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Houve um tempo que desenhos eram somente para crianças, histórias ingênuas, personagens caricatos e músicas… Muitas músicas entre uma cena e outra. Mais tarde os produtores perceberam que ao fazer uma animação para toda a família, diminuindo cenas intermináveis de canções e com personagens mais complexos e divertidos, o sucesso seriam bem maior arrastando para os cinemas não só as criancinhas, mas os pais delas, irmãos mais velhos e até mesmo cinéfilos de carterinha que aguardam ansiosos tanto pelo novo filme de Almodovar quanto pela próximo lançamento da Pixar.

Assim, neste cenário o longa de animação “A Pequena Loja de Suicídios” mistura todas essas tendências sem abrir mão de longas canções caminhando no viés de tudo para ser um filme familiar mesmo tratando de um tema tão difícil.

Dirigido pelo francês Patrice Leconte numa co-produção de Bélgica, Canadá e França, o longa “A Pequena Loja de Suicídios” conta a história de uma cidade onde todos os moradores vivem como moribundos, tristes, sempre pensando na morte e principalmente no suicídio tendo esse como a única solução para suas vidas. Entre prédios, casas, ruas e comércios, uma pequena loja é a principal atração para esses infelizes. Trata-se de uma pequena loja especializada em artigos para o suicídio, ali todo tipo de produto para essa finalidade é encontrado. Cordas, armas, facas, venenos e muitos outros produtos. Administrada pelos Tuvache, prestam um serviço especializado e profissional com o lema: Morte ou reebolso. Mishima, o patriarca, é o principal responsável pela loja, ajudado pela mulher Lucrèce e os dois filhos mais novos – também obcecados pela morte – Marilyn e Vicent.


Tudo parece tranquilo, sob controle. Os clientes jamais voltam para reclamar dos serviços prestados pelos Tuvache e, como um total paradoxo à rotina da família, a vida segue. Lucrèce está grávida e dá a luz ao pequeno e sorridente Alain. É quando toda a confusão tem início. Alain sorri, canta, brinca, elogia e agrada seus familiares, para o espanto e desespero de seus pais, totalmente avessos a esse comportamento. Inconformado com o meio em que vive o garoto junto de amigos traça um grandioso plano para mudar toda a rotina de sua família e de todos daquela triste cidade.

A Pequena Loja de Suicídios trata de um tema bastante difícil e não o esconde em momento algum, no entanto, a habilidade de seus criadores o torna um longa divertido, agradável e porque não dizer inspirador. Os traços dos personagens e cenários são pesados e belíssimos, assim como as cores e todo o clima que cerca cada cena. O roteiro conta com diálogos inteligentíssimos e engraçados assim como as belas canções que compõe o longa. Sim, essa parece ser a principal característica da animação. Aqui as canções não são aquele momento em que queremos pular para a próxima cena, ao contrário, é o respiro e o que desperta, renova a atenção para a história e parece quase impossível não entrar no embalo, que mesmo em francês possuí um ritmo contagiante.

Assim num constante paradoxo o pequeno Alain segue sua missão de mudar para melhor a vida de seus parentes, mostrando-lhes o lado bom da vida, sendo que isso pode também representar a falência dos negócios da família. Ainda neste sentido, o diretor acerta em cheio na dose de criatividade, diversão e inteligência com que dirige a história. De forma até despretensiosa, ele detecta um problema crônico dos grandes centros urbanos e da mesma forma aponta para uma solução, cantando… C’est la vie.


Originalmente publicado no O Cinemista

Com roteiro e direção de Hany Abu-Assad, “Paradise Now” conta a história dos palestinos Khaled (Ali SUliman) e Said (Kais Nashef), amigos desde a infância e agora recrutados para uma missão em Tel Aviv, depois disso, segundo sua crença, irão diretamente para o paraíso.

Khaled e Said trabalham em uma oficina mecânica em meio a carros velhos e a pobreza da Faixa de Gaza. A ocupação israelense como se construísse um grande labirinto, determina os caminhos por onde as pessoas devem andar, fechando ruas e estradas. Nos bares se discute o que fazer com os “colaboradores”, traidores e informantes do inimigo. Enquanto em locadoras e lojas são alugadas ou vendidas fitas com execuções desses colaboradores ou discursos de mártires.

Contudo, até aqui a vida dos amigos segue “normal”, até o momento em que partem para o ataque suicida em Tel Aviv, sem hesitar em nenhum momento. Porém algo sai errado na missão, Khaled e Said se separam e a missão é temporariamente abortada.

É aqui que a trama de “Paradise Now” toma um rumo mais interessante, pois após esse primeiro fracasso, os amigos passam a discordar entre si e questionar os motivos de sua missão e se aquela é a única forma de resolver o confronto e chegar ao paraíso.

De uma forma natural o longa nos faz percorrer os diferentes caminhos que Khaled e Said seguirão, mostrando mais do que o lado político, o lado humano das duas partes sem tomar partido mas lançando interessantes indagações sobre a questão. A direção e roteiro seguem uma linha quase documental, sem interferir com trilha sonora, diálogos ou cenas mais oportunistas no sentido de provocar uma ou outra emoção.


Em sentido parecido as atuações e personagens se alternam diante de suas convicções e revelam de forma superficial mas bem definida, suas histórias, sonhos, dramas, amores e conflitos. Os atores Ali Suliman e Kais Nashef reafirmam de forma muito sutil e plausível, essas pequenas erupções de seus personagens, num interessante limiar entre explanar e sugerir pensamentos e intenções. Rodado em 2005, o longa foi indicado ao Oscar de Melhor filme estrangeiro e concorreu ao Urso de Ouro no Festival de Berlim. O tema é ainda atual, e nesses dias de 2014 os conflitos voltaram a se intensificar. De certa forma fazendo uma alusão ao clássico “Apocalypse Now” (1979) de Francis Ford Coppola, “Paradise Now” soa melhor não como uma afirmação ou anúncio, mas uma pergunta: Paradise Now?

Originalmente publicado no O Cinemista

O diretor Steve McQueen de Hunger (2008), foca mais uma vez patologias que unem corpo e comportamentos socialmente inaceitáveis em Shame

Novamente ao lado de Michael Fassbender no papel principal, com direção e roteiro de McQueen, Shame fala de um assunto ainda mais difícil que o primeiro longa do diretor. Michael Fassbender é Brandon um bem sucedido homem que mora sozinho em Nova York num sofisticado apartamento. Tudo parece perfeito, tranquilo e resolvido na vida de Brandon exceto pelo que desde os primeiros instantes do filme nos mostra. Brandon é viciado em sexo e isso não quer dizer que ele gosta muito, pois é uma doença, um desvio comportamental que não lhe causa prazer algum, muito ao contrário disso, o mantém refém de seus próprios impulsos. Nessa prisão a sua única escapatória é o sexo, seja virtual, com desconhecidos ou prostitutas. No entanto todo esse contato é feito sem nenhuma outra interação, sem nenhum envolvimento se não o sexo, sem prazer e sabiamente tratado pelo diretor sem nenhum erotismo. 

Em meio a esse caos mais ou menos organizado a vida de Brandon sofre uma mudança repentina, Sissy (Carey MUlligan de Driver) sua irmã mais nova aparece para uma temporada junto ao irmão. Se Brandon com sua doença mostra-se avesso a qualquer contato maior com pessoas, Sissy é a exata antítese disso, carente e emocionalmente instável provoca uma drástica ruptura na rotina de Brandon. É nesse novo contexto, focado nessa invasão de uma privacidade já conturbada que o roteiro de McQueen vai explorar.

Em planos próximos e sinuosos a câmera nos permite acompanhar as andanças do personagem em busca de sua “droga”ou administrando sua vida dúbia entre a saciedade e a culpa. Mas é um acompanhamento parcial onde closes sem pernas, braços e outras partes do corpo denotam o que de fato interessa ao personagem. Nisso tudo direção e roteiro são certeiros ainda que econômicos, principalmente nos diálogos e cenas espaçados por longos momentos de silêncio.

Outro ponto forte e certo do longa é a atuação de Fassbender e Mulligan que mesmo tendo pela frente personagens com características opostas e fortes em momento algum apelam para o bizarro ou o exagero fácil. Fassbender tem a habilidade de juntar a frieza e o sofrimento do personagem através de gestos simples e olhares dispersos, sem esperança. Já Carey Mulligan da mesma forma une a doçura e a promiscuidade de Sissy num mesmo tom que soa a disfarce ou inocência.

Conquistando vários prêmios pelo mundo, Shame foi filmado em apenas 25 dias.

Publicado originalmente no O Cinemista


Sob a Areia é o primeiro trabalho em que o diretor francês François Ozon e a atriz britânica Charlotte Rampling realizam juntos, mais tarde em 2003 a dupla voltaria a trabalhar em Swimming Pool – À Beira da Piscina. Pode-se dizer que os dois longas são bastante parecidos em sua abordagem introspectiva à cerca dos sentimentos de uma mulher madura. Além de diretor, François é também roteirista dos dois filmes e neles transita com maestria entre o suspense, o drama e a hipótese do surreal.

Em Sob a Areia Charlotte Rampling é Marie Drillon, uma esposa dedicada ao casamento e empolgada com as férias que irá passar com o marido em uma praia ao sul da França. Jean(Bruno Cremer) à seu modo, taciturno e calado, também parece empolgado. No entanto, enquanto Marie adormece sob o sol Jean vai dar um mergulho e desaparece. Assustada e desnorteada com o desaparecimento do marido Marie sai à sua procura sem saber se ele se afogou, se simplesmente ainda não voltou do “passeio” ou se de fato foi embora. 


Passado tempos do ocorrido, Marie permanece aflita em busca de respostas questionando o seu casamento e as motivações de seu marido. Contesta as evidências apresentadas pela policia e insiste em viver como se nada tivesse acontecido. Visões e conversas com Jean continuam a fazer parte de seu dia a dia, inclusive no conviver com amigos e Vincent, um novo amante, Marie imprime a presença de Jean em todas as suas citações e contextos.

Para o diretor Sob a Areia é um filme sobre o amor: “O filme fala de amor, perda e obsessão. Marie na verdade só se dá conta de que ama muito o marido depois de perdê-lo…” Contudo, o diretor não deixa que o longa percorra um caminho único de interpretação, ministrando o suspense e o surreal em paralelos bem próximos faz com que a história seja intrigante até o último instante.


Entre todos os motores que dão relevância a cada minuto da “fita” talvez o mais poderoso seja a atuação de Rammpling, que buscando a postura de quem mente pra sí mesmo consegue nos confundir também, sobre aquilo que é verdade e principalmente sobre o sentimento de despendemos com essa criatura; admiração e pena…

Originalmente publicado no O Cinemista



Polissia mostra o cotidiano de um departamento de policia especializado em crimes contra crianças, estupros, abusos, pedofilia, abandono e outros. Um drama documental e corajoso, escrito e dirigido por Maïwenn Le Besco que venceu o prêmio do Juri do Festival de Cannes 2011.

Além de escrever e dirigir Maiwenn também atua. Faz o papel de Melissa, fotografa que passará uma temporada acompanhando o cotidiano dos policiais afim de montar um livro. No entanto, seu personagem pouco colabora ou importa para a história. Apesar desse elemento descabido, o grande trunfo de Polissia é justamente mesclar a dura realidade com a qual os policiais diariamente se confrontam com momentos mais amenos de pura rotina e ainda alguns raros momentos de descontração.

Pelos vários personagens e tramas paralelas, o longa flerta com o esquema de seriado. Por outro lado, é muito bem amarrado e resolvido sem deixar que a história vá para muito longe do tenso ambiente da delegacia. Há também uma tênue linha documental mas muito sutil que em momento algum se torna didática ou cansativa. Vale ressaltar a coragem de não se desviar do tema ou amenizá-lo de alguma forma, consequencia disso são alguns momentos e imagens bastante fortes. Aqui Maiwenn encontrou um ótimo parâmetro para contar uma história sem esquecer da denuncia e vice-versa.



Propositalmente escrito errado, “Polissia” simula a escrita de uma criança, que embora façam parte do universo do longa são tratadas como coadjuvantes. Não é nelas que a camera se demora. Com movimentos rápidos entre um personagem e outro, o que se quer mostrar na tela são as reações e os sentimentos despertados em cada situação e cada personagem. Por sua vez, falta aqui alguém que se classifique como personagem principal, que em Polissia é muito mais uma Coisa do que alguém, são sentimentos como o Amor e o Horror respectivamente presentes em lugares e situações até então impraticáveis.



Originalmente publicado no O Cinemista

Crítica originalmente publicada no O Cinemista repuplicada aqui no Moviemento, vale a pena ver o filme e depois conferir se sua opinião bate com o texto daqui... Há quem prefira ver os filmes com o menor número de informações possíveis, outros já se armam com mais dados, enfim, uma ótima opção pra quem ainda não viu e uma oportuna chance de rever este grande filme, fica a dica...


PEDRO ALMODÓVAR E O CINEMA DO 
COTIDIANO IMPROVAVEL…

O quão surpreendente podem ser os filmes do espanhol Pedro Almodóvar? Se alguém já arriscou algum palpite provavelmente foi mais uma vez surpreendido a cada novo lançamento do espanhol. Engraçado que, contudo, os seus esquemas e a sua forma parecem ser sempre os mesmos. No entanto, os temas e principalmente a força com que os invade é que causa tal surpresa, para não dizer choque. Almodóvar faz uma visita aos ditos “tabus”, defrontando-os: homossexualidade, erotismo, estupro, pedofilia, mudança de sexo, etc.

Em “A Pele que Habito”alguns desses elementos estão presentes com a mesma força e clareza que desconcerta e marca. Todavia, não cabe aqui a questão sobre o que leva o diretor à esses temas. Corajoso, controverso ou oportunista, a principal qualidade de Pedro Almodovar é o apuro técnico crescente de seu trabalho, com dezenas de filmes e prêmios em sua carreira. Não resta duvida de que este é um grande contador de história. Como pode ser percebido em A Pele que Habito, os personagens de Almodóvar e suas histórias, por assim dizer, são sempre movidos por segredos, pelo drama desses serem descobertos ou pelo trauma de te-los que guardar. Excêntricos, estranhos, violentos e até maléficos, há sempre um desconcerto dentro dessas pessoas que reverbera ao seu redor das maneiras mais fortes e sofríveis.

É um segredo que move o personagem de Antonio Bandeiras em A Pele que Habito. Roberto é um renomado cirurgião plástico empenhado em “produzir” geneticamente uma pele humana que seja mais resistente, o que segundo ele poderia erradicar doenças como a malária e outros males de que sofre a humanidade. Para isso mantém numa espécie de cativeiro Vera, sua cobaia em quem faz teste de resistência a fogo e picadas de mosquitos, lhe prometendo a pele mais resistente do mundo. Quando está fora em outros compromissos ou em palestras divulgando seus avanços e tentando convencer a comunidade científica do benefício de usar tal tecnica, sua mãe é responsável pelos cuidados de Vera.



Certo dia Marilia sua mãe recebe a inusitada visita de Zeca, seu filho a muito tempo desaparecido. É tempo de carnaval e Zeca esta vestindo uma fantasia de leopardo, na verdade aquele é um disfarce e o carnaval a brecha para conseguir fugir da policia que o persegue após um assalto mal planejado. Após esse tenso reencontro, que termina com Marilia feita de refém, Zeca descobre Vera trancafiada em um quarto. Seu rosto o faz lembrar de alguém do passado, alguém com quem teve e ainda tem um forte sentimento. Tomado por esse sentimento invade o quarto de Vera e ainda mais intenso a estupra, neste momento Roberto aparece e mata seu meio irmão. Este será o primeiro momento de alguma ternura entre Roberto e Vera, deixando de lado os papéis de médico e paciente ou cientista e cobaia, após uma infeliz tentativa de sexo os dois apenas adormecem abraçados. Neste momento o filme se divide voltando a um passado remoto e trágico que explicará o papel e o caminho de cada um até aquele momento…



Através desse artifício no roteiro, Almodovar reconstruirá a história de cada um desses personagens que em verdade estão sempre tentando remontar peças importantes de suas vidas. Ainda seguindo características marcantes do diretor, atuações teatrais próximas de um exagero proposital e cores fortes, quase sempre saturadas, vão dando formas ao cinema do espanhol. Quando começou as filmagens de A Pele que Habito, Almodovar dizia que queria fazer um filme de terror sem gritos ou sangue e consegue atingir o ápice desse sentido através do caos do desconhecido e do improvável, que em seu trabalho é a principal matéria prima…


Direto do Cinecult , Cinemista, crítica de A Bela da Tarde, com Catherine Deneuve e direção de Luis Bunuel.


Um casal apaixonado, uma esposa linda e recatada, um marido presente e atencioso, essa é a impressão que temos de Séverine e Pierre Serizy durante os primeiros segundos de “A Bela da tarde”, enquanto os dois passeiam numa carruagem aparentemente de forma romântica. Minutos depois o marido ordena que a carruagem seja imediatamente parada, arrasta a mulher para dentro da mata e pede ao cocheiros que à amarrem numa árvore e comecem a chicote-la para depois abusar sexualmente da esposa. Mas calma, tal brutalidade não passou de um sonho, de um devaneio de Séverine (Catherine Deneuve), uma moça tímida, de uma sensualidade contida mas que mesmo assim desperta o desejo dos homens e a curiosidade das mulheres.


Em seus pensamentos mais recônditos Séverine alimenta estranhos desejos sexuais e um profundo descontentamento com os prazeres que o marido pode lhe proporcionar. Quando tem conhecimento da existência de um discreto bordel de Madame Anaïs, Séverine dá inicio a busca da realização de suas obsessões. O endereço Cité Jean de Saumur, nº 11, ressoa em sua mente, ainda que temerosa Séverine mergulhará enfim num mundo que lhe é totalmente avesso as suas convicções sociais, deparando-se com personagens e situações bizarras que no entanto, não a assustarão mais.

Essa é a história de “A Bela da Tarde”, que segue com um clima de surrealismo e suspense, talvez essa a maior qualidade do trabalho do diretor Luis Buñuel, imprimir tal clima surrealista de forma discreta, nas pequenas coisas, nos pequenos gestos e olhares dos personagens. A sensação é a de que em todas as cenas, algo vai eclodir na tela, uma situação ou um desvario virá a tona. Se as coisas realmente acontecem ou são apenas desejos íntimos de Séverine ou mesmo de Pierre seu marido, tudo permanece num leque de opções que o roteiro apresenta. Assim, mais do que um drama surreal que se “explica” e se utiliza de tal característica “A Bela da tarde” soa melhor como um intrigante drama psicológico, vivido por um personagem atormentado por estranhos desejos secretos.


A atuação de Catherine Deneuve corresponde à complexidade de sua personagem, a atriz compila gestos e olhares dúbios que a todo instante confundem ou escondem sua verdadeira personalidade. O filme ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza e teve uma “continuação” filmada em 2006 “Sempre Bela” onde um homem 38 anos depois reencontra a esposa de um amigo, que se prostituía. Antes de filmar A Bela da Tarde, a atriz Catherine Deneuve interpretou outra personagem com sérios distúrbios sexuais em “Repulsa ao Sexo” (1965) de Roman Polanski. No longa, Catherine é Carol Ledoux, uma bela mulher que é sexualmente reprimida e vive com sua irmã mais velha. Ela constantemente resiste aos assédios do seu namorado e também desaprova o amante da irmã. Quando esta viaja com ele em férias, Carol fica sozinha no apartamento e se afunda em uma profunda depressão, passando a ter várias alucinações. Reza a lenda que a atriz teria “ganho” seu papel em “A Bela da Tarde” após o diretor ver sua atuação em “Repulsa ao Sexo”.

Divulgando o material publicado no O Cinemista na coluna Cinecult, dessa vez o texto é sobre Swimming Pool, filmaço do diretor François Ozon

A BEIRA DA PISCINA…
Sarah Morton (Charlotte Rampling) é uma escritora de romances policiais, uma mulher recatada e desconfiada. O sucesso de público e crítica conquistados por seus romances, já não lhe satisfaz. Inquieta com a situação Sara parte para a casa de seu editor John Bosload, em uma pequena cidade na França. Lá ela terá a tranqüilidade necessária para mergulhar em seu trabalho a fim de produzir algo inteiramente novo, capaz de surpreender a crítica e o público.
No entanto, em meio aquele cenário bucólico e paradisíaco, Sara terá a repentina aparição de Julie (Ludivine Sagnier), filha de John, para dividir a casa com ela. Julie é uma garota linda, sensual, cheia de vida e apreciadora de exageros de todos os tipos.
Desse encontro inesperado e antagônico, nascerá uma estranha e forte relação de atração e repulsa. Fatos que influenciarão de forma inimaginável no romance que vai paralelamente sendo escrito por Sara.


“Swimming Pool” tem roteiro e direção do sempre surpreendente diretor François Ozon, diretor do irreverente “8 Mulheres”(2002) e do pertubardor “Sob a Areia”(2000). Os filmes de François possuem sempre uma dualidade que confronta certo humor com um suspense mordaz, afinando ainda mais os laços da realidade com a insanidade e a psique de seus personagens.
Outro ponto forte de Swimming é a atuação de Charlotte Rampling, que transmite no olhar e nos pequenos gestos as inseguranças e inquietudes de seu personagem, assim como seu papel em “Sob a areia” dessa vez Charlotte executa uma atuação intensamente introspectiva. Ao contrário desse caminho está Ludivine Sagnier no papel de Julie, que explora a sensualidade e o todo o lado explicito de sua personagem, mas fazendo com que o real caráter de Julie seja apenas uma incerta e perigosa suposição para quem se aproxima dela. Assim, François percorre mais uma vez o universo feminino por um viés psicológico, não deixando de demonstrar característica realistas e míticas provenientes desse tema.

UMA OBRA PRIMA FEITA DE ELEMENTOS AUTOBIOGRÁFICOS E DE SONHOS


Em Fellini 8 ½ o cultuadissimo diretor italiano Frederico Fellini admite que sua obra possui elementos auto-biográficos, porém insiste que tais elementos estão no filme de forma superficial. No entanto toda a obra de Fellini é marcada por um rigor autoral.

No longa de 1963 juntamente com um material biográfico, Fellini inseri diversos devaneios, sonhos, imagens e situações surreais criadas pelo diretor. A riqueza dos mundos criados por Fellini perpassam os sonhos, as loucuras e também o mundo circense, são elementos recorrentes em toda sua filmografia marcada pelo inusitado e pela perturbação de questões supra-humanas.


Fellini 8 ½ conta a história do diretor Guido Anselmi (Marcello Mastroianni) que vive um momento delicado em sua carreira, sem saber como dirigir seu próximo filme, vivendo uma crise de inspiração, pressionado pelos produtores e ainda num caldeirão de incertezas entre a esposa e sua amante. Em meio a isso Guido tira férias e viaja para uma estância hidrográfica onde irá buscar a paz necessária para realizar seu próximo trabalho. Mas não é o que acontece, amante, esposa, cunhada, produtores e diversos fantasmas e lembranças do passado insistem em perseguir Guido tornando seu trabalho infértil e doloroso.

Esse é o tema do longa, vencedor de dois Oscars de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Figurino, recebendo ainda outras indicações; Melhor Diretor; Melhor Roteiro Original e Melhor Direção de Arte. Fellini retira o-que-ser-contado a partir do nada, insiste em metalinguagem, um filme sobre a criação de um outro filme, como o próprio diretor confessa, esse trabalho remete a fase pela qual ele passava, um bloqueio criativo que paralisou momentaneamente seu trabalho.


Nos extra do DVD lançado pela versátil, entre entrevistas, making of e outros materiais extras, há um texto onde o diretor descreve o drama vivido, quando era cobrado e aguardado ansiosamente por todos envolvidos no projeto sem que estes soubessem que suas carreiras corriam perigo. Frederico Fellini é um ícone do cinema mundial, toda sua obra é obrigatória para cinéfilos e aspirantes a diretor, roteiristas e enfim a quem quiser conhecer um trabalho árduo e repleto de arte.

Critica originalmente publicada no O Cinemista Cinecult, Felinni8/1 

Escrito e dirigido por Giuseppe Tornatore. Baaria é uma das maiores produções do cinema italiano (no quesito financeiro), dirigido com a segurança de quem conhece o ofício. Tecnicamente perfeito… E mesmo assim, Baaria, filme do aclamado diretor de “Cinema Paradiso”, não convence. Fica preso em seus próprios maniqueísmos. O preciosismo de Tornatore tornam-se, neste longa, não mais que manias, repetições e clichês usados de forma oportunista.


A grandiosa história de Baaria reconta décadas importantes da Itália, período da guerra e do pós guerra, assim como as transições políticas e a luta do partido comunista. Assim, participaremos da trajetória de Peppino Torrenuova e toda a sua saga, desde a sua infância ao conhecimento do amor, a construção da família e a carreira politica. Baaria parece englobar todas as outras histórias contadas pelo diretor em seus outros filmes, a paixão pelo cinema, personagens folclóricos (para não dizer lunáticos), a politica e o amor sempre influenciando e impulsionando as decisões dos personagens, as lembranças nostálgicas e um certo teor autobiográfico, quase explícitos.

Contudo, elementos que são responsáveis por filmes inesquecíveis, como “Cinema Paradiso”, “Malena”, “Estamos todos Bem”, e “O Homem das Estrelas”, juntos e misturados em Baaria são dissolvidos nos 150 minutos do longa o que por diversas vezes o torna cansativo.

Qualquer tentativa de definir Baaria parece ser um paradoxo, pois se o fato de Giussepe Tornatore não conseguir reinventar-se ou atingir outros patamares indica certo desapontamento, por outro lado, a poesia continua presente no trabalho do cineasta, poesia acentuada com a parceria de Enio Moricone na trilha sonora promovendo ainda grandes momentos para o cinema. 

Publicação Original no Cinecult do O Cinemista

Continuando a divulgar os textos publicados no O Cinemista , publico agora aqui no "Moviemento Hiroshima Meu Amor" de Alan Resnais, mais um texto do Cinecult.

PRISÃO DO ESQUECIMENTO

O diálogo do incomunicável, a expressão do inexpressível, compreender e se livrar do passado que não se entende e não se liberta. Essas são tentativas frustradas dos personagens de “Hiroshima Meu Amor”, uma atriz francesa de passagem pelo Japão para gravar um filme contra a guerra se encontra com um arquiteto japonês, ambos perdidos de seus relacionamentos conjugais se encontram em uma país que tenta ainda se reencontrar emocionalmente numa pós catástrofe atômica.

O diretor francês Alain Resnais tenta contar a história do incontável, em diálogos desconexos, distantes, sozinhos. O início do filme é composto de longos momentos de silêncio, contemplação do nada, imagens fortes do bombardeio do qual a cidade de Hiroshima foi alvo.


A trilha sonora melancólica acentua o clima e cada sentimento dos personagens, enquanto estes são a justa contraposição de sentimentos e caminhos a ser percorrido. Elle (Emmanuelle Riva) é uma bela e sensível atriz, no entanto atormentada por um amor do passado que a mantém inerte, como se perambulasse através dos dias e pessoas. O olhar sempre angustiado parece buscar a visão daqueles dias perdidos. Lui (Eiji Okada), ao contrário, quer fugir dos dias passados, e do atual momento de sua vida com um casamento fracassado sem amor. Para isso, o arquiteto encontrará em Elle o caminho para sua fuga ou sua redenção. Nesse romance intenso e descompassado Hiroshima meu Amor alcança maiores vôos do que somente um relacionamento entre duas pessoas, segue inerente, toda uma carga política, e filosófica por trás de todo gesto que se vê na tela.

Sendo um dos precursores da Nouvelle Vague, o diretor Resnais conta uma história densa, utilizando e misturando a linguagem literária à cinematográfica, formatando uma história quase estática, mas ainda sim não linear. Sem dúvida que Hiroshima Mon Amour não é um filme fácil, já que os cineastas da “nova onda” buscavam justamente o distanciamento de produções comerciais, buscando o conflito da imoralidade antes escondida.

Por fim, cabe se dizer que: Para se ver livre do passado há de se entregar a prisão do esquecimento…

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Continuando as publicações do cinecult do cinemista, O Evangelho Segundo São Mateus de Píer Paolo Pasolini.

Diz-se que no projeto inicial do longa “A Paixão de Cristo”, o diretor Mel Gibson não pretendia incluir qualquer tipo de legenda, acreditando que a história de Jesus Cristo se faz conhecida nos quatro cantos do planeta e a sua universalidade faz desnecessária qualquer tradução. Independente de religiões e culturas podemos ver isso em uma cena de “Amistad” de Steven Spilberg, em que escravos aprisionados de navios negreiros fazem a sua interpretação da história de Cristo, sem qualquer tipo de conhecimento ou preconceito “chegam” próximos a essência da história.

Em “O Evangelho Segundo São Mateus” o diretor italiano Pier Paolo Pasolini valoriza a imagem e o silêncio, há claro as legendas e na versão disponível em DVD, existem as opções dubladas e a versão original com áudio em italiano e legenda em inglês. No entanto, o que chama mais atenção no longa é o caráter de certa forma austero de Jesus, essa impressão se dá por outros motivos e não por alguma tentativa do diretor de tentar mudar o caráter do personagem bíblico. Pasolini influenciado pelos ideais neo-realistas formou um elenco todo de “não-atores” e abdicou de maneirismos e instrumentos dramático-sentimentais. Em contra partida, a história originalmente contada pelo apostolo Mateus é cuidadosa e fielmente retratada passando por cada momento registrado no livro, desde o nascimento de Jesus, aos ensinamentos e parábolas, do chamado dos apóstolos à ressurreição.

Embora colorido digitalmente a simplicidade da produção ainda se faz notar, seja no figurino e ou nas locações em que foi filmado. Corte secos e closes estáticos aumentam proporcionalmente a tensão e a importância de cada fala. O amadorismo dos atores apenas colabora para uma maior verossimilhança, não vemos os atores, mas os personagens “vivos” naquele contexto. Destaque maior para o ator Enrique Irazoqui (Jesus Cristo), sua atuação é contida, serena e intensa. Mesmo nos momentos mais críticos da história como na crucificação ou no Getsêmani o ator não apela, não se aproxima de “caricaturas” mas transmite em sua interpretação o caráter reto de Jesus, pronto e ciente de seu destino…

Com o "congelamento" do Cinemista publicarei aqui no Moviemento os textos publicados na sessão Cinecult do Cinemista, começando com Ladrões de Bicicleta de Vittorio de Sica.

Dirigido pelo italiano Vittorio de Sica, um dos precursores do Neo Realismo, clássico do cinema italiano, Ladrões de Bicicleta mostra-se influente ainda nos dias de hoje, tanto pelas técnicas quando pelo tema abordado. De um prédio público um funcionário segurando uma lista de nomes chama por Ricci, nome que não se encontra na aglomeração da escadaria. A câmera segue percorrendo a rua e o seu movimento, Ricci está sentado, cabisbaixo na calçada até que percebe que sua sorte pode estar mudando. É quando lhe surge a oportunidade de trabalhar como “Colador de Cartazes”, trabalho simples mas que lhe renderia um ordenado capaz de manter uma vida digna e cuidar da mulher e dos dois filhos. No entanto há uma condição, para tal função o trabalhador precisa possuir uma bicicleta. Para recuperar a bicicleta empenhada Ricci e sua mulher empenham suas roupas de cama. Durante o seu primeiro dia de trabalho, Ricci tem sua bicicleta roubada…

O Realismo de De Sica, o seu relato da verdade, carrega e ironia, o improvável o imponderável da vida. Contrapõe justos e injustos, desmistifica, justifica o trabalhador e o ladrão. Essa é a história de Ladrões de Bicicleta, mais do que uma história é o retrato de uma país sem perspectivas no qual a luta pela sobrevivência faz com que valores morais sejam esquecidos.

Neste cenário Ricci e seu filho Bruno vão percorrer as ruas da cidade, o submundo, vão se deparar com personagens amargos, marginais gerados pela dureza da vida. Vão deparar-se com questões, conflitos morais e éticos. Enquanto o pai luta para manter a sobrevivência da família, o filho observa a figura de pai-herói ruindo aos poucos.

Utilizando atores amadores, apresentando profundidade em cada cena, valorizando a ação em diferentes camadas do filme o diretor faz uso de técnicas documentais, objetivo, bruto, seco, contudo consegue não só chocar, mas também nos emocionar.


Aos 81 anos o diretor Costa-Gravas direciona suas denúncias e investidas no mundo dos banqueiros e do capital que conecta, aprisiona e faz mover todo o globo. Em seu último filme, “O Capital” (2012) o diretor conta a história de Marc Tourneuil (Gad Elmaleh), que recebe a grande oportunidade de sua vida ao se tornar presidente de um grande banco europeu. A partir disso a vida de Marc nunca mais será a mesma, assim como a reação das pessoas ao seu redor, esposa, amigos, familiares e funcionários e acionistas do banco.

Marc é um escritor, braço direito de um grande figurão, presidente do banco, que após ter sérios problemas de saúde, indica Marc como seu sucessor para o espanto de todos os outros conselheiros e acionistas. Porém, esse espanto rapidamente se transforma em oportunidade para usar Marc como fantoche de suas vontades e objetivos.
Aqui está uma das grandes sacada do roteiro, que coloca o protagonista no centro dos acontecimentos se debatendo em contradições, questões éticas e ideológicas frente a um império capitalista que corrompe os mais simples e puros sonhos. Se antes Marc sonhava em voltar a dar aulas e viver de sua carreira como escritor, agora o poder está inserido em sua cabeça e ele fará de tudo para mante-lo. Outro grande acerto do roteiro é quando desmistifica a origem da corrupção do meio sobre o indivíduo, distanciando da crítica pueril e ingênua mostrando que a podridão já está inserida dentro do personagem, só faltando a este a oportunidade certa para se adequar ou burlar o meio e as leis do ambiente. Nem o capital nem Marc são mocinhos ou vilões, mas estão todos propensos a saída mais fácil ou ao uso de uma força maior para alcançar seus objetivos.

O protagonista em alguns momentos intimistas

Nessa viagem Marc irá se deparar com vários tipos de questões, o distanciamento da mulher e do filho adolescente que o diretor num recorte rápido demonstra numa geração aprisionada e isolada aos games e celulares. Nos negócios Marc precisará se desdobrar para dar conta das exigências políticas e interesseiras que circulam funcionários, sindicalistas, acionistas e grandes investidores como o personagem de Gabriel Byrne, numa feliz reaparição nas telas. Em campos ainda m ais obscuros uma misteriosa e belíssima Top-Model fará céu e inferno dos dias de Marc povoando seus desejos mais secretos e ardentes.

O diretor Costa Gravas

 Desde “Z” (1969), passando por “O Quarto Poder” (1997), o desconcertante “Amém” (2002) e pelo controverso e ótimo “O Corte” (2005), a filmografia de Costa-Gravas traz sempre temas polêmicos envolto às grandes corporações, governos, políticos e ao poder e influência que as grandes corporações exercem sobre as pessoas.

De igual maneira “O Capital” mostra mais uma história sem heróis, nem mesmo de anti-herói o personagem Marc Tourneuil pode ser chamado, pois nas histórias que o diretor conta, não existe a preocupação de construir bons ou maus exemplos, mas sim mostrar como esses estão sempre ligados, convivendo lado a lado e em algumas vezes ao mesmo tempo e nas mesmas pessoas.

Tecnicamente roteiro e direção em do longa são bastante econômicos, assim como nos outros filmes do diretor em que acrobacias cinematográficas estão praticamente ausentes. O que para uns pode soar como pobreza, conservadorismo artístico ou narrativo, parece muito mais com um forte compromisso com a história e sua denuncia, numa tentativa de ser o menos parcial e subjetivo possível.

Parte da crítica enxergou em “O Capital” uma repetição que demonstra certo cansaço do diretor de 81 anos, contudo, isso parece algo bem equivocado já que Costa-Gravas mantém-se firme à suas convicções políticas e cinematográficas, principalmente cinematográficas, já que mesmo sendo conhecido como “cineasta político”, não se aproveita disso para panfletar em uma causa ou outra, e por esse viés como se num “upgrade” nos atualiza sobre novas questões políticas e sociais, e este trabalho mostra o quanto fôlego ainda há no cineasta.
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Do diretor canadense Denis Villeneuve de Os Suspeitos (2013) e Incêndios(2010) chega aos cinemas dia 19 de junho a adaptação do romance de José Saramago "O Homem Duplicado" com Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Isabella Rossellini e Sarah Gadon

Conta a história de um homem simples que descobre um sósia, um duplo seu e parte para ma misteriosa jornada para desvendar esse mistério, vea o trailer.

capa da última edição da revista

Após análise de seu portfólio a editora Abril anuncia o fim das revistas Alfa e Bravo. Basicamente pela baixa venda de exemplares e pouco interesse dos grandes anunciantes lá se vão dois ótimos veículos de informação, bons textos e conteúdo diferenciado e acessível.

Bravo lançada em 1997 se propunha a ser um radar do mundo cultural e artístico, trazia o que havia de melhor no mês. Cinema, literatura, artes plásticas, teatro e dança e música. Sempre com ótimos textos que sem o bla bla bla acadêmico tornava o mundo das artes mais instigante. Dando espaço para o novo, o alternativo sem esquecer dos clássicos ou tradicionais. 

A revista lançou periodicamente numeros especiais como "100 Livros Essenciais", "100 Contos Essenciais", "100 Filmes Essenciais", além de números homenageando nomes do cinema e das artes em geral e cidades do brasil, como Bahia e Ceará.

Além de um conteúdo de qualidade, graficamente a revista também era bastante diferenciada, com um design limpo e belo, ótima diagramação de textos e fotos sempre bem exploradas, a revista servia tanto para informar quanto para inspirar.

Particularmente, pra mim a revista sempre foi um parâmetro do que há de melhor para ser ver nos cinemas, nas livrarias, palcos, teatros e museus. Freqüentemente Bravo apresentava um novo artista, saía do obvio que era reproduzido e repetido na mídia de forma geral. Espaços como "Primeira Fila" ou "Apostas de Bravo" focavam o que havia de novo na cena cultural.

Com um texto sempre rico e prático, simples e bem escrito Bravo era única no mercado nacional, nunca elitista e jamais vazia ou superficial, mais do que uma revista, um radar, um incentivador, propulsor da cultura no país.

O Moviemento lamenta essa perda e agrade por todos esses anos de inspiração e informação, mais do que uma salva interminável de palmas... a Revista merece gritos e mais gritos de: Bravo! Bravo! Bravo!

Abaixo algumas capas da revista e um número em especial onde uma carta minha foi publicada.



Carta que enviei à Revista reclamando do corte de uma seção de ficção e de novos talentos, na mesma carta (que foi editada) elogiava o novo design da revista que sempre se manteve linda.

Leio Bravo desde a minha adolescência, foi Bravo quem me fez buscar novos diretores de cinema, novos livros, exposições. Bravo era aquela amigo com quem se podia falar sobre cultura, cinema e literatura... Pode parecer exagero, mas fará falta, muita falta...

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A Pequena Loja de Suicídios, longa de animação numa co-produção de França, Bélgica e Canadá. Vejam o trailer e leiam a crítica escrita por mim no parceiro O Cinemista



Polissia mostra o cotidiano de um departamento de policia especializado em crimes contra crianças, estupros, abusos, pedofilia, abandono e outros. Um drama documental e corajoso, escrito e dirigido por Maiwenn Le Besco que venceu o prêmio do Juri do Festival de Cannes 2011.

Além de escrever e dirigir Maiwenn também atua, faz o papel de Melissa,  fotografa  que passará uma temporada acompanhando o cotidiano dos policiais afim de montar um livro. No entanto, seu personagem pouco colabora ou importa para a história, apesar desse elemento descabido o grande trunfo de Polissia é justamente mesclar a dura realidade com que os policiais diariamente se confrontam com momentos mais amenos de pura rotina e em alguns raros momentos de descontração. 

Pelos vários personagens e tramas paralelas o longa flerta com o esquema de seriado, por outro lado é muito bem amarrado, resolvido sem deixar que a história vá para muito longe do tenso ambiente da delegacia. Há também uma tenue linha documental mas muito sutil que em momento algum se torna didática ou cansativa. Vale ressaltar a coragem de não se desviar do tema ou amenizá-lo de alguma forma, consequencia disso são alguns momentos e imagens bastante fortes. Aqui Maiwenn encontrou um ótimo parametro para contar uma história sem esquecer da denuncia e vice-versa. 

a atriz, diretora e roteirista Maiwenn Le Besco

Propositalmente escrito errado "Polissia" simula a escrita de uma criança, que embora façam parte do universo do longa são tratadas como coadjuvantes, não é nelas que a camera se demora. Com movimentos rápidos entre um personagem e outro o que se quer mostrar na tela são as reações e os sentimentos despertados em cada situação e cada personagem. Por sua vez falta aqui alguém que se classifique como personagem principal que em Polissia é muito mais uma Coisa do que alguém, são sentimentos como o Amor e o Horror, respectivamente presentes em lugares e situações até então impraticáveis.


Ygor MF


Título original: Polisse
Direção e roteiro: Maïwenn
FRA, 2011, Cores, 127 min.
Elenco:
Karin Viard
JoeyStarr 
Marina Foïs
Nicolas Duvauchelle
Maïwenn
Karole Rocher
Emmanuelle Bercot
Frédéric Pierrot