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Aviel desistiu de buscar o “poema perfeito”, com os dias contados pela doença, interrompeu de vez sua carreira literária. Sem tempo para novos estudos, sem força para dezenas de escritas e reescritas, sem paciência para o ócio criativo que de vez em quando visitava retornando com certa clareza e folego para seus projetos. Porém, como ultimo ato, ao lado de outros sobreviventes de Auschwitz deixaria sua ode àquele mundo que o cercava…

Enquanto brindavam com seus licores de romã, Aviel e seus companheiros tentavam imaginar o percurso das águas de Munique, Nuremberg, Hamburgo e Frankfurtm, não mais inodoras, insípidas e incolores…
Nas canecas, nos cantis dos soldados, nos bebedouros das varandas deixados para os pássaros. O veneno desenvolvido pelo bioquímico Menashe, circulava por quase todo o território alemão.
E para Aviel essa água tinha absoluto sabor de vingança…

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Texto escrito para o site Ninho de Escritores, exercício número 12

Escreva um texto inteiro sobre uma mordida ou um gole!


Mini conto publicado originalmente no Ninho de Escritores, comunidade online com diversos exercicios para praticar a escrita, ler e ser lido trocando impressões e críticas construtivas...
Lá o título do conto era "Proibido trafegar no acostamento", optei por simplificar mais por aqui...

No acostamento -


Não aguentava mais deixar o braço reto, daquela maneira bem esticado invadindo parte da estrada. A pilha do walk-man acabou. Teve preguiça de tirar os fones que àquela altura eram apenas ornamentais. Apoiou o cotovelo na barriga e deixou apenas o antebraço como apoio sustentando a mensagem que o dedo enriste comunicava.

Não percebeu se o pôr do sol foi bonito ou nublado. A noite se instalou triste e deserta. Alguns ônibus indicavam em seus letreiros lugares que ele gostaria de conhecer, mas os motoristas não aceitavam o acordo que sua mão propunha. Um carro parou pra pedir informação e foi embora, outro passou em alta velocidade enquanto as pessoas lá dentro o xingavam de tudo quanto era nome. Um terceiro estacionou e ligou o pisca-alerta, quando ele se aproximou viu o carro ir embora e conseguiu ouvir outros xingamentos…

Nem hotéis ou pousadas por perto, nem pontes para se proteger abaixo delas ou encerrar algum problema acima. A estrada livre e interminável lhe convidava para um caminhar sem fim e sem futuro, ao redor o vazio da vegetação seca não lhe oferecia abrigo. Permanecia preso sem muros ou grades.

Durante a noite o volume de carros, ônibus e caminhões diminuiu drasticamente, assim como o número de xingamentos e falsas caronas. O sol não demorou a aparecer, veio violento contra o asfalto e a mata quase morta.

Mas o homem permaneceu inabalável diante de tudo, carros, caminhões, astros e xingamentos. Obstinado com o polegar em sinal positivo, paciente como Buda aguardando pelo momento em que finalmente poderia usar todas as facas, lâminas e outros objetos cortantes que carregava na mala de falso viajante… Tinha verdadeira fé que alguém em algum momento aceitaria participar de sua jornada…

Quarto desafio do Coletivo Monolito  , dessa vez a história deveria ter um churrasco de rena e ser contada por uma criança ou ter uma criança no mesmo ambiente. Essa foi minha colaboração no blog poderá ver o texto de outros autores do coletivo. Coletivo Monolito

Iktsuarpok*


A aldeia de Nujalik avançara cerca de 3 dias a sua frente. Iam cada vez mais ao norte, tentando manter-se a uma distância segura da influência dos homens brancos, que cada vez mais modificavam a vida e os costumes do povo Inuíte. Baleeiros e pescadores que chegavam nas regiões árticas do Canadá, em troca de peles de animais ofereciam farinha e pólvora, contudo, o xamã Yuk não sentia-se tranquilo com aquela presença, mesmo através de acordos e negociações, Yuk enxergava ainda alguma ameaça por trás de costumes tão estranhos daquele povo de pele branca e grandes olhos. Armas de fogo, crucifixos e construções grandiosas as quais davam o nome de igrejas assustavam o xamã.

Deixada para trás, Nujalik estava agora entre dois mundos, com pouco mais de 10 anos deveria fazer jus ao seu nome em homenagem a deusa da caça terrestre. Somente dessa forma poderia sobreviver naquele limbo de frio e solidão. Era pequena demais seguir os passos de seu povo, por outro lado morria de medo das histórias que contavam sobre o povo das cidades que cada vez mais cresciam no horizonte do ártico. Diziam que aqueles homens colocavam fogo em pessoas que eram diferentes deles e Nujalik, sabia, era bem diferente de todas aquelas pessoas.

Protegida com uma grossa camada de roupa feita com pele de foca e revestida com pelagem de urso, Nujalik não sofria tanto com o frio de -40 graus, mas sentia fome e o corpo precisava de alimento para continuar produzindo calor.

Enquanto improvisava um abrigo cavando a neve buscando partes mais próximas da terra, olhava para as marcas deixadas pela sua família. Cães, trenós e passos de seu povo que já se apagavam abaixo da neve que voltava a cair. Agora mais nada indicava o caminho, apenas a escuridão branca indicava dois caminhos opostos, impossíveis de serem seguidos.

A escuridão permanecia cercando Nujalik, de tempos em tempos o silêncio era interrompido pelo barulho do vento soprando rasteiro, movimentando árvores velhas e secas. Pequenos animais se movimentavam próximo a ela, curiosos e com medo, cascos de manadas de Caribus passavam a certa distância fazendo tremer o solo. Não muito mais distante do que isso o uivo da matilha de lobos anunciava que aquela região não seria segura para mais ninguém.

Nujalik foi mais ao fundo de sua toca, agarrou a pequena lança feita com ossos de animais e concentrou-se em escutar tudo o que acontecia, tudo o que se aproximava dela. Não pretendia por nada sair daquele lugar, qualquer barulho reafirmaria essa certeza e necessidade de segurança.

De repente o silêncio tomou conta de tudo lá fora, permanecendo assim por mais alguns instantes. Diante disso era impossível ficar ali parada sem saber o que acontecia lá fora. Vagarosamente Nujalik foi se movimentando, num pacto com o silêncio que rodeava aquelas terras, sabendo que qualquer movimento, qualquer som que ela emitisse ou provocasse, seria como o urro de um grande urso devido a calmaria lá fora.

Colocou a cabeça pra fora da toca, feito um filhote de foca, girou 360 graus com a lança sempre sempre bem segura nas pequenas mãos, prontas para um golpe certeiro e mortal. O vento começou a soprar novamente mas nenhum animal parecia estar por perto, não mais, num raio de 3 quilômetros apenas Nujalik e sua lança.

Um som assustador veio de dentro da toca, grave feito um terremoto, como se o chão fosse ser partido ao meio ou grandes rochas rolassem das montanhas. Mas era apenas o estômago de Nujalik e a fome que lhe enfraquecia e desesperava ao mesmo tempo.

Atenta novamente ao seu redor, novamente no silêncio branco que lhe aprisionava, viu um conjunto de luzes que pareciam flutuar rente ao chão. Luzes douradas, verdes, vermelhas e prateadas. As luzes pareciam trazer dezenas de sininhos presos a elas, sacolejando junto. O chão tremeu novamente, Nujakik reconheceu o som de um grupo de Caribus que vinha junta daquelas luzes, dos sinos e de uma volumosa figura na frente do trenó. Uma longa barba branca, roupa vermelha e a voz grossa controlando os animais:

Heeeia!!!!! Dasher, Dancer, Prancer!!!
Isso mesmo Vixen, Comet, forçaaaaaa!

Por poucos segundos aquela visão fez os olhos e o corpo de Nujalik permanecerem petrificados. Soltou o ar preso nos pulmões quando o trenó, Caribus e aquele gigante vermelho iam se aproximando de seu esconderijo. Segurou firme sua lança e a apoiou no chão lhe servindo de impulso para sair da toca. Arqueou as costas e foi correndo paralelamente ao trenó, escondida entre pequenas árvores. Um dos bichos percebeu a presença de Nujalik, e emitiu um som de alerta avisando aos outros do perigo.

– Heeeia!!!!! Gritou mais uma vez o homem da barba branca.
Enquanto Nujalik arremessou com força sua lança, acertando e atravessando o corpo de um dos bichos atrelado ao trenó.
– Donner!!! Gritou o homem de cima do veículo. Enquanto o bicho dobrava as patas caindo sem vida no chão, todos os outros iam se atropelando e provocando um empilhamento entre bichos, trenó, homem, luzes e sinos, capotando várias vezes sobre a neve branca e os olhos cerrados e destemidos de Nujalik.

Abençoada era aquela noite, a partir dali nem frio e tão pouco fome fariam parte de seus dias…

* Iktsuarpok – Palavra que vem do inuíte (região do ),
Palavra usada para descrever a impaciência proporcionada pela espera de alguém e que te leva a verificar o lado de fora da casa o tempo todo.

Naquela noite teve um desses sonhos que parecem reais, muito reais. 
Em seu sonho permaneceria dormindo pra sempre, neste sonho, nesse lugar, nada acontecia, nem outros sonhos ou pesadelos. Tudo permanecia parado como em algum lugar do espaço onde nem estrelas ou qualquer outra coisa ofuscam a preseça do NADA.
Era perfeito viver nesse vácuo de existência onde as coisas são perfeitas justamente por não existirem. O mais absoluto Nirvana que de tão nada, nem deveria ser citado aqui.
Contudo, o digo porque era um sonho, lamentavelmente ele acordou, coberto da insistência da vida que se faz entre bilhões de coisas inúteis, mas que no entanto, existem, influenciam e lhe obrigam a lembrar que terá pela frente mais uma vez a miséria dos dias... 

Com o fone de ouvido insiro trilha sonora no meu dia.
Os pensamentos são flasbacks e o olhar (qualquer olhar)
é corte de video-clipe.
A música que vem do fone dá aos passos ritmo, 
acerta o caminhar desengonçado 
dá velocidade aos pés em ritmo punk-rock.
O beijo do casal acontece em câmera lenta, qualquer gesto mais longo, acenos e abraços possuem agora, DRAMA.
No entanto, o fone de ouvido insere o vácuo em minha mente, ficam suspensos pensamentos, intactos, guardados, esperando que os apanhe novamente.
Com fone de ouvido permaneço introspectivo por horas, dias, meses... 
Com fone de ouvido sou Fred Aistaire, Gene Kelly.
Desvio de poças e buracos como o improviso de Miles ou Parker. Os pés deslizam no chão, esteiras, trilhos, rolimãs ao invés de pés enquanto ouço Daft Punk, Clash ou Cure porque não? 
Pois no meu fone de ouvido cada som obedece ao meu entendimento, ganha o contexto e a lembrança da primeira vez que escutei cada um daqueles sons... Reverbera diferente por aqui... 
A chuva incomoda menos. Diante dos faróis ou transito de gente... 
Tudo se movimenta.
Nem mais o ruído da cidade ou a lamentação das pessoas interfere, sobrepoe-se a alegria musical que ouço enquanto o mundo ao redor permanece chato e em silêncio.








Uma "homenagem" a São Paulo

Era uma vez uma cidade hostil. Onde uma guerra diária entre pessoas, prédios, ruas, carros e animais, tornavam a felicidade coisa impraticavel naquele lugar.

Continuo com minhas pesquisas em busca da origem do mal. Não estou certo ainda se o povo foi sempre sujo e traiçoeiro. Mesmo depois da execução do filósofo em praça pública, que desfilava profético com o cartaz:

CUIDADO!!! NOS PORTÕES DE AUSCHWITZ  ESTAVA ESCRITO:
"O TRABALHO LIBERTA" 

Depois enforcaram um jovem budista de extrema esquerda que distribuía folhetos com os dizeres:

ACORDE: A RAÇÃO DOS PORCOS SÓ OS MANTÉM VIVOS ATÉ A DATA DO ABATE!
FIQUE ATENTO ÀQUILO PELO QUE VOCÊ É GRATO...

Contudo, as ultimas escavações revelaram uma imensa rede de computadores abaixo do antigo marco zero da cidade. O coração da antiga cidade. O centro nervoso de toda comunicação, monitoramento e controle.

Especialista deram um novo BOOT no sistema, mantendo sua funcionalidade limitada e fora do alcance dos outros computadores. Simularam uma "ilha" para que pudêssemos ver o comportamento daquela inteligência artificial.

Igualmente a todos as I.A do mundo, o sistema de São Paulo também mantinha seus habitantes enclausurados, presos, encaixados como pilhas numa simulação de vida. Através dos pensamentos e sentimentos desses, milhões de watts eram gerados para alimentar às máquinas.

Enquanto outros polos simulavam cidades e vidas perfeitas (ou próximas disso), colhendo uma energia X da sensação de alegria de seus habitantes. A máquina paulista percebeu que do stress, horror, medo e tristeza, poderia gerar muito mais energia de seus habitantes-pilhas. E assim, seu simulacro funcionava num rodizio de desgraças e tristezas que aconteciam de forma ininterrupta e cada vez com mais força. Por consequência os infartos dos habitantes das cabines passaram a ser frequentes, gerando ainda mais energia. Notou-se que o infarto era bom... Mesmo com o fim daquela "pilha" a conta ainda era positiva e assim foram os dias de São Paulo, até seu aniversário de 500 anos quando o grande BOOM aconteceu.

Mapeando as placas, redes, hds e softwares viu-se o seguinte padrão de comportamento do programa SÃO PAULO, com palavras chaves de comando, que se repetiam.

TRANSITO, ASSALTOS, ASSASSINATOS, IMPUNIDADE, CORRUPÇÃO, AGLOMERAÇÃO, ALTAS TEMPERATURAS - SEGUIDAS DE CHUVAS E ENCHENTES, ATRASOS, IMPOSSIBILIDADE DE CUMPRIR COM COMPROMISSOS,  FLANELINHAS, LADRÕES, POLICIAIS LADRÕES, TRABALHADORES LADRÕES, MOTORISTAS LADRÕES, PATRÕES LADRÕES, FUNCIONÁRIOS LADRÕES, VISLUMBRE DE FELICIDADE ALHEIA, SONHOS ALHEIOS, RAROS EXEMPLOS DE FELICIDADE (PORÉM INALCANÇÁVEIS), TRANSITO, MULTAS, IMPOSTOS, RADARES, BURACOS, CHEIRO DE BOSTA, DESEMPREGO, ZERO TEMPO LIVRE, INFLAÇÃO, TRANSITO, TRANSITO, TRANSITO.

Os comandos continuavam e terminavam com a seguinte sequência:

HORROR E FIO DE ESPERANÇA, DOIS A TRÊS DIAS DE PAZ E ALEGRIA... E novamente reiniciava a sequência de TRANSITO, ASSALTOS, ASSASSINATOS...

Muitos estudos a frente, percebemos que nem o infarto nem a desgraça diária eram responsáveis pela maior parte das energias para as máquinas. Mas aquele minuto de esperança desesperada e por consequência a desesperança causavam picos máximos de energia, era esse momento que a MATRIX paulistana se aperfeiçoou.

Para o bem de todos, essa excelência de funcionamento gerou cargas gigantescas que resultou na sua própria ruína. A grande explosão transformou tudo num pasto cinza, vazio e silencioso.

Nos retiramos dos limites da cidade, fechamos os portões, e com a constatação de que algumas formas de vida ainda insistem por ali, autorizamos mais um bombardeio. Precisamos manter o mundo a salvo de você São Paulo...