do que puramente inspirações, e entregar um produto novo, a tal da antropofagia talvez.
Tudo em Drive, roteiro, direção e fotografia se move com perfeita unidade e a trilha sonora pontua um ambiente underground, melancólico. Para fechar o bom trabalho de Albert Brooks muito bem no papel de “vilão” e sobre tudo Ryan Gosling que caiu de vez no gosto do público e principalmente dos diretores, deixando para trás papéis coadjuvantes e chegando ao primeiro escalão silenciosamente como se sempre estivesse entre principais nomes de Hollywood.

CINEMA ARGENTINO SE FAZENDO ENTENDER

Crítica originalmente publicada no O Cinemista na coluna Cinecult - Um Conto Chinês
Um jovem casal chinês em um barco. Ele se prepara para pedi-la em casamento. Neste momento, os diálogos em mandarim não são traduzidos. Entendemos a cena de uma forma superficial, mas não incompleta, estabelecendo conexões com certo significado universal, jovens namorados-cena romântica-aliança-pedido de casamento. Até que uma vaca cai do céu e atinge a moça, destruindo o sonho do rapaz e obstruindo qualquer construção de sentido.

Essa é a cena inicial de Um Conto Chinês, longa argentino dirigido por Sebastián Borensztein e estrelado por Ricardo Darín no papel de Roberto, um solitário e rabugento veterano da guerra das malvinas. Roberto tem uma vida pacata, dono de uma pequena loja de ferramentas, se conecta com o mundo através de sua coleção de noticias estranhas recortadas de jornais, até que certo dia Roberto e Jun se encontram. Jun, o chinês da primeira cena, aparece perdido naquele país, com rumo incerto a procura de um tio do qual não sabe muito, sem saber uma palavra sequer do idioma e costumes daquela terra. Num momento raro de bondade e disposição, Roberto decide ajudar o jovem chinês, sem saber que terá toda sua rotina mudada e, a partir dali, outra vida.

O longa é mais um exemplo de como o cinema argentino tem constantemente alcançado um patamar único no cenário cinematográfico, realizando produções que tem sido sucesso de crítica e público, trabalhos acessíveis mas não superficiais, artísticos mas não herméticos, como parte do cinema europeu.


“Um cuento chino” demonstra uma das habilidades do cinema argentino que o faz tão cativante, mostrar a comédia que há dentro de cada drama ou o contrário, o drama contido em cada comedia. Por incrível que pareça, vacas caindo do céu, o encontro e a convivência inusitada de um argentino e um chinês foram baseados em fatos reais.

Entre tantos pontos positivos, talvez o mais interessante de todos seja a límpida comunicação estabelecida entre filme e público, que se constrói através do hiato de comunicação entre os personagens. Diante disso, público e personagens estarão unidos num mesmo gesto, num mesmo esforço de entender e se fazer entender.

Direto do Cinecult , Cinemista, crítica de A Bela da Tarde, com Catherine Deneuve e direção de Luis Bunuel.


Um casal apaixonado, uma esposa linda e recatada, um marido presente e atencioso, essa é a impressão que temos de Séverine e Pierre Serizy durante os primeiros segundos de “A Bela da tarde”, enquanto os dois passeiam numa carruagem aparentemente de forma romântica. Minutos depois o marido ordena que a carruagem seja imediatamente parada, arrasta a mulher para dentro da mata e pede ao cocheiros que à amarrem numa árvore e comecem a chicote-la para depois abusar sexualmente da esposa. Mas calma, tal brutalidade não passou de um sonho, de um devaneio de Séverine (Catherine Deneuve), uma moça tímida, de uma sensualidade contida mas que mesmo assim desperta o desejo dos homens e a curiosidade das mulheres.


Em seus pensamentos mais recônditos Séverine alimenta estranhos desejos sexuais e um profundo descontentamento com os prazeres que o marido pode lhe proporcionar. Quando tem conhecimento da existência de um discreto bordel de Madame Anaïs, Séverine dá inicio a busca da realização de suas obsessões. O endereço Cité Jean de Saumur, nº 11, ressoa em sua mente, ainda que temerosa Séverine mergulhará enfim num mundo que lhe é totalmente avesso as suas convicções sociais, deparando-se com personagens e situações bizarras que no entanto, não a assustarão mais.

Essa é a história de “A Bela da Tarde”, que segue com um clima de surrealismo e suspense, talvez essa a maior qualidade do trabalho do diretor Luis Buñuel, imprimir tal clima surrealista de forma discreta, nas pequenas coisas, nos pequenos gestos e olhares dos personagens. A sensação é a de que em todas as cenas, algo vai eclodir na tela, uma situação ou um desvario virá a tona. Se as coisas realmente acontecem ou são apenas desejos íntimos de Séverine ou mesmo de Pierre seu marido, tudo permanece num leque de opções que o roteiro apresenta. Assim, mais do que um drama surreal que se “explica” e se utiliza de tal característica “A Bela da tarde” soa melhor como um intrigante drama psicológico, vivido por um personagem atormentado por estranhos desejos secretos.


A atuação de Catherine Deneuve corresponde à complexidade de sua personagem, a atriz compila gestos e olhares dúbios que a todo instante confundem ou escondem sua verdadeira personalidade. O filme ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza e teve uma “continuação” filmada em 2006 “Sempre Bela” onde um homem 38 anos depois reencontra a esposa de um amigo, que se prostituía. Antes de filmar A Bela da Tarde, a atriz Catherine Deneuve interpretou outra personagem com sérios distúrbios sexuais em “Repulsa ao Sexo” (1965) de Roman Polanski. No longa, Catherine é Carol Ledoux, uma bela mulher que é sexualmente reprimida e vive com sua irmã mais velha. Ela constantemente resiste aos assédios do seu namorado e também desaprova o amante da irmã. Quando esta viaja com ele em férias, Carol fica sozinha no apartamento e se afunda em uma profunda depressão, passando a ter várias alucinações. Reza a lenda que a atriz teria “ganho” seu papel em “A Bela da Tarde” após o diretor ver sua atuação em “Repulsa ao Sexo”.

Divulgando o material publicado no O Cinemista na coluna Cinecult, dessa vez o texto é sobre Swimming Pool, filmaço do diretor François Ozon

A BEIRA DA PISCINA…
Sarah Morton (Charlotte Rampling) é uma escritora de romances policiais, uma mulher recatada e desconfiada. O sucesso de público e crítica conquistados por seus romances, já não lhe satisfaz. Inquieta com a situação Sara parte para a casa de seu editor John Bosload, em uma pequena cidade na França. Lá ela terá a tranqüilidade necessária para mergulhar em seu trabalho a fim de produzir algo inteiramente novo, capaz de surpreender a crítica e o público.
No entanto, em meio aquele cenário bucólico e paradisíaco, Sara terá a repentina aparição de Julie (Ludivine Sagnier), filha de John, para dividir a casa com ela. Julie é uma garota linda, sensual, cheia de vida e apreciadora de exageros de todos os tipos.
Desse encontro inesperado e antagônico, nascerá uma estranha e forte relação de atração e repulsa. Fatos que influenciarão de forma inimaginável no romance que vai paralelamente sendo escrito por Sara.


“Swimming Pool” tem roteiro e direção do sempre surpreendente diretor François Ozon, diretor do irreverente “8 Mulheres”(2002) e do pertubardor “Sob a Areia”(2000). Os filmes de François possuem sempre uma dualidade que confronta certo humor com um suspense mordaz, afinando ainda mais os laços da realidade com a insanidade e a psique de seus personagens.
Outro ponto forte de Swimming é a atuação de Charlotte Rampling, que transmite no olhar e nos pequenos gestos as inseguranças e inquietudes de seu personagem, assim como seu papel em “Sob a areia” dessa vez Charlotte executa uma atuação intensamente introspectiva. Ao contrário desse caminho está Ludivine Sagnier no papel de Julie, que explora a sensualidade e o todo o lado explicito de sua personagem, mas fazendo com que o real caráter de Julie seja apenas uma incerta e perigosa suposição para quem se aproxima dela. Assim, François percorre mais uma vez o universo feminino por um viés psicológico, não deixando de demonstrar característica realistas e míticas provenientes desse tema.

Continuando a divulgar e resgatar os textos do O Cinemista, coluna cinecult onde escrevi até o ano passado. Dessa vez crítica do longa de animação Valsa com Bashir.

Durante as primeiras cenas de Valsa com Bashir, animação israelense que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, é impossível, ou ao menos de grande dificuldade, não permanecer impressionado e perplexo com as deslumbrantes imagens do longa. Uma mistura de desenhos 2D com traços grossos e tremidos, junto a movimentos em 3D, que chegam a assustar tamanho o realismo alcançado.


Passados essas primeira impressões, que ao longo do filme voltaram a deslumbrar os olhos do público, Valsa com Bashir mostra a tentativa angustiada de Ari Folman (Diretor e roteirista do filme, também soldado das forças de Israel) de reconstruir sua memória sobre o tempo da guerra civil Libanesa e do massacre de Sabra e Shatila. Tal viagem de reconstrução terá inicio quando Folman ouve o relato de um amigo sobre os pesadelos que o perseguem desde o tempo do exército, intrigado com a sua falta de lembranças daqueles tempos, o diretor, roteirista e personagem do filme dá inicio a busca por suas memórias perdidas.

Nesse caminho o longa ganha um “ar” documental que intercala os dramas das pessoas envolvidas na guerra chegando a momentos de pura vertigem, onde realidade e alucinações mal podem ser distinguidas. Como não poderia ser diferente de uma história sobre guerra e mais, sobre os conflitos do oriente médio, Valsa com Bashir toca sim em questões políticas, mostra os absurdo cometidos e deixa claro sua critica, no entanto, sem deixar-se levar por uma postura panfletária, sendo mais pacifista do que partidário.


UMA OBRA PRIMA FEITA DE ELEMENTOS AUTOBIOGRÁFICOS E DE SONHOS


Em Fellini 8 ½ o cultuadissimo diretor italiano Frederico Fellini admite que sua obra possui elementos auto-biográficos, porém insiste que tais elementos estão no filme de forma superficial. No entanto toda a obra de Fellini é marcada por um rigor autoral.

No longa de 1963 juntamente com um material biográfico, Fellini inseri diversos devaneios, sonhos, imagens e situações surreais criadas pelo diretor. A riqueza dos mundos criados por Fellini perpassam os sonhos, as loucuras e também o mundo circense, são elementos recorrentes em toda sua filmografia marcada pelo inusitado e pela perturbação de questões supra-humanas.


Fellini 8 ½ conta a história do diretor Guido Anselmi (Marcello Mastroianni) que vive um momento delicado em sua carreira, sem saber como dirigir seu próximo filme, vivendo uma crise de inspiração, pressionado pelos produtores e ainda num caldeirão de incertezas entre a esposa e sua amante. Em meio a isso Guido tira férias e viaja para uma estância hidrográfica onde irá buscar a paz necessária para realizar seu próximo trabalho. Mas não é o que acontece, amante, esposa, cunhada, produtores e diversos fantasmas e lembranças do passado insistem em perseguir Guido tornando seu trabalho infértil e doloroso.

Esse é o tema do longa, vencedor de dois Oscars de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Figurino, recebendo ainda outras indicações; Melhor Diretor; Melhor Roteiro Original e Melhor Direção de Arte. Fellini retira o-que-ser-contado a partir do nada, insiste em metalinguagem, um filme sobre a criação de um outro filme, como o próprio diretor confessa, esse trabalho remete a fase pela qual ele passava, um bloqueio criativo que paralisou momentaneamente seu trabalho.


Nos extra do DVD lançado pela versátil, entre entrevistas, making of e outros materiais extras, há um texto onde o diretor descreve o drama vivido, quando era cobrado e aguardado ansiosamente por todos envolvidos no projeto sem que estes soubessem que suas carreiras corriam perigo. Frederico Fellini é um ícone do cinema mundial, toda sua obra é obrigatória para cinéfilos e aspirantes a diretor, roteiristas e enfim a quem quiser conhecer um trabalho árduo e repleto de arte.

Critica originalmente publicada no O Cinemista Cinecult, Felinni8/1 

Escrito e dirigido por Giuseppe Tornatore. Baaria é uma das maiores produções do cinema italiano (no quesito financeiro), dirigido com a segurança de quem conhece o ofício. Tecnicamente perfeito… E mesmo assim, Baaria, filme do aclamado diretor de “Cinema Paradiso”, não convence. Fica preso em seus próprios maniqueísmos. O preciosismo de Tornatore tornam-se, neste longa, não mais que manias, repetições e clichês usados de forma oportunista.


A grandiosa história de Baaria reconta décadas importantes da Itália, período da guerra e do pós guerra, assim como as transições políticas e a luta do partido comunista. Assim, participaremos da trajetória de Peppino Torrenuova e toda a sua saga, desde a sua infância ao conhecimento do amor, a construção da família e a carreira politica. Baaria parece englobar todas as outras histórias contadas pelo diretor em seus outros filmes, a paixão pelo cinema, personagens folclóricos (para não dizer lunáticos), a politica e o amor sempre influenciando e impulsionando as decisões dos personagens, as lembranças nostálgicas e um certo teor autobiográfico, quase explícitos.

Contudo, elementos que são responsáveis por filmes inesquecíveis, como “Cinema Paradiso”, “Malena”, “Estamos todos Bem”, e “O Homem das Estrelas”, juntos e misturados em Baaria são dissolvidos nos 150 minutos do longa o que por diversas vezes o torna cansativo.

Qualquer tentativa de definir Baaria parece ser um paradoxo, pois se o fato de Giussepe Tornatore não conseguir reinventar-se ou atingir outros patamares indica certo desapontamento, por outro lado, a poesia continua presente no trabalho do cineasta, poesia acentuada com a parceria de Enio Moricone na trilha sonora promovendo ainda grandes momentos para o cinema. 

Publicação Original no Cinecult do O Cinemista