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Aviel desistiu de buscar o “poema perfeito”, com os dias contados pela doença, interrompeu de vez sua carreira literária. Sem tempo para novos estudos, sem força para dezenas de escritas e reescritas, sem paciência para o ócio criativo que de vez em quando visitava retornando com certa clareza e folego para seus projetos. Porém, como ultimo ato, ao lado de outros sobreviventes de Auschwitz deixaria sua ode àquele mundo que o cercava…

Enquanto brindavam com seus licores de romã, Aviel e seus companheiros tentavam imaginar o percurso das águas de Munique, Nuremberg, Hamburgo e Frankfurtm, não mais inodoras, insípidas e incolores…
Nas canecas, nos cantis dos soldados, nos bebedouros das varandas deixados para os pássaros. O veneno desenvolvido pelo bioquímico Menashe, circulava por quase todo o território alemão.
E para Aviel essa água tinha absoluto sabor de vingança…

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Texto escrito para o site Ninho de Escritores, exercício número 12

Escreva um texto inteiro sobre uma mordida ou um gole!


Mini conto publicado originalmente no Ninho de Escritores, comunidade online com diversos exercicios para praticar a escrita, ler e ser lido trocando impressões e críticas construtivas...
Lá o título do conto era "Proibido trafegar no acostamento", optei por simplificar mais por aqui...

No acostamento -


Não aguentava mais deixar o braço reto, daquela maneira bem esticado invadindo parte da estrada. A pilha do walk-man acabou. Teve preguiça de tirar os fones que àquela altura eram apenas ornamentais. Apoiou o cotovelo na barriga e deixou apenas o antebraço como apoio sustentando a mensagem que o dedo enriste comunicava.

Não percebeu se o pôr do sol foi bonito ou nublado. A noite se instalou triste e deserta. Alguns ônibus indicavam em seus letreiros lugares que ele gostaria de conhecer, mas os motoristas não aceitavam o acordo que sua mão propunha. Um carro parou pra pedir informação e foi embora, outro passou em alta velocidade enquanto as pessoas lá dentro o xingavam de tudo quanto era nome. Um terceiro estacionou e ligou o pisca-alerta, quando ele se aproximou viu o carro ir embora e conseguiu ouvir outros xingamentos…

Nem hotéis ou pousadas por perto, nem pontes para se proteger abaixo delas ou encerrar algum problema acima. A estrada livre e interminável lhe convidava para um caminhar sem fim e sem futuro, ao redor o vazio da vegetação seca não lhe oferecia abrigo. Permanecia preso sem muros ou grades.

Durante a noite o volume de carros, ônibus e caminhões diminuiu drasticamente, assim como o número de xingamentos e falsas caronas. O sol não demorou a aparecer, veio violento contra o asfalto e a mata quase morta.

Mas o homem permaneceu inabalável diante de tudo, carros, caminhões, astros e xingamentos. Obstinado com o polegar em sinal positivo, paciente como Buda aguardando pelo momento em que finalmente poderia usar todas as facas, lâminas e outros objetos cortantes que carregava na mala de falso viajante… Tinha verdadeira fé que alguém em algum momento aceitaria participar de sua jornada…


Conto publicado no Monolito - Coletivo Literário


Ao Vencedor as Batatas


I

Durante a segunda guerra mundial a batata era um dos poucos alimentos que refugiados ou prisioneiros dos campos de concentração conseguiam comer, as vezes encontrando restos e noutras comprando no mercado negro. Resistente ao frio e até mesmo a situações mínimas de saneamento, esse alimento salvou, ou adiou a morte de muitos. Noutras partes da guerra, quando tropas ficavam sem alimentos, soldados retiravam as batatas do solo e as comiam cruas. Ainda em tempo e contexto de guerra, o caríssimo filósofo Quincas Borba anunciou em seu manifesto o Humanitismo: – Ao vencedor as batatas!

II

Na Grécia durante os anos 20 do século passado entre várias vanguardas e correntes literárias, as batatas também obtiveram certo protagonismo diante de conflitos que resultaram numa morte. O escritor e teórico Meliteu, depois de um duelo com seu rival das ideias Pisandro Amintas, que antes fora seu discípulo. Meliteu defendia que a construção literária é como a massa de uma batata espremida, o que passa do tubérculo para fora do espremedor é a história que deve ser contata, limpa de sujeiras ou partes menores sem importância que ficam presas no objeto. Em contra-partida, Pisandro, passou a pregar que não! A matéria prima da literatura e em especial dos romances, consiste justamente no que sobra da batata presa ao espremedor, aquilo é a obra prima, é a essência, sem o excesso e sem o banal que foi posto para fora. Depois de inúmeras discussões cada vez mais calorosas, certa vez Pisandro mesmo certo de suas convicções sentiu-se vencido e humilhado diante da plateia de estudantes e aspirantes a escritores. Esperou Meliteu deixar o espaço acadêmico da Hellenic Open University, o seguiu em seu trajeto de volta pra casa que fazia a pé todos os dias, e depois de 4 km já na avenida Akti Dimeon onde Meliteu tinha um belíssimo apartamento, um golpe certeiro o pôs desacordado, em seguida o afogou a beira do mar jônico.

III

Durante aquela sexta feira onde mais uma noite de hot-dog iria acontecer, o escritor João Catapulta olhava para os ingredientes dispostos na mesa, salsicha fervida, molho de tomate, maionese, ketchup picante e mostarda. Batata palha e batata cozida quase no ponto de virar purê. Até esse momento de sua vida tinham sido escritos 3 livros de contos publicados de forma independente, tiragem cômica de 50, 30 e 20 exemplares que em sua maioria foram dados a parentes e amigos que por sua vez os repassaram a sebos ou prateleiras antigas cheia de papéis ou outros livros que como aqueles que João escreveu, jamais seriam lidos.

Não exatamente em segredo mas sem nenhum comentário ou pedido de leitura ele terminara o seu terceiro romance naquela noite. Durante os anos em que esteve em silêncio juntos desses projetos, estava convencido de seu papel como escritor que como tal não necessita ser lido, afinal de contas, escritores escrevem e ponto final. Antes do terceiro cachorro quente daquela noite irrompeu o silêncio e reforçou sua aparente paz e certeza com um mantra: Escreva… Escreva apenas e não se preocupe…

IV

Mas tal convicção era frágil e mentirosa, terminou por pensar que, se os seus textos não despertavam atenção de exatamente ninguém, algum fato novo ao redor deles o faria. Talvez um crime ou um ato terrorista fosse o prenúncio do sucesso comercial que as editoras aproveitariam muito bem. PRÉ-VENDA DO LIVRO “CONFISSÕES DE UM ESCRITOR TERRORISTA” anunciaria o banner nas redes sociais e vitrines das grandes livrarias.

Não que fosse um santo, pois em certos momentos tinha vontade de construir bombas (quem não tem), mas não seria por esse ato que João queria ser lembrado ou mesmo lido. Talvez algo mais poético como um sacrifício, mas o que? Pensava… enquanto sem perceber partia para o quarto cachorro quinto, decretando ali num novo recorde pessoal… Se seus textos não eram dignos de leitura, talvez a dificuldade, os obstáculos físicos para escrever qualquer texto por pior que fosse, dignificassem sua literatura. E a essa altura tanto fazia, pena, misericórdia, ou até mesmo uma leitura por piedade… O importante era ser lido…

V

Quase num salto da cadeira pegou o espremedor de batatas largado na pia entre outras louças sujas, apoiou dois dedos formando uma ponte sobre o vão onde normalmente se colocam as batatas. Pressionou com toda força a parte de cima do objeto contra os dedos. Apesar da dor não teve nenhum sucesso, tirou um dedo e aplicou a mesma força que antes, CLACK! Partiu ao meio o dedo indicador, na sequência ergueu o dedo médio que mais fino foi rapidamente quebrado enquanto era pressionado pelo espremedor de batatas. O anular foi mais fácil ainda, espremeu o dedo no aparelho até o fim, sentiu uma pequena fratura na ponta do dedo, ergueu a haste do espremedor e mais dois golpes, no segundo movimento conseguiu quebrar o osso do metacarpo e parte do osso hamato. Foi o que descobriu mais tarde no hospital.

VI

Recusou-se a fazer fisioterapia, ou quando compareceu as sessões sabotava cada movimento. Já não sentia mais dores e contemplava sua obra prima, separou a radiografia pois aquela seria a imagem da capa de seu livro, sem nome, apenas a imagem do raio-x dos ossos da mão estilhaçados. Talvez usar acetato na impressão de uma luva para o livro, pensava graficamente em seu projeto literário.

Destro com a mão e canhoto no pé, sabia-se um erro desde sempre, agora teria que consertar isso e todos os anos de isolamento de suas palavras numa ilha deserta, nada paradisíaca e no geral nem um pouco interessante.

A mão esquerda que antes se resumia ao uso do dedo indicador, agora precisaria deslizar sobre o teclado enquanto na mão direita tinha apenas o dedão e o dedo mindinho com movimentos possíveis, com muito esforço conseguiam alcançar e pressionar alguma tecla.

VII

Num ritmo árduo e intenso durante três meses, concluiu o primeiro capítulo. Trabalhava agora 14 a 16 horas diárias sobre o livro. No quinto mês a produção teve um crescimento impressionante, 9 capítulos estavam escritos, mais de cento e oitenta páginas, 70% do livro pronto. No sexto mês tudo estava normal, voltou a escrever com rapidez nas redes sociais, em tablets ou smartphones.

O fim do livro estava próximo, e a distância para esse lugar diminuía cada vez mais rápido. Foi quando se deu conta: Estava escrevendo normalmente, mais rápido do que antes até. Sim, em partes pela disciplina mas principalmente por não existir naquele corpo, naquelas mãos, mais nenhum obstáculo. Os dedos continuavam tortos mas nunca mais teria mérito por transpor aquela dificuldade que nem existia mais, pouco importava quem ou como escrevia aquelas palavras, as atenções agora voltariam exclusivamente para cada frase, construção de diálogos e personagens, trama, foco narrativo, tempo e espaço… Sem maiores desculpas para o vazio que poderia morar por de trás de cada um desses elementos. Escrever para ele deixou de ser uma profissão de fé fazia tempo, agora restava apenas teimosia ou talvez um ego gigantesco que o impelia aquele caminho de ser reconhecido como escritor de um jeito ou de outro.

VIII

De volta as sextas feiras de cachorro quente, depois do sétimo lanche (recorde destruído novamente) CLACK CLOCKT CLECKCOUT… Começou pelo dedo indicador da mão esquerda, e foi em seguida com violência para o dedão que era tão ágil e prestativo naquele sistema de digitação que ele desenvolveu sem querer. Escrever era um sentimento montanhoso que vivia em seu peito, um maremoto, condição e movimento natural de suas mãos. Mas sabia, jamais uma dádiva, e sim uma maldição que a todo custo ele tentaria bloquear, e dessa batalha o que sobrasse produzido por suas mãos seria arte, LITERATURA… LITERATURA… LITERATURA… Gritava enquanto mais uma vez era levado ao pronto socorro.

Em sua terceira publicação o Monolito - Coletivo literário, publica textos com desafios a seus autores.
Formado pelos escritores Caio Salgado, José Mauricio e Ygor Moretti, a proposta do grupo é produzir e publicar um texto por mês, seguindo o desafio proposto pelos autores.

O convite e desafio se estende a todos autres que queiram participar. Além da publicação no blog, os textos são enviados para uma news letter, são postados em redes sociais e formaram a revista mensal, publicada em formato de revista e com a opção de baixar o arquivo.

No terceiro desafio os textos deveriam ser sobre um devaneio, uma situação surreal, mas contada de trás para frente. Leia essa e outras histórias no blog.  Monolito - Coletivo Literário

Link da Revista com o Primeiro desafio

Como surgiu o Monolito coletivo Literário?
"Este blog surgiu de um encontro virtual inesperado entre três escritores em busca de novos desafios de aprendizado e de escrita."

Todos os meses os editores irão propor um tipo de história e inserir um objeto, lugar ou elemento inusitado que deve fazer parte de um conto. Todos os interessados poderão participar e os melhores serão publicados aqui e enviados em nosso boletim mensal.

Se interessou? Mande seus textos com até 2 mil palavras para o e-mail monolitocoletivo@gmail.com. O prazo é dia 15 de todo mês, certo?


Publicado em ebook pela editora Revolução Ebook o livro O Menino Susto e outras histórias de terror para crianças - trata-se de uma seleção de contos de suspense, terror e muita comédia e diversão, pois nas histórias de Ygor Moretti Fiorante, que remetem também a lembranças da infância. Juntamente do Saci-Pererê, Homem do Saco e outras lendas, Monstrinhos e meninos também são amigos...

Assista o Book Trailer do livro:


Compre o seu no site da Editora ou nos principais sites de livros.


Feliz 2016!!!

Pra começar o ano segue dois links de frutos de 2015, duas entrevistas em blogs diferentes. Nessas entrevistas, falo sobre meus livros, o ebook O Menino Susto, e o Livro Do Som ao Impacto, além de novos projetos.

Confira trechos e o link da entrevista na integra:

Entrevista Garimpeira de livros


1 - Qual a sua principal inspiração? De onde você tira e cria seus personagens e enredos?

Não tenho uma inspiração especial, na verdade inspiração é apenas uma fagulha, um estalo. As idéias para os textos surgem como questões ou inquietações. Sempre com uma pergunta, por exemplo: E se um menino gostasse de assustar as pessoas e fosse especialista nisso? Como seria essa história? Ou ainda, e se um homem voltasse a vida de cinco em cinco anos depois de morto? Como seria essa história, como seria a reação das pessoas ao seu redor?

Não me prendo a inspiração de certa forma até ignoro um pouco, mas mantenho a mente aberta para o que acontece ao redor, nos jornais, nas ruas, na vida das pessoas ao redor tudo serve de gancho pra uma história. As vezes nos lugares mais improváveis pode surgir alguma história, por isso ler diferentes tipos de textos, filmes, e até longe das artes, estando atento pode-se achar uma boa história por toda parte.


RV - Qual sua estratégia para conseguir lançá-lo?

YM - Como disse antes, Do Som ao Impacto, publiquei de forma independente depois de tentar muitas editoras. Só depois encontrei a Editora Multifoco. Para o próximo livro, vou tentar as editoras maiores, e em último caso farei outra publicação independente.

RV - Já está escrevendo algum outro?

YM - Sim, continuo escrevendo em meu blog o www.moviemento.blogspot.com e no Cenas de Cinema, além disso estou terminando a edição de um novo livro de contos e rascunhando e fazendo pesquisas para um novo romance, o qual já tenho o roteiro da história, a espinha dorsal construída, falta sentar e escrever.

Micro-Contos escritos a partir das perguntas:

- O que te traz a calma perfeita?
- O que é que você esconde aí?
- Já dormiu em um automóvel?
- Tem algum método favorito?
- Já matou alguém?
- Dói?


A idéia era que as histórias fossem referentes a um mesmo personagem, fica aqui não só o convite da leitura, mas o desafio a quem quiser se aventurar no mundo dos micro-contos, que embora sejam curtos, possuem ou ao menos devem possuir a mesma estrutura de contos maiores, ou seja:

- Personagem
- Tempo
- Espaço

Texto originalmente publicado Contos das Rosas 



Mudança

Não conheceu o mar, nunca sentiu a areia fofa e a unidade de cada grão como minusculas galáxias entre os dedos. Morreu afogado num lago alcalino formado pela explosão de uma pedreira. Não ousava mergulhar do alto como os outros rapazes. Sabia que dependendo da altura e da forma como caísse, a água poderia ser tão dura quanto o concreto.


Praga de mãe

– Eita minino que gosta de água! Dizia a mãe num misto de zanga e funesta tentativa de dar-lhe algum atributo. Sem saber que aquilo era uma sentença continuava: – É sempre o primeiro a entrar e o último a sair da água.


Trabalho infantil

Comprou a passagem com dinheiro dos vários trocos que foi juntando. Super-faturou pães e maços de cigarro que a pedido da mãe ia comprar. Tráfico de influência, paraíso fiscal aos fins de semana quando ia encontrar com a namorada na cidade ao lado.


O trajeto

Dormir durante quase todo o percurso evitava que sofresse ao reencontrar cada quilometro, cada montanha e curva ao longo da viagem. Lugares desguaecidos de qualquer valor simbolico ou mesmo turístico, que apenas o advertiam; Está muito longe ainda.


Revanche

Eu vou dizer que vou joga bola. – Então pai marcamos uma revanche com o Quebra-Tudo lá Campo Limpo sabe?

Só isso já me garante o sábado, quando voltar no domingo, ai explico, ou não explico, apanho e calo a boca. Semana que vem invento outra coisa.


Eu era um covarde cínico

Se tu é macho mesmo vamos lá pular da pedra quero ver só seu bosta!

Não aceitou o desafio dos adversários, nem sentiu-se diminuído por isso. Sabia que a namorada não se importava com essas medições idiotas de força. De qualquer forma, enquanto nadava pelo canto do lago, observava os rivais pulando do alto da pedra. Desejou que calculassem mal o salto e estourassem a cabeça nos rochedos.


Dói?

Caimbrã é foda! Dizia uma das testemunhas. Pensa num alicate pegando no músculo, torcendo, retorcendo e esticando. O coitado não conseguiu nem boiar.

Conto publicado no Blog Contos das Rosas, plataforma para os textos produzidos no CLIPE 2015, na Casa das Rosas.

A idéia proposta aqui, era pegar um personagem ou livro clássico e transportá-lo num novo contexto na São Paulo de 2015. Abaixo a minha colaboração, já estendendo aqui o convite e desafio a quem quiser produzir algo com uma idéia similar!!!

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Hoje é um dia importante, estou decidido, vou dar um passo à frente com meus demônios, embora esteja descrente que conseguirei de fato exorciza-los…

Vim para um lugar que me faz esquecer por completo as coisas do Rio de Janeiro, o mar, a brisa e todas as tristezas que as ondas trouxeram para minha vida. Graças ao fabuloso emplasto Brás Cubas, atravessei o século, vi o novo milênio nascer, presenciei descobertas e frustrações da humanidade, que assim como um homem de meia idade, reconhece que é bem menos importante, bem menos interessante do que desejava ser.

Sou uma espécie de Dorian Gray com pecados e segredos, banais, banalíssimos como diria José Dias o amigo dos superlativos. Por esses dias, sinto uma estranha e traiçoeira saudade do poeta do trem, que a um século atrás me deu a alcunha de Casmurro. Desculpe poetinha, não sabia que nos dias de hoje só seriam escritosromancetes vampirescos ou romances românticos que deixariam até mesmo os ultra-romanticos encabulados. Lamento ter cochilado enquanto você lia aqueles poemas, que hoje os reconheço bons.

Na praça da Sé um desconforto se instala no peito, o ar decrépito de construções e prédios antigos, me fazem lembrar do Rio, e tudo que me oprime, envergonha e irrita, saio rápido dali. Nem Largo São Francisco onde me formei em direito trás alguma lembrança boa.

Saio da praça e sigo pela Rua Benjamin Constant, dobro a esquina com dificuldade para vencer dezenas de ambulantes oferecendo alianças e joias de gosto e procedência duvidosa. Prédio enormes perfurados com portelas que parecem levar a outras dimensões que não o interior de edifícios. Entro em uma delas, num extenso corredor abro a sétima porta a direita. Procuro um lugar mais ao fundo da sala de onde observo todos que chegam depois de mim.

Poucos participantes tomam seus lugares, homens reprimidos, assassinos em potencial talvez, ou apenas espécies fragilizadas por aquilo que neles é forte. Estamos aqui para castrar o que há de poderoso e ruim em nossos corações. Fazemos um exercício de respiração e rápida meditação, depois vem um exercício de quebra-gelo que sempre constrange mais do que liberta.

Estou atento, quero ser o primeiro a ter a palavra, firmo os pés no chão já projetando o impulso num quase salto. Quando somos perguntados sobre quem quer dar inicio aos testemunhos, levanto a mão enquanto início a caminhada. Decidido e disposto a guerra por aquela oportunidade, ninguém passará na minha frente, ninguém!

– Boa noite caros amigos, meu nome é Bento Santiago, também conhecido como Dom Casmurro… Respiro, penso no terceiro casamento destruído pelo ciúmes doentio, anuncio:

– Eu, Dom Casmurro, sou um homem que ama demais…


Texto para exercício de escrita do Clipe - Casa das Rosas:
Escrever uma carta de amor durante um incêndio.

Queria deixar uma carta que não fosse apenas um recado na porta da geladeira;

Tire a carne do freezer / lave a salada / Recolha a roupa do varal!

Mas deixasse claro que isso não foi suicídio nem terrorismo. Fatidicamente você irá lembrar de quando eu disse que ia explodir o prédio se ninguém da administração resolvesse o vazamento. Quando fico nervoso só falo merda, você sabe disso. No fim você tinha razão, eu sou mesmo distraído, odiava ouvir isso e repudiava quando você dizia achando graça de mais uma atrapalhada minha. Pois bem, foi essa “qualidade” que me fez esquecer o gás aberto e aí já viu…

Agora mais uma explosão destrói por completo a área de serviço e cozinha, e pensar que por capricho seu trocamos todo o revestimento e precisei carregar mais de dez caixas pesadas de material no deposito. Pelos ares também vão as roupas e minhas cuecas que secavam no varal. Você insistia para eu não lava-las durante o banho, pois nunca ficavam limpas de verdade. Mas eu me sentia mal em deixar lá misturada com as outras roupas, principalmente quando são cuecas brancas.

Um calor forte já alcança o quarto do meio, onde você aceitou que eu montasse o meuBUNKER, eu brincava que ali era acesso restrito, nem mesmo você poderia entrar, no máximo bater na porta e deixar o café.

Não vou pular pela janela nem tentar escapar pela porta já tomada pelo fogo, estou entre livros, cds, a prateleira que a muito custo montei, toda torta e com dezenas de pregos extras pra compensar a minha falta de habilidade com ferramentas. Cada objeto desses guarda uma lembrança, um passeio ou viagem que fizemos.

Agora não enxergo mais nada, a fumaça já envolve tudo e o gás carbônico substitui o oxigênio. Não deu tempo de comprarmos um umidificador, acordávamos sempre com a garganta seca, nem flores conseguimos cultivar, deixei morrer um Bonsai, presente de minha mãe, e até o cacto consegui a façanha de deixar morrer seco.

Esqueci de arrumar a cama do quarto, acabei de lembrar, agora já é tarde, tarde pra tudo, inclusive para trocar os presentes repetidos que guardamos dentro do armário. Tinhamos três panelas elétricas, demos uma pra minha mãe que sempre quis ter uma, Presenteamos a Nat e o Rafa, adorei o casamento deles, você ficou se escondendo das fotos, mas estava linda naquele vestido roxo, que aliás aqui entre nós, foi uma pechincha né? Caramba por falar nisso esqueci de tirar foto dele pra postarmos no site de venda online. Voltando às panelas elétricas, ficamos com a terceira e antes tivéssemos usado e abusado desses eletrônicos, salvo algum curto circuito, a chance era bem menor de terminar assim tudo em fogo.

Contudo, mesmo aqui nesse inferno, consigo controlar a raiva que sinto de tudo o que é contrário a minha vontade, não que eu esteja feliz com esse desfecho, mas pensar em você foi minha proteção contra incêndio, até onde deu pois a partir de agora é só ardor sem fim, chamas e cinzas depois. Tristemente você não saberá dessas palavras e pensamentos pois o que deu tempo de escrever foi mesmo um bilhete de geladeira que envio pelo whats:

Amo você, desculpe pela distração, esqueci a porra do gás ligado!

Acordava dez minutos mais cedo do que ela, fazia a barba e já entrava no banho quente. Antes de sair deixava a água cair nas costas, enquanto enxugava os braços e cabelos mantendo a cabeça inclinada para frente fora dágua - Que se dane o desperdício eu que não vou passar frio. Decretava.

No quarto ligava o rádio na estação que anunciava a hora de minuto em minuto. SEIS HORAS E CINCO MINUTOS! REPITA! SEIS E CINCO! 

Cala a boca já sei… Dizia vagarozamente enrolado ainda num mal humor matinal.

Seguia para a cozinha, já num tempo futuro em relação ao da esposa, deixando o trafego do banheiro e closet liberado.
Caneca de café esquentando no microondas e duas fátias de pão na torradeira, terminava de guardar carteira, óculos e outros acessório na bolsa e voltava para a cozinha no exato momento em que o microondas apitava pi-pi-pi - Já vai oh escandaloso! Quase sempre brigava com o eletro-doméstico. 

Mastigava rápido e tomava o líquido aos poucos enquanto ia esfriando, do banheiro ouvia o som de um volume pesado de água caindo no chão. - Já está enxaguando o cabelo. Detectava e iniciava os preparos para servir o café. Sempre lembrava de quando ela ela lhe pedia um copo dágua, repetindo quase sempre a mesma brincadeira; 37% gelada e 63% natural… 22% gelada e 78% natural… Só mudando a porcentagem da mistura, simulando um autoritarismo que ela não tinha.

Enchia metade da caneca com leite desnatado, uma rasa colher de chá com café soluvel, o bastante para “sujar” o leite. Evitava as grandes temperaturas e o risco de “criar” nata, ela odiava. Uma fatia de pão tostado e uma fina camada de margarina, dando aquele aspecto amarelado se impregnando no pão.

SEIS E MEIA!............ REPITA!............SEIS E MEIA! O rádio lhe informava novamente.
Puta merda vou me atrasar de novo! Se assustava, dessa vez agradecido pelo aviso do amigo invisível.

Na bandeja modesta e economica, levava bem menos do que gostaria de entregar; pensava em grandes e recheados pães de queijo, um largo e alto copo de suco natural, torradas e pasta de amendóin ou doce de leite, mas aquele não era dia de exageros.

O café estando amargo ou fraco demais, ela sempre dizia que estava bom, numa voz molenga num lento e pesado despertar. Assitia aos primeiros goles e primeiras mordidas enquanto do outro comodo vinha o alarme: - SEIS E QUARENTA!... REPITA!.....SEIS E QUARENTA!

O corpo tremia num sobre-salto, como se fosse dividir-se ao meio entre aquelas duas realidades ou caminhos, dava um mínusculo passo a trás como se fosse ir embora, retornava rapidamente na direção dela, dava um beijo no rosto quase competindo em espaço com a caneca junto a boca.

Tchau, vou indo, dizia de perto sentindo novamente o cheiro do café misturado ao hálito… - Tchau, dizia ela baixinho. Obrigado! dizia mais baixo ainda, agradecida e quase constrangida por todos os cuidados que ela sabia, vinham juntos de todos os pequenos gestos e medidas…

Pegue uma ou duas folhas de caderno, marque 10 minutos no relógio, e de a partída: Escreva por 10 minutos sem parar, sem pensar, escreva, escreva e escreva, não deixe a mão parar nem que fique escrevendo a mesma palavras algumas vezes. Passe o que estiver na sua mente para o papel, use o gatilho Nesse Momento (ou outro que quiser) para começar o texto e vá em frente!

Abaixo a minha experiência com 10 minutos frenéticos de escrita desenfreada...

Nesse Momento

Nesse momento estou pensando antes, durante e sobre o que vou escrever pelos próximos dez minutos. Sem saber muito bem o que, exceto o gatilho dado, nesse momento, nesse momento...

Talvez repita nesse momento, nesse momento por dez minutos e talvez noutro momento os críticos ou filófosos do nada vão achar zilhões de interpretações para isso que faço nesse momento, sem intenção alguma...
Mas não vou apelar ou ser o chato que não sabe brincar, até porque o gatilho desse momento ajuda mesmo o pensamento a seguir uma trajetoria em linha reta, constante, sem perder a velocidade, como se disparasse do três oitão cinco tiros: nesse momento nesse momento nesse momento nesse momento nesse momento.

Nesse momento em que algumas linhas já foram escritas, o ato de escrever é também físico, matemático com alguma coisa de astrologia ou astronomia pra tentar desvendar quanto tempo já passou.
Porém se a ideia era um texto não pensado, alguma sentenças prontas, clichês talvez, já rodeiam a mente, na falta de algo, e não querendo repetir de-no-vo nesse momento,  taco uma dessas frases que estão em orbita por aqui.

Não são sentenças muito boas, mas olha só sem nem mesmo serem usadas, já estão me garantindo algumas linhas e alguns segundos de escritas, por outro lado, no meio dessa metralhadora de pensamentos, qualquer coisa que apareça assim mais ou menos trabalhada, vai parecer fruto de uma verdadeira arquitetura literária. Mas não vai ser agora, não nesse momento (putz mais um tiro), fica aqui por enquanto você que não arquitertura literaria coisa nenhuma né... Vamos combinar né? Tá mais pra uma barraca de camping que num salto, pronto, tá de pé, montada. Mas fica aqui por perto talvez use metade de você, ou uma palavra solta.

Má noticia, talvez eu nem lhe use (frase pronta), mas é bom ter você por perto, só que não será nesse texto, não, não agora, desculpe, não nesse momento...



Alguns desses contos já foram publicados aqui, mas esses são "ineditos" já que foram "melhorados".
Gosto muito dos Mini-Contos ou Micro-Contos, são um ótimo exercício de compressão de idéias, ritmo e acontecimentos,cabendo o sucinto e o poético no mesmo espaço. Servem também para testar histórias, ou livrar-se delas em poucos caracteres. Obviamente de algumas você não vai se livrar pois vão pedir mais e mais, então o micro vai virar, mini, depois conto e até um romance ou roteiro. 
Já aconteceu, de um poema virar conto, e agora estar em processo de virar romance, mas isso é outra história...  


Das possibilidades de um olhar magnético

E se antes eu sentia repulsa, nojo e ódio daquele ser, segundos depois do feito, fui alcançado e invadido com opressão por outros sentimentos. No entanto esse novo sentido não tem nada de terno, mas uma absurda ligação como se dum momento a outro me tornasse gêmeo siamês de um inimigo.
Antes, só fúria e coragem para esmurra-lo, porém, quando o soco adversário me acertou em cheio, fui tomado de certeza, o rosto inchado pulsando e o sangue já descendo pelo supercílio me confirmavam a permissão para o crime.
Saquei a faca e o imobilizei ainda certo das minhas intenções. Enquanto a ponta da arma pressionava seu corpo, nenhuma hesitação me confundia. Mas... Com a força continua do golpe lento sobre a carne... O aço atravessou as roupas, a pele, as fibras e camadas de gordura, atravessando o interior do corpo como se fosse um vácuo, só parando ao chocar-se com a costela e já atingindo o chão debaixo de nós.
O suspiro fraco e a morte instalada foram como a conclusão de um exorcismo, apagando do rosto toda arrogância, trairagem, e outros tantos feitos daquele tremendo filho da puta. Agora uma vítima pacata, serena, nem mais sua hipocrisia e canalhices me davam nojo outra vez.
Não existe o arrependimento moral, mas o peso da maldição, ou melhor, da consequência  de ser a última visão de vida daqueles olhos, e ter naquele corpo o feito mais significativo da minha vida.  Se de fato passa um filme em nossa frente ao morrermos, àquele longa tinha o meu rosto como marca d’água, ou a minha assinatura como co-roteirista. E agora, como uma mancha, uma sujeira que não quer sair, vive impregnado em mim.

Santana

Santana não se abalava com o sorriso que via nos outros, e que esses outros direcionavam a terceiros. Não se importava tanto nem tentava imprimir em sua boca dura algum sorriso forçado. Pois sabia que a felicidade está inserida também nas bocas sérias, curvadas para baixo com lábios rachados e sobre tudo, no seu caso, a felicidade estava expressa abaixo e entre o seu enorme bigode e em suas lembranças de General.

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Ah... A Felicidade... Santana a via refletida em tudo, inerente inclusive aos momentos tristes, eram todos repletos de uma felicidade que apenas Santana acreditava de forma inabalável... Usar aquele vestido era outra forma de incutir o seu corpo todo de felicidade.
Sabia Santana que o ato de usar seu vestido era incutir o seu corpo todo de felicidade. Até mesmo a lembrança de velhos vestidos que ela perdeu, estavam imbuídas de felicidade, o tecido envelhecido ou a cor démodé, eram para Santana, representações vívidas de pura felicidade.

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Observavam os moradores, como Santana estava crescendo, agora inclusive tinha Shopping Center, e transito infernal, diziam os outros pessimistas, moradores mais velhos que gostavam do bairro a moda antiga, casas e alguns poucos comércios, cujos donos eram os próprios moradores de Santana, um lugar incerto onde a felicidade pairava no ar, podia sentir o seu cheiro, mas logo em seguida ia embora empurrada pelo vento.


A incrível história do homem que desistiu de viver...

Era uma vez um homem que desistiu de viver... No entanto, não se jogou da ponte, nem tomou veneno ou deu um tiro na têmpora, embora o som da palavra cicuta lhe agradasse aos ouvidos, e também lhe fazia lembrar daquele filósofo com nome de jogador. E assim um misto de dó e dor faziam com que ele gostasse ainda mais daquele homem, mais do filósofo do que do jogador, já que este último nunca defendera as cores do seu time de coração.
Um pequeno homem, diziam sobre o filósofo, baixo e feio diziam as más línguas dos historiadores. Como Jesus Cristo foi acusado de corromper a juventude com suas ideias. Fato é, que todos esses homens, nenhum tinha desistido de viver, mas ele sim tinha.
Alguém lhe disse que; desistindo de viver, ele se transformaria em uma pessoa extraordinária. Não extraordinário de bela, maravilhosa exemplar, mas fora da ordem, fora do normal, do que os outros acham certo e maravilhoso. Desistindo ele estaria  fora da luta bravia e rotineira “Que só os fortes aguentam”, diziam com olhos fechados e dedos em riste como se apontassem aos céus.

Mas ninguém entendia que desistir não era ficar trancafiado numa sala vivendo sobre a cama. Nem jogar-se dum alto prédio ou na frente do trem. Muito menos que todas essas possibilidades, com uma admirável destreza de não fazer mal a ninguém, nem mesmo a ele. O Homem tinha desistido de viver, mas continuava a pagar suas contas, ia ao trabalho, subia escadas, trocava ou comprava novas roupas e lavava a calçada aos finais de semana, tudo o que as outras pessoas cheias de vida faziam, mas ele... tinha desistido.


Um ataque cardíaco... E ganhou coroas, medalhas, odes e músicas.
Os mais distantes lamentavam profundamente sem lembrar do quão era duro a convivência com ele. De longe o achavam ainda uma ótima pessoa.
- Que perda irreparável diziam os próximos a esses. Mesmo sem conhece-lo.
Um ataque cardíaco e ficou lindo, esbelto, sereno, herói, um martir.
Depois do ataque cardíaco seus trabalhos viraram obras primas, as frases chatas que sempre repetia ditos populares, um hino.
Depois do ataque cardíaco o amor incondicional,
todas as conquistas vieram depois do ataque cardíaco junto de abraços demorados e choro incontrolável.
Quase o chamaram de santo ou algo próximo disso.
Em contra partida muitos outros continuaram a acha-lo um babaca, derrotado, azarado, um bosta.
- Foi sempre um nada, este é o o seu maior feito. Um ataque cardíaco. Diziam implacáveis.
Mas nínguém sabia que sua superioridade, principalmente agora, estava no fato de não ligar pra mais nada, seu último pecado em vida foi partir com o ar esnobe de quem diz: - Foda-se, a tudo...
Talvez pudesse melhorar ou diminuir a intensidade disso se não estivesse morto.
Mas era impossivel não se achar superior enquanto desfrutava de seu nirvana particular onde não sentia nem se importava com mais nada, ma-is na-da.
Sketchbook de quem não sabe desenhar

Deu uma passadela com os olhos na manchete porque a matéria era muito longa. 
Preferiu o resumo e antes a resenha porque a obra era longa demais.

Tomou veneno, porque subir ao 30º andar demoraria demais, porém, enquanto engasgava com o líquido, sentia falta de ar, espasmos e dores pelo corpo, arrependeu-se, pois a queda seria de fato, muito mais rápida.
Correu 5 KM porque não cabia em sua rotina treino pra maratona.

Contudo, diante de todos os tropeços e fracassos, não explodiu, embora quissesse ser uma granada em fagulhas. Outro dia com o humor um pouco mais afetado, desejou ser uma bomba de Napalm ou nitroglicerina líquida distribuída nos rios da cidade. Independente do que fosse, não teria tempo pra juntar os cacos e por isso, preferiu ficar avançar ao estágio de zumbi, porque não tinha tempo para o velório nem as burocracias do necrotério.

Escreveu um haicai porque nem poesia ou soneto tinha tempo, nenhuma rima em suas frases a não ser as acidentais, nem conto, nenhuma história para contar, nem romances ou enlaces eram comportados pelas horas daqueles dias.


Em umas das tarefas do primeiro módulo da Clipe 2015, curso de preparação para autores realizado pela Casa das Rosas em São Paulo, foi proposto aos alunos, investigar, observar e exercer os diferentes tipos de narradores em suas histórias.

Abaixo seguem três versões de uma mesma história contadas por narradores diferentes.

A incrível história do homem que desistiu de viver

3ª PESSOA - narrador oniciente, aquele que sabe de tudo, pensamentos, ações dos personagens e o porque de cada coisa.

Era uma vez um homem que desistiu de viver... No entanto, não se jogou da ponte, nem tomou veneno ou deu um tiro na têmpora, embora o som da palavra cicuta lhe agradasse e lhe fazia lembrar daquele filósofo com nome de jogador. E assim um misto de dó e dor faziam com que ele gostasse ainda mais daquele homem, mais do filósofo do que do jogador, já que este último nunca defendera as cores do seu time de coração.

Um pequeno homem, diziam sobre o filósofo, baixo e feio diziam as más línguas dos historiadores. Como Jesus Cristo foi acusado de corromper a juventude com suas ideias. Fato é, que de todos esses homens, nenhum tinha desistido de viver, mas ele sim tinha.

Alguém lhe disse que; desistindo de viver, ele se transformaria em uma pessoa extraordinária. Não o extraordinário de belo, maravilhoso exemplar, mas alguém fora da ordem, fora do normal, fora daquilo que se esperava das pessoas corretas. Desistindo ele estaria  fora do combate bravio e rotineiro “Que só os fortes aguentam”, diziam com olhos fechados e dedos em riste como se apontassem aos céus ou a outra verdade absoluta.

Mas ninguém entendia que desistir não era ficar trancafiado numa sala vivendo sobre a cama. Nem jogar-se dum alto prédio ou na frente do trem. Muito menos que todas essas possibilidades, com uma admirável destreza de não fazer mal a ninguém, nem mesmo a ele. O Homem tinha desistido de viver, mas continuava a pagar suas contas, ir ao trabalho, subir e descer escadas. Trocava ou comprava novas roupas e lavava a calçada aos finais de semana, tudo o que as outras pessoas cheias de vida faziam, mas ele... tinha desistido.

2ª PESSOA - O narrador é próximo do personagem, tem algum grau de parentesco ou intimidade, pode-se direcionar diretamente a ele, emitir sua opinião sobre as ações e pensamentos do personagem, no entanto, aqui o narrador não sabe de tudo, mas baseado no conhecimento que tem o personagem, pode "prever" algumas de suas ações.

Homem!!! Pra que desistir de tudo? Que fraqueza é essa? Bom menos mal que não vai se jogar da ponte, era só o que faltava né? Também não vá querer dar uma de poeta romântico e contrair tuberculose por ai, ou outra doença fatal. Seja homem que história é essa de desistir de viver?

No entanto, lhe aconselho por esses dias a ficar longe daquelas leituras que lhe deixam tão pra baixo, Sócrates que foi mal interpretado e injustamente morto, eu sei, é de foder uma coisa dessa. Mas também o que você quer? Em contra partida disso outros paspalhos dão com uma doze na cabeça, aquele louco varrido do Hemingway, não é parâmetro pra ninguém! Esqueça! Pense então no Sócrates do meu Timão, sei que você lamenta o fato dele nunca ter jogado pelo Palestra, mas são coisas da vida, paciência.

Por outro lado amigo, esqueça essas pessoas que dizem que desistir é coisa de fracos, é pecado e outro monte de baboseira. Porque eles burros levam tudo pro lado literal da coisa, acham que você vai se matar mesmo, se jogar da ponte, cortar os pulsos e esse monte de merda que as pessoas fazem por aí. Não é assim né?

Pois bem amigo, eu digo a você não desista, digo isso como conselho, mas a escolha é sua e não irei gostar mais ou menos de você por isso. Na verdade vou virar as costas e deixar você com seus pensamentos e filosofias, ou a total ausência desses.

Tranquilo, sem remorso de deixa-lo só, pois sei, que você continuará lavando a calçada, vai continuar a pagar as contas, ir ao trabalho, subir e descer escadas. Independentemente do que você escolher, ninguém vai notar, nem vão te aplaudir ou vaiar, ninguém vai perceber, mas eu sei amigo... que você... Desistiu...


1ª PESSOA - É o próprio personagem que narra a história, portanto, todas as ações e a narrativa por completo segue o seu ponto de vista, opinião e tendências, pode ser o tal do narrador não confiável que pretende que o leitor aceite a sua história.

Primeiro veio a revolta por tudo e por nada, vontade de explodir e ser a bomba que levaria tudo ao redor para os ares. E foi dia e noite, meses e anos de altos e baixos que levaram a cicatrização forçada das feridas, e o corpo e a alma calejarem. A partir daí, não quis mais nada, nem xingava mais o juiz ladrão ou o centro avante perna de pau que perdera mil gols. Nem políticos safados nem amores traídos, chegou o tempo em que eu desisti de tudo, tudo mesmo, inclusive de viver...

Contudo, a consequência de desistir não seria pular da ponte, cortar os pulsos ou beber cicuta igual fizeram Sócrates beber. Ah... Eu desisti até mesmo da filosofia e meu último pensamento espontâneo foi imaginar o Dr. Sócrates vestindo a camisa do Verdão. Mas também não ligava mais pra isso, desisti do grito de gol no meio da comemoração enquanto a rede ainda balançava.

Eu bem sei que nenhum dos Sócrates e outros mártires ou homens admiráveis tinham desistido de viver, mas eu desisti. Então vieram  todo tipo de gente conversar comigo, religiosos, moralistas e falsos amigos em tom de alerta dizendo: Que se eu desistisse, seria alguém extraordinário, e explicavam como se eu fosse uma anta e não entendesse. Extraordinário diferente de belo, exemplar, mas sim fora da ordem, fora do normal, fora da luta guerreira de cada dia que só os fortes aguentavam. E nesse ponto aumentavam o tom doutoral dos que sabem de todas as coisas.

Mas ninguém entendia que desistir não era de fato dar um fim na vida. Afinal, eu continuaria a pagar as contas, subir e descer escadas, comprar roupas novas, lavar a calçada e um tanto de outras coisas que essas pessoas cheias de vida faziam, mas eu ora bolas, tinha desistido...

Continuando a divulgar o livro Do Som ao Impacto, lançado pela editora Multifoco, convido a todos agora para participar de algo diferente. Trate-se do vídeo-conto My Funny Valentine, um dos contos do livro, que disponibilizo aqui e convido leitores, blogueiros e curiosos a fazer a leitura em conjunto desse texto.

O conto está separado por parágrafos, que deve ser escolhido e gravado em áudio e vídeo, envie para a página do Moviemento no Facebook, (não esqueça de salvar o arquivo ou vídeo, ou link com o nome do conto e parágrafo escolhido) os mais criativos serão escolhidos e então incluído no "longa" de leitura vídeo e áudio do vídeo conto My Funny Valentine. 

Abaixo link para inspiração da música que inspirou o nome do conto, e acima, ilustração sugestiva sobre a personagem Helena... Um imã para cafajestes...



My Funny Valentine

Parágrafo 1

Os carros iam passando diante de seus olhos calmos, curiosos. Debruçada no banco traseiro, ignorava mais uma advertência de sua mãe a respeito de sua postura dentro do veículo. A menina observava os diferentes carros e pessoas que se aproximavam do automóvel de seu pai. Tinha enjoado de perguntar quanto do percurso ainda tinha de ser percorrido.

Procurou outras coisas merecedoras de sua atenção.As mãos apoiadas no queixo, de tempo em tempo, soltavam-se explodindo um sincero aceno em direção aos passageiros dos outros carros. Com o balanço de suas mãozinhas, seus lábios formavam sem emitir som a palavra “tchau”. Virou-se! Permaneceu sentada corretamente no banco de passageiro, do jeito que sua mãe queria que fosse. Decidiu que mais nada merecia sua atenção. Observando aquela natureza
patética do interior de um automóvel, adormeceu.


Parágrafo 2

Em seu sonho o carro de seu pai deslizava sutilmente pela estrada, não havia outros carros e podia se ver lá na frente a praia, não havia em sua mente a complexidade da arquitetura das cidades. Para entrar na água, que ela não mais temia, era só descer do carro e pronto, de encontro às primeiras ondas, que em seus sonhos eram sempre pequenas.

Quinze anos se passaram. Ela tem agora o andar de uma mulher. Se os seus 24 anos não a tornavam mulher por completo, intelectualmente ela estava emancipada, diferente de outras moças de sua idade. Conseguia compreender os filmes daquele diretor, entendera que para certas artes precisamos estar prontos, aptos, merecedores de seu entendimento. Uma menina mulher, uma mulher ainda menina, com busto, coxas, cabelos, cintura e olhos pretenciosos sobre os homens ao seu redor e complexos para as mulheres que o confrontavam.


Parágrafo 3

Descia a rua Augusta rumo ao Espaço Unibanco. “Curta as Seis”. Filme Europeu! Assim Helena era mais Helena!
Discreta e elegante, dava margem para a suspeita de ser uma prostituta. Mantinha um sorriso entreaberto no rosto, como quem cumprimenta a noite que se aproxima; e todos os homens como possiveis clientes. Num modo pessoal de crueldade misturado a um humor requintado que só mesmo ela achava graça.

As luzes no cabelo iam se apagando, era preciso voltar ao salão de beleza, porém era preciso esperar para ter dinheiro e voltar ÀQUELE salão. Os seus lábios estavam um pouco ressecados, tinha visto numa revista a receita de uma mistura de frutas para hidratá-lo. O seu rosto estava perfeito, a mudança de alimentação desde o mês passado fizera efeito de fato. Com algumas roupas ainda se achava um pouco gorda. Outras, porém, davam-lhe a cintura perfeita
e a aparência de estar dois quilos acima do peso.
De acordo com o que ouvira de um amigo, era a
perfeição física de uma mulher segundo os homens,
ou segundo as bichas como ele. 


Parágrafo 4

Estava satisfeita consigo, com o que via no reflexo dos vidros dos carros e lojas, um sorriso ameaçava tomar seu rosto tamanho era o orgulho dela mesma. Saindo do cinema, um tour pelo centro. Fazia questão de pegar o “Avenidas”, adorava o trajeto daquele ônibus por mais que levasse maior tempo até o apartamento. Helena era um ímã para cafajestes...
- Alo!? Alo! O telefone a acordara logo pela manha.
- Oi, é você, por que ligou tão cedo?! Ok, estou a caminho. Só me dê um tempo para tomar uma ducha, e me aprontar.
Normalmente acordava com o despertar de seu estéreo programado para tocar a música 10 do CD, aquela música que lhe deixava tanto triste quanto alegre, que lhe fazia atingir um sublime sentido. My Funny Valentine, uma canção que dava a tudo razão, talvez por aguçar ao máximo seus sentimentos, só mesmo um despertar surpreso despreparado não fazia sentido. Um ímã para cafajestes...


Parágrafo 5

Aprontou-se! Aquele vestido florido a deixava divina, as pontas engomadas, o busto justo, bem apertado, ela ficaria por se admirar a tarde inteira. O batom, no entanto, não lhe agradava, mas sendo quase uma exigência de Tadeu ela achava que valia o esforço de aturar o acessório.
No caminho suspiros e assobios. Ela não olhava, nem um sorriso soltava, não se empolgava, direcionava essa “energia” vinda de fora para sua autoestima, não deixava transparecer o seu não-ligar. 
Lembrou-se de um poema de seu admirador secreto, não era de todo ruim, pretensioso, mas de algum valor:
“Eu te resgataria Helena Troiana, faria, mitologia onírica. Desta realidade que sem tu, Configura-se aterradora! Caminho único para o sepulcro...”


Parágrafo 6

Chegando à casa de Tadeu, deparou-se com os amigos dele que lá estavam, e eles, com suas coxas. Não teve, entretanto, tempo para se sentir mal, puxada pelo punho foi levada para dentro da casa. Com os pés, Tadeu abriu e fechou a porta do quarto, deitou-a na cama ainda com lençóis e cobertores desarrumados, e com uma mão de cada lado de sua cintura foi puxando sua calcinha, certificou-se da
porta encostada.
- Como adoro esse seu vestido. Murmurou com o rosto colado ao de Helena. Permaneceu estática, olhando para o teto. Impossível partilhar do prazer que ele encontrava ou propunha, em dado momento quase adormeceu, conseguia por fim dominar a repulsa àquele momento. Afinal de contas, depois alcançava certo deleite enquanto dormia.


Parágrafo 7

Quando acordou encontrou um rosto sereno lhe esperando, era Tadeu com um sorriso amarelo, desviou o olhar pela janela onde pode ver que já era noite. Tadeu disse algo, ela pouco se importou.
Fechou os olhos. Odiou aquele olhar falso simulando carinho, o rosto ardia, sabia que estava vermelho por causa da barba cerrada dele. Sem responder, levantou-se e foi direto ao banheiro, sonolenta, permaneceu debaixo do chuveiro. Tentava se lembrar de algum filme no cinema. Pensava na nova fase do cinema francês e na exposição, que só iria até este fim de semana das fotos na noite clandestina de Paris. Aquela reportagem da revista sobre a vida de garotas brasileiras que faziam programas na
“Cidade Luz”, tinha mesmo lhe chamado a atenção.
A voz de Tadeu atravessava seus pensamentos de forma irritante. Parou de pensar e continuou apenas debaixo do chuveiro...


Parágrafo 8

Saindo do banheiro, viu Tadeu dormindo nu na cama, boca e pernas abertas, satisfeito e indiferente a tudo. Vestiu-se. Arrumou o decote do vestido, não precisava mais do batom. Na rua parou o primeiro taxi que atravessou seu caminho. Dentro do carro aproximava-se de sua mente uma clareza, seguida de alguma confusão, eram flashs da rua Augusta e
das ruas de Paris, letreiros e anúncios de cinema, a música no rádio atrapalhava sua tentativa de assoviar baixinho: “My Funny Valentine”. 
Ela disse NÃO às lágrimas que se aprontavam nos olhos, pensava na menina que fora e na mulher que se tornara. Uma última olhada para trás, entre possíveis destinos apenas pediu ao motorista que seguisse em frente.

Helena... Era um imã para cafajestes...