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O WESTERN EM SUA EXCELÊNCIA

Originalmente publicado no O Cinemista
Harmonica, modo como o personagem de Charles Bronson é chamado por estar sempre acompanhado de uma gaita, desce do trem na estação, lá três homens já o aguardam. Num determinado momento do lento diálogo entre o quarteto, Harmonica nota que três cavalos acompanham os homens e decreta: Dois cavalos a mais. Em seguida num movimento rápido dispara três tiros certeiros. Ele está em busca de vingança…

Jill McBain (Claudia Cardinale) chega da estação para encontrar seu novo marido com quem se casou meses atrás e só agora irão morar juntos. Mas ninguém a espera pois todos estão mortos. Frank (Henry Fonda) e sua “gangue” fizeram o trabalho sujo a pedido de Morton (Gabriele Ferzetti) um milionário interessados nas terras por onde uma futura linha de trem passará. A partir desse momento, Jill MacBain está em busca de vingança. Fugido da prisão o pistoleiro Cheyenne (Jason Robards) fica sabendo que homens usando casacos como o que ele e seu bando usam estão cometendo brutais assassinatos, numa suposta tentativa de incriminá-lo. Cheyenne está em busca de vingança…



Noutro momento os caminho de Jill, Harmonica e Cheyenne se cruzarão, ainda que exista uma forte tensão entres os três, Jill será protegida pelos dois homens enquanto é perseguida por Frank e seus comparsas. Como diz o diretor Sergio Leone, em Era Uma Vez no Oeste todos os personagens, exceto o de Claudia Cardinale, sabem que vão morrer. É um encontro lento e silencioso com a morte anunciada. E será o interesse desses personagens que moverá o longa. No entanto, outras histórias podem ser retiradas deste longa que fala de muitas outras coisas, como a transformação do Velho Oeste com a chegada da modernidade vinda através dos trens, a mudança de comportamento das pessoas com a velocidade nas comunicações e viagens além do dinheiro, que chegando aquelas terras fez mudar a figura do vilão. Não mais um fora da lei, barbado e armado, mas um homem bem vestido, rico e instruído. Os “românticos” assaltos a banco serão deixados de lado. Homens gananciosos e inescrupulosos passarão a fomentar a discórdia e o desajuste social sem portar qualquer tipo de arma. Este é papel de Morton vivido por Gabriele Ferzetti personagem que está por trás das ações do impiedoso Frank.

A idéia inicial de Sergio Leone, para a primeira cena do filme, era ter Clint Eastwood, Eli Wallach e Lee van Cleef – atores de “Três Homens e um Conflito” – no papel dos três pistoleiros que morrem logo nos primeiros minutos do filme. Impossibilitado de contar com os três, desistiu da idéia que mostraria, além de audácia por “queimar” três renomados atores em menos de 10 minutos de fita, o fim de um ciclo e o início de outro. Caberia então ao desconhecido Charles Bronson encabeçar essa nova jornada.” Era Uma Vez no Oeste” faz parte de outra trilogia composta de “Quando Explode a Vingança” (1972) e “Era uma Vez na América” (1984). Com Era uma vez no Oeste o diretor Sergio Leone levou ao patamar máximo o spaghetti western. Perfeccionista como poucos se deteve a cada detalhe de um filme de longos 165 minutos.

O ritmo do longa é extremamente lento, há longos espaços sem diálogo e quando acontecem são marcados pela morbidez que acompanha aos personagens no encalço da morte, assolados pelo calor do deserto mas ainda sim frios, quase despreocupados. Leone usa closes e outras tomadas e movimentos modernos para a época. Movimentos que, na verdade, iriam inspirar diretores como Tarantino e outros. É emblemática a cena em que o vilão Frank é “apresentado”, a câmera da a volta pelo personagem partindo de suas costas e foca bem próximos dos olhos azuis de Henry Fonda, mostrando um contraponto do carismático Fonda travestido como um vilão implacável.

O som e a trilha sonora tem importante papel em toda a construção da história. Na primeira cena, o girar de um moinho enferrujado, as gotas que caem no chapéu de um homem, que permanece imóvel, e o irritante “zunido” de uma mosca rondando outro rosto denotam a monotonia daquele lugar. Numa parceria vitoriosa com Ennio Morricone, em Era uma Vez no Oeste Ennio compôs um tema para cada personagem. A gaita do personagem de Charles Bronson, pacato e ameaçador. Claudia Cardinale é acompanhada por uma musica que evoca a esperança por um recomeço, o surgimento de uma cidade ou uma nova vida. Frank (Henry Fonda) caminha inclemente junto de uma composição acentuada pelo som malévolo de uma guitarra. Por fim Cheyenne (Jason Robards) oferece a dualidade do som de um banjo, displicente e sagaz. Neste mesmo ritmo, as atuações correspondem totalmente a cada nuance de seus personagens. O silêncio e as expressões de Charles Bronson, a doçura e a coragem no olhar de Claudia Cardinale contraposto a frieza dos movimentos e olhares de Henry Fonda. Mas é Jason Robards, no papel de Cheyenne, que rouba a cena com a dualidade do seu personagem. O ator transita natural e certeiro entre o bufão e o sisudo, o vilão e uma espécie de anti-herói.

Produzido em 1968, o dvd duplo de Era uma vez no Oeste, traz muito material extra, documentários, entrevista, galerias e biografias, tudo com legenda em português.

Carnaval chegando, muita folia, muitos filmes e séries na televisão. Muitas são as opções de coisas novas. Mas e os clássicos onde entram nessa agenda de interesses sempre cheia?

Se você não viu, ou se já conhece, é sempre hora de voltar aos clássicos. Com o passar do tempo nossa visão como observador sobre diversas influências, conhecimentos e outras informações são adquiridas e no mais, o próprio filme, livro ou obra de arte vai se revelando mais...

Escrevo no Cenas de Cinema e aqui algumas dicas de filmes clássicos para esse carnaval, (um carnaval diferente) mas não menos interessante.

Confira as criticas e mais informações no Cenas de Cinema.

Um Estranho no Ninho, dirigido por Milos Forman, é o relato baseado no livro de Ken Kesey sobre sua vivência como funcionário de um hospital psiquiátrico. Trata não apenas da loucura, mas faz uma dura crítica às instituições responsáveis por prestar esse serviço e, principalmente, uma crítica às repressões, sejam elas de direita, “limpas”, bem construídas e pautadas em tradições, ou à repressão que vem disfarçada de revolução. Leia na integra.



Scarface a vergonha de uma nação Clássico dirigido por Howard Hawks, Scarface – A Vergonha de uma Nação é, sem dúvida, uma marco na história do cinema. Com roteiro de Ben Hecht, a produção foi realizada durante os “anos de ouro da turbulência”, período em que as amarras da censura andavam frouxas... Leia na integra




“Esforçar-se para viver ou se esforçar para morrer”. A frase de Red, personagem de Morgan Freeman, é a que melhor define as perspectivas dos internos de Shawshank, penitenciaria estadual regida pelo corrupto e autoritário Warden Norton (Bob Gunton). Leia na Integra.

Direto do Cinecult , Cinemista, crítica de A Bela da Tarde, com Catherine Deneuve e direção de Luis Bunuel.


Um casal apaixonado, uma esposa linda e recatada, um marido presente e atencioso, essa é a impressão que temos de Séverine e Pierre Serizy durante os primeiros segundos de “A Bela da tarde”, enquanto os dois passeiam numa carruagem aparentemente de forma romântica. Minutos depois o marido ordena que a carruagem seja imediatamente parada, arrasta a mulher para dentro da mata e pede ao cocheiros que à amarrem numa árvore e comecem a chicote-la para depois abusar sexualmente da esposa. Mas calma, tal brutalidade não passou de um sonho, de um devaneio de Séverine (Catherine Deneuve), uma moça tímida, de uma sensualidade contida mas que mesmo assim desperta o desejo dos homens e a curiosidade das mulheres.


Em seus pensamentos mais recônditos Séverine alimenta estranhos desejos sexuais e um profundo descontentamento com os prazeres que o marido pode lhe proporcionar. Quando tem conhecimento da existência de um discreto bordel de Madame Anaïs, Séverine dá inicio a busca da realização de suas obsessões. O endereço Cité Jean de Saumur, nº 11, ressoa em sua mente, ainda que temerosa Séverine mergulhará enfim num mundo que lhe é totalmente avesso as suas convicções sociais, deparando-se com personagens e situações bizarras que no entanto, não a assustarão mais.

Essa é a história de “A Bela da Tarde”, que segue com um clima de surrealismo e suspense, talvez essa a maior qualidade do trabalho do diretor Luis Buñuel, imprimir tal clima surrealista de forma discreta, nas pequenas coisas, nos pequenos gestos e olhares dos personagens. A sensação é a de que em todas as cenas, algo vai eclodir na tela, uma situação ou um desvario virá a tona. Se as coisas realmente acontecem ou são apenas desejos íntimos de Séverine ou mesmo de Pierre seu marido, tudo permanece num leque de opções que o roteiro apresenta. Assim, mais do que um drama surreal que se “explica” e se utiliza de tal característica “A Bela da tarde” soa melhor como um intrigante drama psicológico, vivido por um personagem atormentado por estranhos desejos secretos.


A atuação de Catherine Deneuve corresponde à complexidade de sua personagem, a atriz compila gestos e olhares dúbios que a todo instante confundem ou escondem sua verdadeira personalidade. O filme ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza e teve uma “continuação” filmada em 2006 “Sempre Bela” onde um homem 38 anos depois reencontra a esposa de um amigo, que se prostituía. Antes de filmar A Bela da Tarde, a atriz Catherine Deneuve interpretou outra personagem com sérios distúrbios sexuais em “Repulsa ao Sexo” (1965) de Roman Polanski. No longa, Catherine é Carol Ledoux, uma bela mulher que é sexualmente reprimida e vive com sua irmã mais velha. Ela constantemente resiste aos assédios do seu namorado e também desaprova o amante da irmã. Quando esta viaja com ele em férias, Carol fica sozinha no apartamento e se afunda em uma profunda depressão, passando a ter várias alucinações. Reza a lenda que a atriz teria “ganho” seu papel em “A Bela da Tarde” após o diretor ver sua atuação em “Repulsa ao Sexo”.

UMA OBRA PRIMA FEITA DE ELEMENTOS AUTOBIOGRÁFICOS E DE SONHOS


Em Fellini 8 ½ o cultuadissimo diretor italiano Frederico Fellini admite que sua obra possui elementos auto-biográficos, porém insiste que tais elementos estão no filme de forma superficial. No entanto toda a obra de Fellini é marcada por um rigor autoral.

No longa de 1963 juntamente com um material biográfico, Fellini inseri diversos devaneios, sonhos, imagens e situações surreais criadas pelo diretor. A riqueza dos mundos criados por Fellini perpassam os sonhos, as loucuras e também o mundo circense, são elementos recorrentes em toda sua filmografia marcada pelo inusitado e pela perturbação de questões supra-humanas.


Fellini 8 ½ conta a história do diretor Guido Anselmi (Marcello Mastroianni) que vive um momento delicado em sua carreira, sem saber como dirigir seu próximo filme, vivendo uma crise de inspiração, pressionado pelos produtores e ainda num caldeirão de incertezas entre a esposa e sua amante. Em meio a isso Guido tira férias e viaja para uma estância hidrográfica onde irá buscar a paz necessária para realizar seu próximo trabalho. Mas não é o que acontece, amante, esposa, cunhada, produtores e diversos fantasmas e lembranças do passado insistem em perseguir Guido tornando seu trabalho infértil e doloroso.

Esse é o tema do longa, vencedor de dois Oscars de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Figurino, recebendo ainda outras indicações; Melhor Diretor; Melhor Roteiro Original e Melhor Direção de Arte. Fellini retira o-que-ser-contado a partir do nada, insiste em metalinguagem, um filme sobre a criação de um outro filme, como o próprio diretor confessa, esse trabalho remete a fase pela qual ele passava, um bloqueio criativo que paralisou momentaneamente seu trabalho.


Nos extra do DVD lançado pela versátil, entre entrevistas, making of e outros materiais extras, há um texto onde o diretor descreve o drama vivido, quando era cobrado e aguardado ansiosamente por todos envolvidos no projeto sem que estes soubessem que suas carreiras corriam perigo. Frederico Fellini é um ícone do cinema mundial, toda sua obra é obrigatória para cinéfilos e aspirantes a diretor, roteiristas e enfim a quem quiser conhecer um trabalho árduo e repleto de arte.

Critica originalmente publicada no O Cinemista Cinecult, Felinni8/1 

Continuando a compartilhar resenhas publicadas originalmente no O Cinemista, 

FUGA NA ESCURIDÃO

Baseado no romance homônimo de Stephen King o diretor Stanley Kubrick faz uma polêmica e interessante adaptação do cultuado sucesso da literatura de horror. A adaptação gerou certo desconforto entre os fãs do livro, acostumados ao clima macabro e às vezes cômico criados pelo escritor, no filme deparam-se com a releitura bastante particular de Kubrick que “limou” diversos elementos do livro focando a história no personagem Jack (Jack Nicholson) e em sua transformação, diferente do livro que faz do Hotel Overlook uma entidade maior do que um simples espaço arquitetônico. Por sua vez, Kubrick desenvolve questões psíquicas e sensoriais que vão muito além do que um filme de terror oferece. Mais tarde no fim da década de 90 “O Iluminado” seria novamente adaptado, Sthephen King iria acompanhar de perto essa adaptação, segundo ele, bem mais “fiel” ao seu trabalho.


Em “O Iluminado” Jack aceita o emprego de zelador do Hotel durante a baixa temporada, um inverno avassalador tornará aquele lugar praticamente inalcançável. No entanto, tal cenário parece o ideal para as pretensões de Jack que busca o total isolamento para poder escrever o seu livro. Assim, Jack, Wendy (sua mulher) e Danny seu filho partem para o hotel sem saber que aquele lugar guarda misteriosas histórias e poderosas forças do mal, que aos poucos vão influenciando e tomando por completo a personalidade de Jack.



Um ótimo roteiro aliado a grandes interpretações, contudo é com o perfeccionismo do diretor que o longa alcança sua primazia. Boatos contam que takes foram feitos mais de 50 vezes até que Kubrick se desse por satisfeito. O diretor trabalha com verdadeira obsessão focada em cada elemento cinematográfico como se fosse impossível realizar um trabalho sem que todas as suas partes fossem executadas com perfeição. Por da exaustão, Kubrick dirige cada tomada até o ponto ideal.
Para as cenas feitas no gigantesco labirinto ou nos corredores do hotel, o diretor usou a Steadcam, que consiste em um equipamento criado por Garrett Brown em 1975, onde a câmera é acoplada ao corpo do operador através de um colete onde é instalado um braço dotado de molas, e serve para estabilizar as imagens produzidas, dando a impressão de que a câmera flutua.
A carreira cinematográfica de Stanley Kubrick é constituída de trabalhos surpreendentes, únicos, Kubrick nos oferece sempre uma nova visão sobre o tema abordado. Em “O Iluminado” substituiu espaços escuros e apertados típicos de filme
Desde a coloração, densidade e volume da neve feitos com sal e isopor, até detalhes do figurino e os closes no rosto dos personagens, tudo é visto e planejado metodicamente sendo que cada detalhe, não é um mero detalhe, mas faz parte de uma proposta maior com uma função não apenas estilística mas uma ferramenta narrativa. Kubrick conta histórias sem fecha-las, o filme cresce à medida que o revemos nos oferecendo outras interpretações permanecendo sempre um mistério a ser pensado.s de terror, por espaços grandiosos iluminados por uma mesma luz, opaca e inebriante que resulta em um clima de tensão e suspense, o longa formulou diversos parâmetros, tendências que são usadas até os dias de hoje principalmente nos filmes de terror, assim como umas das cenas mais famosas do cinema em que Jack Nicholson aparece com seu rosto transtornado entre as rachaduras da porta que ele destruiu com um machado. O diretor evita, foge dos clichês para obter o mesmo ou um melhor resultado por outro caminho.
Mais do que um grande diretor ou apenas um contador de histórias, Kubrick é um grande estimulador, um provocador, munido de projetos, inquietações e da “fervura” mental que acompanham os grandes artistas.


Continuando as publicações do cinecult do cinemista, O Evangelho Segundo São Mateus de Píer Paolo Pasolini.

Diz-se que no projeto inicial do longa “A Paixão de Cristo”, o diretor Mel Gibson não pretendia incluir qualquer tipo de legenda, acreditando que a história de Jesus Cristo se faz conhecida nos quatro cantos do planeta e a sua universalidade faz desnecessária qualquer tradução. Independente de religiões e culturas podemos ver isso em uma cena de “Amistad” de Steven Spilberg, em que escravos aprisionados de navios negreiros fazem a sua interpretação da história de Cristo, sem qualquer tipo de conhecimento ou preconceito “chegam” próximos a essência da história.

Em “O Evangelho Segundo São Mateus” o diretor italiano Pier Paolo Pasolini valoriza a imagem e o silêncio, há claro as legendas e na versão disponível em DVD, existem as opções dubladas e a versão original com áudio em italiano e legenda em inglês. No entanto, o que chama mais atenção no longa é o caráter de certa forma austero de Jesus, essa impressão se dá por outros motivos e não por alguma tentativa do diretor de tentar mudar o caráter do personagem bíblico. Pasolini influenciado pelos ideais neo-realistas formou um elenco todo de “não-atores” e abdicou de maneirismos e instrumentos dramático-sentimentais. Em contra partida, a história originalmente contada pelo apostolo Mateus é cuidadosa e fielmente retratada passando por cada momento registrado no livro, desde o nascimento de Jesus, aos ensinamentos e parábolas, do chamado dos apóstolos à ressurreição.

Embora colorido digitalmente a simplicidade da produção ainda se faz notar, seja no figurino e ou nas locações em que foi filmado. Corte secos e closes estáticos aumentam proporcionalmente a tensão e a importância de cada fala. O amadorismo dos atores apenas colabora para uma maior verossimilhança, não vemos os atores, mas os personagens “vivos” naquele contexto. Destaque maior para o ator Enrique Irazoqui (Jesus Cristo), sua atuação é contida, serena e intensa. Mesmo nos momentos mais críticos da história como na crucificação ou no Getsêmani o ator não apela, não se aproxima de “caricaturas” mas transmite em sua interpretação o caráter reto de Jesus, pronto e ciente de seu destino…


Continuando a "repuplicação" do material do Cinemista de onde colaborei, posto agora texto sobre "Crepúsculo dos Deuses", clássico obrigatório pra ver e rever.

Este é um trecho do diálogo que demonstra a situação financeira de Joe Gilliis, um fracassado argumentista que precisa desesperadamente dessa quantia para que o banco não lhe tome o carro, seu único bem material. Enquanto é perseguido por seus credores, Joe encontra a garagem de uma casa aparentemente vazia, é lá que deixará seu carro escondido até que tudo se acalme. No entanto o que parecia ser apenas uma mansão abandonada, é na verdade o castelo de decadência de Norma Desmond, estrela do cinema mudo esquecida pela “nova” indústria cinematográfica. Norma vive ao lado do mordomo Max que lhe serve não só como funcionário, mas como protetor do sonho, ou pesadelo em que esta insiste em permanecer.

Neste cenário quando os caminhos de Joe e Norma se cruzam surge a possibilidade de que ambos alcancem a redenção de suas angústias. Depois que Joe é confundido com um agente funerário contratado para o enterro do macaco de estimação da atriz, Norma vê no escritor a chance de voltar às telas e lhe contrata para reescrever um roteiro feito por ela. Por sua vez, o escritor vê naquela ambiente, uma temporada de paz, ganhos fáceis e a possibilidade de ter um argumento seu enfim aceito pelos estúdios. Um laço intenso e estranho vai se desenvolvendo entre os personagens e os envolvendo num relacionamento doentio e oportunista de parasitas que tentam usufruir daquilo que só encontram no outro.

Se em outro clássico do cinema, a transição do cinema mudo para o falado é vista de maneira alegre, colorida e dançante como em “Cantando na Chuva”, o mesmo não acontece no longa de Billy Wilder, que insere em Crepúsculo dos Deus, uma pesada carga de tensão e pessimismo. A trama se desenvolve através da narração de Joe Gillis fazendo diversas inferências durante todo o longa, refazendo o percurso que o levou a morte, como vemos na cena inicial do filme.


As atuações de Gloria Swanson (Norma Desmond) , Erich von Stroheim (Max) e William Holden (Joe), são os pilares do roteiro bem construído. Embora seja tido como um dos grandes clássicos do cinema, Crepúsculo dos Deuses é menos “badalado” que outras produções do diretor como “O Pecado mora ao Lado” e Quanto mais quente melhor”, no entanto Crepúsculo é um desses trabalhos que comporta e “pede” outras visitas de minuciosas observações, clássico, atual e atemporal.
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O Western em sua excelência 

Harmonica, modo como o personagem de Charles Bronson é chamado por estar sempre acompanhado de uma gaita, desce do trem na estação, lá três homens já o aguardam. Num determinado momento do lento diálogo entre o quarteto, Harmonica nota que três cavalos acompanham os homens e decreta: Dois cavalos a mais. Em seguida num movimento rápido dispara três tiros certeiros. Ele está em busca de vingança… 

Jill McBain (Claudia Cardinale) chega da estação para encontrar seu novo marido com quem se casou meses atrás e só agora irão morar juntos. Mas ninguém a espera pois todos estão mortos. Frank (Henry Fonda) e sua “gangue” fizeram o trabalho sujo a pedido de Morton (Gabriele Ferzetti) um milionário interessados nas terras por onde uma futura linha de trem passará. A partir desse momento, Jill MacBain está em busca de vingança. Fugido da prisão o pistoleiro Cheyenne (Jason Robards) fica sabendo que homens usando casacos como o que ele e seu bando usam estão cometendo brutais assassinatos, numa suposta tentativa de incriminá-lo. Cheyenne está em busca de vingança… 

Noutro momento os caminho de Jill, Harmonica e Cheyenne se cruzarão, ainda que exista uma forte tensão entres os três, Jill será protegida pelos dois homens enquanto é perseguida por Frank e seus comparsas. Como diz o diretor Sergio Leone, em Era Uma Vez no Oeste todos os personagens, exceto o de Claudia Cardinale, sabem que vão morrer. É um encontro lento e silencioso com a morte anunciada. E será o interesse desses personagens que moverá o longa. No entanto, outras histórias podem ser retiradas deste longa que fala de muitas outras coisas, como a transformação do Velho Oeste com a chegada da modernidade vinda através dos trens, a mudança de comportamento das pessoas com a velocidade nas comunicações e viagens além do dinheiro, que chegando aquelas terras fez mudar a figura do vilão. Não mais um fora da lei, barbado e armado, mas um homem bem vestido, rico e instruído. Os “românticos” assaltos a banco serão deixados de lado. Homens gananciosos e inescrupulosos passarão a fomentar a discórdia e o desajuste social sem portar qualquer tipo de arma. Este é papel de Morton vivido por Gabriele Ferzetti personagem que está por trás das ações do impiedoso Frank. 

A idéia inicial de Sergio Leone, para a primeira cena do filme, era ter Clint Eastwood, Eli Wallach e Lee van Cleef – atores de “Três Homens e um Conflito” – no papel dos três pistoleiros que morrem logo nos primeiros minutos do filme. Impossibilitado de contar com os três, desistiu da idéia que mostraria, além de audácia por “queimar” três renomados atores em menos de 10 minutos de fita, o fim de um ciclo e o início de outro. Caberia então ao desconhecido Charles Bronson encabeçar essa nova jornada.” Era Uma Vez no Oeste” faz parte de outra trilogia composta de “Quando Explode a Vingança” (1972) e “Era uma Vez na América” (1984). Com Era uma vez no Oeste o diretor Sergio Leone levou ao patamar máximo o spaghetti western. Perfeccionista como poucos se deteve a cada detalhe de um filme de longos 165 minutos. 

O ritmo do longa é extremamente lento, há longos espaços sem diálogo e quando acontecem são marcados pela morbidez que acompanha aos personagens no encalço da morte, assolados pelo calor do deserto mas ainda sim frios, quase despreocupados. Leone usa closes e outras tomadas e movimentos modernos para a época. Movimentos que, na verdade, iriam inspirar diretores como Tarantino e outros. É emblemática a cena em que o vilão Frank é “apresentado”, a câmera da a volta pelo personagem partindo de suas costas e foca bem próximos dos olhos azuis de Henry Fonda, mostrando um contraponto do carismático Fonda travestido como um vilão implacável. 

O som e a trilha sonora tem importante papel em toda a construção da história. Na primeira cena, o girar de um moinho enferrujado, as gotas que caem no chapéu de um homem, que permanece imóvel, e o irritante “zunido” de uma mosca rondando outro rosto denotam a monotonia daquele lugar. Numa parceria vitoriosa com Ennio Morricone, em Era uma Vez no Oeste Ennio compôs um tema para cada personagem. A gaita do personagem de Charles Bronson, pacato e ameaçador. Claudia Cardinale é acompanhada por uma musica que evoca a esperança por um recomeço, o surgimento de uma cidade ou uma nova vida. Frank (Henry Fonda) caminha inclemente junto de uma composição acentuada pelo som malévolo de uma guitarra. Por fim Cheyenne (Jason Robards) oferece a dualidade do som de um banjo, displicente e sagaz. Neste mesmo ritmo, as atuações correspondem totalmente a cada nuance de seus personagens. O silêncio e as expressões de Charles Bronson, a doçura e a coragem no olhar de Claudia Cardinale contraposto a frieza dos movimentos e olhares de Henry Fonda. Mas é Jason Robards, no papel de Cheyenne, que rouba a cena com a dualidade do seu personagem. O ator transita natural e certeiro entre o bufão e o sisudo, o vilão e uma espécie de anti-herói. 

Produzido em 1968, o dvd duplo de Era uma vez no Oeste, traz muito material extra, documentários, entrevista, galerias e biografias, tudo com legenda em português.


Ygor MF
Postado originalmente no O Cinemista







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